[PT] Re;Blade 10

Depois de mais tempo que gostaria, aqui está o cap 10 de Re;Blade

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Capítulo 10 – A mulher que se tornou uma espada

Um homem com barba recém-feita caminhava entre os espólios que os saqueadores puseram no chão, examinando tudo em silêncio.

A mais velha dos três irmãos aguardou sem deixar transparecer qualquer emoção.

Os mais novos, porém, não podiam esconder a ansiedade.

A mais velha sabia por que seus irmãos mais novos estavam daquele jeito.

— A gente tem que vender tudo e voltar pra a cidade antes do sol se pôr — ela disse antes de chegaram ao acampamento do exército.

Se chegassem tarde demais, talvez não vivessem o bastante para usar o dinheiro.

— São todas as armas e armaduras que recolheram do campo de batalha? — perguntou o homem por fim, sua voz demonstrando que ele não estava impressionado.

— Sim, meu lorde — disse a mais velha, tendo cuidado para não olhar o homem nos olhos.

— Não sou lorde nenhum — interrompeu ele bruscamente, sem nem dirigir o olhar a ela.

— M-minhas desculpas, senhor — disse, engolindo em seco. Ela fez uma reverência para ele e seus irmãos se apressaram em imitá-la.

— A maioria está quebrada — disse o homem, pegando uma espada da pilha.

— S-Sim, lord… digo, senhor. A batalha foi dura, especialmente após lidarem com os comedores de Areia. Acredite em mim, a gente trouxe o melhor que restou do campo de batalha — disse a mulher.

Ela arregalou os olhos para a ousadia que tomou e abaixou a cabeça, olhando para o chão.

A mais velha fechou as mãos em punhos com tanta força que eles perderam a cor.

O garotinho ao lado dela agarrou sua mão e apertou.

Ela olhou para ele e conseguiu mostrar um sorriso tenso.

— Só algumas podem ser usadas logo. A maioria precisa ser derretida para ter qualquer uso, mas meu Lorde as aceitará. Precisamos de todo metal que conseguirmos — disse o homem, virando-se para os irmãos. — Pagarei o preço que pedem.

Os saqueadores mais novos sorriram e olharam para a irmã mais velha.

Ela soltou um pequeno suspiro de alívio e devolveu o sorriso a seus irmãos.

Não vendo a troca dos três, o homem assentiu para um soldado.

A mulher saiu de lá e foi até uma das tendas no meio do acampamento.

Quando voltou, segurava um pequeno saco cheio de moedas e as entregou aos irmãos.

A irmã mais velha tentou manter um rosto neutro. Mas quando abriu o saco, seu rosto iluminou-se com um sorriso enquanto ela e os outros dois encaravam as moedas prateadas e de cobre.

Eles trocaram olhares entre si novamente e seus sorrisos aumentaram.

— Obrigada, meu lor… senhor. Muito obrigada por sua generosidade — disse a mais velha, fazendo outra mesura.

O homem soltou uma risada rápido.

— Não estou sendo generoso. Precisamos de todo metal para armas e armaduras. Especialmente em tempos como estes — disse, o rosto ficando sombrio.

O trio saqueador parou de sorrir, deixou os ombros caírem e olhou para o chão.

Foi um mês difícil.

Antes da traição do povo da floresta, houveram notícias sobre grupos invasores de todos os lados da fronteira. De norte, sul e oeste.

O reino tinha conseguido lidar com todos os ataques com facilidade.

Mas, após a primeira invasão registrada na história de todo o povo dos Habitantes da Areia, as coisas pioraram muito.

A violência aumentou. A vida ficou mais difícil.

Bandidos apareciam aqui e acolá, aterrorizando a população.

O reino, ocupado demais lidando com os invasores, não podia lidar com todos, e precisou deixar nas mãos dos Lordes e nobres locais.

A maioria aumentou os impostos, clamando ser uma necessidade para poder manter a ordem e segurança de suas terras.

Mas poucas cidades viram o dinheiro virar lâminas de aluguel perambulando pelas ruas.

Os mercadores precisaram aumentar seus preços para contratar proteção.

Com tudo ficando mais difícil e caro, cada vez mais pessoas adentraram a vida de crimes para poder sobreviver.

A vida nas cidades, supostamente seguras, desapareceu dos locais afastados da capital.

E ninguém tinha qualquer esperança de que a situação melhorasse em um futuro próximo.

A irmã mais velha passou o dinheiro para a mais nova.

