[PT] Samurai NOT 18

Feliz natal.
Trazendo o presente de vocês um pouco mais cedo XD
Espero que gostem do último cap que lançarei no ano

 

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Samurai NOT 18

— Melhor a gente voltar. Já é bem tarde… — Tadayoshi olhou para cima. A lua e as estrelas dividiam o céu com o sol se pondo. Então ele virou para ela. — Você precisa se limpar e trocar de roupas antes. Duvido que alguém deixe você entrar na cidade desse jeito.

Além de sangue, estava coberta de terra, suor e folhas. Sua roupa tinha pequenos rasgos aqui e alie e seus braços e pernas cheios de cortes e arranhões. Quando foi que… ah… quando eu subi na árvore, ela percebeu, soltando uma pequena risada. Na última noite do festival, quando todo mundo vai estar no seu melhor, eu tô assim.

Ignorando seu corpo sem força, Ei escalou a árvore de novo, indo para um dos galhos mais baixos e mais largos, onde ela deixara os pertences deles antes de correr até o topo. Ela pulou, dobrou os joelhos no momento que aterrissou e olhou para seu mestre.

Tadayoshi descansava com as costas contra a árvore e se apoiando na espada. Seu rosto estremecia com cada respirada que dava. Ele está focado demais em recuperar as forças pra prestar atenção em mim, ela pensou antes de despir e se lavar no rio.

Quando saiu da água, ela secou o corpo com as roupas que usou até agora e colocou as velhas. Eu só tive essas roupas desde ontem e já estou chamando de velhas, ela pensou com uma risada fraca.

Por um momento, Ei encarou o quimono verde. A ideia de jogá-lo no rio cruzou sua mente. Ela levantou o braço, mas quando estava prestes a atirar, desistiu. Ela abaixou a mão e sentiu o tecido com os dedos. Essas roupas são prova que eu… Sem terminar o pensamento, ela andou de volta até seu mestre.

Tadayoshi ainda descansava contra a árvore. O rosto dele não tinha recuperado a cor de sempre, mas sua respiração estava normal e ele não estremecia tanto.

— Volte pra cidade. Tome um banho quente. Vai fazer você se sentir melhor — ele disse numa voz contida. Mas mesmo com toda a dor, ele mostrou um sorriso. — É melhor que eu fique aqui. Os guardas definitivamente vão me achar suspeito e eu prefiro evitar isso. Vê se consegue trazer um pouco de comida.

Ei assentiu sem dizer nada. Tadayoshi fechou o olho bom e ficou como estava, respirando fundo.

Ele é forte. Ei acreditava naquilo. Não, ela sabia que ele era. Mestre foi… é o discípulo de Yasuhiro-sama, o samurai mais forte… e mesmo assim ele quase morreu hoje… Acho que tem muitas pessoas fortes nesse mundo… A garota olhou para o céu e se sentiu pequena. Eu preciso… eu vou ser forte e lutar ao lado do meu mestre, ela reafirmou sua determinação, fechando o punho.

Ei começou a fazer seu caminho de volta para a cidade, mas parou e virou na direção do homem que tinha matado. Com os olhos fechados, ela mordeu os lábios, respirou fundo e andou até o cadáver.

O samurai estava na mesma posição, a mão que restara cobrindo o rosto. O sangue tinha secado de onde Ei o atacara. Ela tentou mexer o braço dele, mas com a armadura, era pesado demais para ela.

Juntando tudo que restava de suas forças, ela conseguiu mexer o suficiente para arrancar o que sobrou da máscara. Ela não sabia a razão, mas precisava ver o rosto do samurai, gravar o rosto do primeiro homem que matara em sua mente. Mesmo sem vida, tinha algo naqueles olhos. São iguais aos daquele samurai

Com uma sensação de vazio, Ei se afastou do samurai e andou de volta até a cidade.

O sol quase desaparecera por completo quando Ei retornou a Mino. No momento que passou pelos portões, ela sabia que tinha algo diferente no último dia do Obon. A cidade parecia muito mais animada do que ontem. Tem ainda mais pessoas…

Apesar de todos darem espaço para evitar tocar em Ei, isso não fez achar a pousada mais fácil. Mesmo no segundo dia na cidade, tudo parecia novo para ela. Ela não reconhecia nenhuma casa, nenhuma loja, nenhuma mesa e apenas andou na direção geral que lembrava. Quando finalmente chegou na pousada, era de noite.

O lugar estava vazia; exceto por um casal encarregado, apesar dos dois parecerem prontos para irem embora, a maioria dos hóspedes já estavam no festival. Ei se juntou a três mulheres que estavam atrasadas para o banho.