A garotinha correu até a carroça deles para guardá-lo em um lugar seguro.

Mas, quando puxou a tampa do painel de madeira falsa…

— O que é isso? — o homem perguntou, do nada.

A garota ficou paralisada. Com as duas mãos trêmulas, ela enfiou o dinheiro em um local seguro e virou-se para ele, medo estampado no rosto.

— O que é isso? — perguntou novamente o homem, com a voz rígida e fria.

A garota tremeu e chorou em silêncio.

— D-Do que você fala, meu lorde, digo, senhor…? — perguntou a mais velha, caminhando até ficar entre o homem e a garotinha.

Ele ignorou ambas. Passou pelas duas, foi até o carrinho e então tirou a tela que os saqueadores usavam para cobrir seu lote da chuva.

Debaixo dos pertences pessoais dos irmãos havia uma espada envolvida em um pano.

Deveria ser impossível sequer ver a lâmina sem bainha.

Não era possível distinguir o cabo.

Mas o homem encontrou-a de algum jeito.

Ele empurrou tudo em volta e pegou a espada, descobrindo-a.

Não possuía ornamentos. Nem joias. Muito menos algo encravado ou inscrito.

Não havia nada de especial naquela espada.

Era somente uma arma de mão única longa e fina, com um cabo grande o bastante para ser usada por duas mãos se necessário.

Ainda assim, o homem não conseguiu tirar os olhos da lâmina.

— Meu lorde, digo, senhor, essa espada é… ela é… — A irmã mais velha começou a murmurar, mas parou quando percebeu que o homem não a ouvia.

O nobre virou a lâmina, conferindo cada milímetro dela.

— Onde encontraram isso? — perguntou após um demorado silêncio, sem tirar o olhos da arma.

A curiosidade era clara nos olhos dele, que encaravam seu reflexo no metal.

A mulher mordeu os lábios e trocou olhares com os irmãos.

Suspirando, ela fechou os olhos.

— Pegamos no campo de batalha, senhor — disse, o arrependimento claro em sua voz.

Os outros dois saqueadores olharam para o chão, temendo fazer contato visual com o nobre.

— No campo de batalha…? Quem… tinha esta espada? — perguntou o homem com a voz mais alta. — Quem segurava essa lâmina?

— H-Hã…?

— Quem carregava essa lâmina? — perguntou novamente, quase gritando dessa vez.

Alguns soldados começaram a olhar na direção deles.

Os saqueadores mais novos se encolheram e esconderam atrás da irmã. Ela abriu os braços discretamente para protegê-los caso acontecesse qualquer coisa.

A mulher engoliu em seco com dificuldade, sua boca e garganta secas.

— P-Pertenceu… estava nas mãos do traidor… Fael. — Conseguiu dizer.

O homem arregalou os olhos.

— Como uma arma dessas acabou nas mãos de alguém como ele…? — perguntou, mais para si do que para os irmãos.

As pessoas em volta deles ficaram quietas enquanto o homem pensava.

Os irmãos aguardavam, com medo.

— Por que não me mostraram esta espada? — perguntou após conseguir tirar os olhos da arma.

Sua voz foi tão baixa que foi difícil saber se ele estava com raiva ou não.

A mulher apertou as mãos para impedir o tremor. Mas não fez diferença.

Todos sabiam que mentir para um nobre ou soldado de alto escalão era arriscado.

Tirando o rei, não havia lei contra isso.

Mas haveria punição.

E a punição dependia do humor da pessoa na posição superior.

Eles podiam liberar os mentirosos ou até executá-los, e poucos reclamariam.

A mulher ficou parada, o suor frio escorria por suas costas.

Ela sabia dos riscos de mentir. Sabia muito bem.

Mas ainda tentou mentir para o nobre.

Só para ficar com aquela espada de uma mão que emanava uma aura estranha.

Se a vendessem na cidade, poderiam conseguir uma quantidade incrível de dinheiro.

Riquezas além do sonho de meros saqueadores.

Por esse motivo, ela correu o risco de mentir quando o nobre perguntou se aquelas eram todas as armas deles.

Ela se preparou para as consequências.

Mas só ela. Seus irmãos nada tinham a ver com aquilo.

Abrindo os braços ainda mais, ela respirou fundo.

— P-porque pensei que poderia vender por um preço maior na cidade, meu lord… senhor — disse a mais velha, esforçando-se para não soar desafiadora.

Não foi difícil. Ela só conseguia sentir medo.