Apesar do fogo quase apagado, a água ainda estava morna. Mesmo na noite quente, era um alívio para a garota. Por um momento Ei pensou em ficar a noite toda apreciando o banho. Mas quando percebeu que as outras mulheres já tinham terminado, ela saiu da banheira de madeira a contragosto.

— Com licença — a jovem encarregada disse, fazendo uma pequena reverência para Ei quando a garota estava saindo.

Só com aquelas poucas palavras, Ei conseguia sentir a raiva por trás da falsa cortesia. Ela quer ir pro festival com aquele cara e eu estou no caminho.

— Seu… pai… — as bochechas da jovem ficaram vermelhas e ela escondeu o sorriso com a mão — deixou algumas roupas no seu quarto antes e me pediu para lhe ajudar a vestir.

Por alguma razão, a atitude da mulher irritou Ei, mas ela ainda a seguiu. No quarto deles, dobrada em cima da pilha de palha que era sua cama, tinha uma yukata. Azul escuro com flores de cerejeira bordado. Em cima da yukata, um obi vermelho vivo e um par de sandálias de madeira no canto. Ei sentou na cama, admirando as roupas. Pra mim…?

Com ajuda da moça, Ei vestiu a yukata. Era mais difícil do que ela imaginou. A roupa era justa e difícil andar, mas o verdadeiro problema era o obi. O laço era tão complicado que Ei não acreditava que alguém conseguisse colocar sozinha.

A moça terminou com um pequeno pente com uma flor decorativa. Apesar do cabelo de Ei tinha crescido desde de que saiu da vila, ainda era curto. Mas de alguma forma a moça achou um jeito de amarra o cabelo selvagem e duro com o pente no lado da cabeça dela.

— Você está linda. Seu pai com certeza vai achar.

Apesar da atitude da mulher, Ei conseguia dizer que o elogio era sincero, e suas bochechas coraram. A menina seguiu a moça até a entrada, onde o rapaz a esperava. Os três eram os únicos na pousada. Ei a agradeceu de novo e saiu antes do casal.

As ruas estavam quase vazias. Tirando os guardas, poucas pessoas estavam dentro das muralhas da cidade. Ei viu um grupo de três mulheres e três homens conversando alegremente e os seguiu. Uma mulher notou a garota. Ela encarou com uma expressão estranha e então sussurrou para as outras duas, que viraram as cabeças também.

Elas ficaram olhando e sussurrando tanto que Ei ficou cansada. Ela colocou alguma distância entre ela e o grupo. Quando estavam fora de vista, a Ei viu um balde d’água contra incêndio na frente de uma casa. Com sua curiosidade crescendo, ela desviou seu caminho para se checar.

Por um momento ela não acreditou que era seu rosto e piscou algumas vezes. O rosto de uma garota linda, com o cabelo amarrado num estilo elegante e vestindo uma roupa que combinava, a encarava de volta. Essa sou eu…? Antes que percebesse, ela sorriu e sentiu uma satisfação na expressão das mulheres, apesar de não saber a razão.

Ainda sorrindo, ela seguiu as últimas pessoas saindo dos portões. Todos iam para a margem mais próxima da cidade. Ei virou para uma direção diferente, indo para o lugar onde seu mestre a esperava. Levou quase o dobro de tempo para voltar. Ela não estava acostumada com as sandálias de madeira e a yukata não permitia passos largos ou rápidos.

Tadayoshi estava perto da árvore, observando o rio com os braços cruzados. Mesmo daquela distância, Ei conseguia ver que ele tinha se lavado e vestia uma yukata também. Azul escuro sem outro detalhe.

Quando ela estava perto o suficiente, ele virou. Ei parou por um momento, surpresa com a aparência de seu mestre. Tadayoshi não parecia alguém que esteve numa luta mortal horas antes. O único vestígio eram as ataduras debaixo dos cabelos pretos e desarrumados. Quando ela percebeu que as ataduras eram parte do quimono verde, ela riu.

Tirando as roupas, a verdadeira diferença estava na cintura dele. Agora Tadayoshi tinha três espadas. Aquela que ganhou de seu mestre na esquerda e as outras duas na direita. Ei sabia que ele as tinha limpado. Apesar dele mal deixar ela usar uma lâmina de verdade, ele a tinha ensinado como limpar uma espada.

De alguma forma, isso era reconfortante para ela vê-lo dessa forma. Espero que eu consiga ser desse jeito também, ela pensou, parando na frente dele.

— Fiquei um pouco preocupado. Não sabia se conseguia vestir roupas boas — ele disse, a olhando dos pés à cabeça. Então ele mostrou um sorriso brincalhão. — Mas admito que estou errado. Você limpa bem. Mas vamos ser honesto. Meu gosto em roupas é muito bom.

— Obrigada. — Ei não se irritou. Na verdade, ela ficou surpresa por sua risada. Esse é o jeito do meu mestre idiota de dizer que estou bonita. — Onde conseguiu essas roupas?

— Peguei emprestado — ele disse numa voz livre de culpa, apesar do rosto dizer o contrário.

Demorou um tempo, mas Ei riu quando lembrou da conversa deles naquela manhã. Parece que foi uma eternidade atrás.

— O que é isso?

Perto do pé da árvore, tinha um pequeno pedaço quadrado de madeira, não maior que a mão dele. Em cada canto havia uma haste de madeira com papel branco de arroz as conectando. No centro, uma pequena vela queimava fracamente.

— Já ouviu falar de Tooro Nagashi? É uma tradição do último dia do festival —ele disse quando ela sacudiu a cabeça. Então ele indicou o rio com o queixo. — Olhe.

Centenas, talvez milhares de pequenas luzes desciam a correnteza. Elas iluminavam o rio, brilhando como estrelas nas águas escuras. Ei cerrou os olhos, tentando ver o que criava tanta beleza. Lanternas, ela percebeu, como a de Tadayoshi, só que a maioria era muito mais elegante.

Algumas eram grandes e redondas, tão brilhantes que pareciam pequenos sóis. Outras eram pequenas e brilhavam como pequenas flores. As luzes eram vermelhas, verdes, amarelas… todas cores que Ei conhecia flutuavam rio abaixo. Uma lanterna vermelha se distinguia das outras. A chama era tão intensa que ofuscava as outras. Essa deve ser do senhor, ela pensou, observando o fluxo interminável de lanternas. Será que elas vão acabar no mar também?

— Os espíritos das pessoas queridas… aqueles que voltaram para ver seus familiares e amigos… eles precisam de uma luz para guiá-los em segurança… — Tadayoshi tentou falar como sempre, mas Ei sabia a razão pela qual ele não conseguia.

Ele está pensando em Yasuhiro-sama. Ei olhou de relance para seu mestre, que segurava as lágrimas. Sacudindo a cabeça, Tadayoshi deu a lanterna para ela. A garota a encarou nos olhos até ele assentir.

Ei pegou a lanterna e eles andaram até o rio. Puxando as mangas da roupa, ela ajoelhou com cuidado e colocou a lanterna na água, dando um pequeno empurrão. A lanterna pequena e simples dele se juntou às outras. Ela tentou acompanhar, mas logo perdeu de vista. Acho que é impossível, ela pensou, um sorriso triste nos lábios.

Enquanto observavam as lanternas flutuarem rio abaixo, uma névoa apareceu acima d’água. Era tão fina Ei não sabia se era de verdade ou as luzes enganando seus olhos. Sem ficar mais densa, a névoa começou a acumular ao redor das lanternas.

Ei ainda estava procurando a deles, e não conseguiu acreditar quando encontrou.

Acima de cada lanterna, a névoa lentamente assumia forma humana. Acima da lanterna deles, um rosto surgiu. Mas não era um rosto qualquer; era um que ela tinha conhecido e amado sua vida inteira.

Mamãe… Não deveria ser possível. Ela estava morta. Ei sabia disso. E mesmo assim o rosto de sua mãe estava lá, quase invisível. Mas o sorriso dela era como Ei lembrava. Lágrimas silenciosas caíram dos olhos da garota.

Não sabia se estava imaginando ou não, mas não importava. Para ela, era real. Os espíritos das pessoas queridas que não estavam mais nesse mundo vinham visitar uma vez por ano. Sua mãe estava lá, sorrindo para a garota mais uma vez.

Mas ela não estava sozinha.

Ao lado dela, acima da mesma lanterna, tinha um rosto de um homem. Seu cabelo curto e tão bagunçado quanto. E apesar da aparência de dignidade, tinha algo selvagem, jovem e forte no velho rosto.

Ela olhou para cima. Tadayoshi encarava o rio com lágrimas, como ela.

Ei não precisava perguntar. Ela sabia quem o espírito era. Sem falar, ela segurou a mão dele e ele apertou de volta.

Os dois observaram em silêncio as luzes e os espíritos, a correnteza levando as pessoas que eles amavam embora mais uma vez.

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Obrigado por lerem
Aqui termina a parte 2 de Samurai NOT, fechando o arco de Ei.
Parte 3 deve chegar em março ou abril, mas até lá, lançarei um história curta relacionada chamada “O conto dos dois irmãos”.
Feliz natal a todos

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