Mesmo assim, achou coragem para dizer algo a mais.

— Por favor, senhor, meus irmãos não tem nada a ver com isso. Foi uma decisão minha — disse, ajoelhando-se aos pés dele.

Os irmãos se juntaram a ela, sem dizer nada, e abaixaram as cabeças.

O homem não demonstrou emoção enquanto os encarava.

Ninguém ousou quebrar o silêncio por muito tempo.

Então, após o que pareceu ser uma eternidade, o homem voltou-se para a soldado de novo.

Os saqueadores temiam pelo pior. Ela parou de respirar enquanto aguardava sua sentença.

A mulher caminhou até ele, seus passos ecoando alto no silêncio do acampamento.

Após o nobre sussurrar algo, ela fez uma reverência e foi embora.

O tempo parecia se estender para os saqueadores, como se tivesse parado.

Até os soldados temiam o que poderia acontecer quando sua companheira voltou.

Então os passos da mulher voltaram.

A mais velha escutou algo pesado chacoalhar.

Ela ergueu a cabeça com dificuldade.

A soldada não segurava uma arma. Ela segurava um saco que parecia pesado.

Ela caminhou até os irmãos e parou na frente deles, oferecendo o saco.

Com o corpo dormente, a saqueadora ficou de pé e estendeu a mão para pegar.

Quando a soldada soltou, ela gemeu com o peso do saco.

Seus irmãos se levantaram.

Ela olhou o saco, depois para os irmãos, que tremiam de medo, então para o homem, ainda olhando para a espada.

Suas mãos tremiam tanto que era difícil abrir o saco.

Com dificuldade, ela segurou o saco com um braço e abriu com a mão livre.

A mulher teve dificuldade para respirar ao ver o conteúdo.

Incontáveis moedas de ouro brilhavam sob a luz do sol.

Os irmãos mais novos arregalaram seus olhos ao ver o dinheiro. Jamais viram tanto ouro junto.

A mais velha olhou para o homem, que finalmente tirara os olhos da espada.

— Espero que seja o bastante — disse, e seu tom indicava que eles deveriam considerar.

A mulher percebeu que, se pedisse por mais, ele daria mais ouro a ela.

Mas estava com medo demais para isso.

Apenas tentou agradecê-lo, mas não tinha voz para isso.

Só conseguiu assentir, o corpo rígido.

O homem sorriu, ou quase, e afastou-se dos três.

Os negócios terminaram.

Enquanto os saqueadores tentaram se afastar o mais rápido que podiam, o nobre foi para a segunda maior tenda do acampamento..

Dois soldados na entrada fizeram um cumprimento ao verem-no entrar.

— Meu Lorde? — perguntou o homem em voz baixa para a tenda mal iluminada.

Mesmo assim, não havia como esconder a excitação em sua voz.

— O que foi? — respondeu uma voz mal-humorada de algum lugar do interior.

— Veja o que encontrei, meu lorde — disse o homem, sem tentar esconder sua alegria mais.

Houve um grunhido e então alguns murmúrios incompreensíveis, depois, velas se acenderam no interior.

O homem caminhou até ficar perto da cama do Lorde.

O nobre de maior posição do acampamento não estava sozinho.

A mulher a seu lado sorriu para o Lorde antes de colocar suas roupas e sair da tenda.

O Lorde esfregou os olhos, tentando ignorar a sonolência.

Mas, ao ver a lâmina que o subordinado trouxe, ele despertou de vez.

Sem dizer nada, ele passou um dedo pela espada e a encarou por muito tempo.

O soldado assistiu a reação do Lorde em silêncio.

— Metal vivo…

— Exato, meu Lorde.

— Como…? Onde…?

— Alguns saqueadores encontraram no campo de batalha. Nas mãos de Fael — disse o subordinado, quase como se saboreasse as palavras.

— O traidor… — Os olhos do Lorde brilharam.

Ele agarrou o cabo e ergueu a espada, manejando-a algumas vezes.

— Essa lâmina é digna de um homem como eu — disse o Lorde, sorrindo.

Então este é meu novo usuário, pensou Tetsuko, observando o homem manejá-la como um brinquedo novo.

Embora estivesse sob a luz fraca da lamparina, ela pôde ver nos olhos dele.

Não… desde o instante em que ele a tocou, ela pôde sentir.

Ela não era uma espada para ele. Era um prêmio.

Eu não gosto dele.

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Obrigado por lerem
Espero que tenham gostado.
Terça que vem tem mais

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