[PT] Nadador 6

Devido ao feriado, trago a dose semanal de Cris e Nelson um pouco mais cedo. Espero que gostem do primeiro cap do mês de novembro.


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O Nadador e o Assistente 6

Estou tão fora de forma, pensou Nelson enquanto sentava no banco para desacelerar a respiração. Cada respirada que dava doía um pouco. Bom, isso era esperado. Mas pensar que seria tanto assim… Estive correndo um pouco desde que o médico me deu permissão, mas não recuperei nada depois todo esse tempo… uma distância curta dessas nunca me cansaria antes.

— Você está muito fora de forma! — exclamou Cris na cara dura enquanto sentava perto do nadador, olhando para Nelson com um sorriso de orelha a orelha. — Acho que nadadores realmente são como peixes fora d’água quando estão fora da piscina.

Nelson o encarou e soltou uma risada contra sua vontade. Ele passou a mão no rosto para esconder o sorriso.

— Que piada horrível. Foi tão ruim que você devia sentir vergonha e se esconder do público — disse, balançando a cabeça, mas um sorriso ainda se forçando em seus lábios.

— Mesmo assim, você não consegue parar de sorrir — disse Cris, cujo próprio sorriso aumentava.

— Foi tão ruim que ri da ruindade dela. Valeu — adicionou Nelson quando Cris passou uma garrafa d’água. Ele bebeu metade em um gole só. O nadador limpou a boca com a parte de trás da mão e mostrou a garrafa para Cris. — Você devia fazer coisas assim, sabe? Ajudar, apoiar e tudo mais pro cara que vai ser assistente, em vez de, sabe, ser brutalmente honesto em como estou fora de forma.

Cris colocou sua mão no queixo e cerrou os olhos, fingindo pensar profundamente.

— Tem razão. Eu devia ajudar mais — disse, após um tempo. Então, sua expressão séria mudou para uma zombeteira com um sorriso animado. — Mas é mais legal tirar uma com você!

— Bom saber que você vai se divertir às minhas custas de agora em diante — disse Nelson, tentando colocar um pouco de raiva falsa na voz. Mas quando viu o sorrisinho de Cris, sabia que falhara.

— Ah, vai. Eu prefiro ser sincero. Além do mais. — Sua expressão ficou séria, sem brincadeiras. — Você vai escutar coisa bem pior quando voltar pras piscinas, sabia? Sendo assim, não é melhor escutar de quem tem o seu melhor interesse no coração?

Nelson abriu a boca, desistiu e então suspirou. Ele bebeu o resto da água em silêncio.

— É verdade — disse depois de um tempo com um sorriso triste. — Estou muito enferrujado, embora estivesse me exercitando por um tempo. Não dá pra argumentar contra a verdade cruel. Especialmente dada por alguém que tem o meu melhor interesse no coração.

Cris logo reparou o tom zombeteiro.

— Mas eu tenho sim! Pode acreditar, nunca acordei tão cedo por outra pessoa.

— Ainda sou grato pela oferta de uma vida — disse Nelson, fazendo uma pequena reverência. Mas, quando ergueu os olhos, sorria de novo. — Só que ainda acho que você devia ser mais gentil. Posso ter essa cara, mas palavras machucam meu pobre coração.

— Tá mais pra você que quebra muitos corações — murmurou Cris. Então pegou a garrafa vazia da mão de Nelson e a substituiu por uma bebida esportiva. — Em vez de ser mais gentil, prefiro ajudar com coisas desse tipo.

— Acho que dá pra aceitar. — Nelson bebeu quase metade em um gole só.

— Então, atleta Nelson — falou Cris para seu punho fechado, fingindo ser um microfone —, como se sente quanto ao seu retorno? — Ele moveu a mão para mais perto da boca de Nelson.

Nelson olhou a mão e depois o rosto de Cris.

— Bom, se eu precisar ser franco… Me sinto uma merda no fundo do poço.

Cris tentou conter, mas logo foi difícil impedir a risada.

— Bom, era esperado, acredito, mas você sabe que tem algo bom com relação a isso?

— Sério? E o que é? — Nelson olhou para Cris, descrente. — Eu gostaria de saber, já que não tenho a mínima ideia.

— Agora só dá pra ir pra cima! — gritou Cris com um grande sorriso.

Nelson olhou para aquele sorriso e não pode resistir a soltar uma risada fraco.

— Você também podia me ajudar a ser otimista desse jeito — disse em voz baixa.

— Hoje é uma ocasião especial. Vai ser ruim pra mim se você pensar que sou assim o tempo todo. Especialmente quando ver minha faceta real — disse, o sorriso ficando malicioso.

O nadador soltou um risinho.

— Bom, vou conhecer sua faceta real no futuro. Mas, mesmo assim, queria ser que nem você. Otimista sobre isso tudo… — O sorriso de Nelson diminuiu enquanto olhava para baixo. — Na verdade, tenho medo… estou rezando do fundo do coração que tenha como ir para cima…

Cris parou de sorrir. Ele ficou em silêncio enquanto encarava o rosto de Nelson. Após um instante, inclinou-se para frente:

— Sei que acabamos de nos conhecer, mas estou aqui por você — disse, baixinho.

Nelson ergueu a cabeça e virou-se para o homem que conhecera na noite anterior. Ele olhou para o rosto que geralmente tinha um sorriso. Cris agora mostrava uma expressão preocupada, pronto para escutar o que quer que ele fosse dizer. O nadador hesitou por um segundo, mas as palavras saíram dele.

— Acho que estou sendo egoísta demais. Eu… Eu devia ter morrido naquele acidente, mas não morri. Isso foi um milagre. Daí eu devia ter perdido a perna, mas não perdi. Os médicos disseram que eu podia ficar sem movê-las mais. Mas cá estou — disse Nelson, enterrando o rosto em ambas as mãos. — Nadar como antes devia ser um milagre também, mas vou ficar sem milagres logo ou não? E se a ressonância mostrar que não posso voltar pras piscinas? Sei que é egoísmo, mas não tem como… Não posso perder as piscinas… Sem elas, eu… Eu não sei o que sou sem elas…

Antes que notasse, Nelson chorava nas mãos dele. Cris aguardou em silêncio, apenas o som do choro ecoando entre eles.

— Você não está sendo egoísta — disse ele depois de Nelson terminar de chorar. O nadador ergueu a cabeça e olhou para seu assistente. — E ainda que pense isso, nesse caso, você pode ser egoísta sim. Você não está tirando nada de ninguém. É seu objetivo, seu sonho, então não tem nada de errado nisso.

— Você acha?

— Sim! E se alguém reclamar, diga que eu deixei você ser egoísta — disse Cris com um sorriso confiante que arrancou uma risada do nadador.

— Mas… e se eu não conseguir voltar pra piscina?

— Então você vai se sentir perdido por um tempo. Talvez por um bom tempo. Mas, quem sabe encontre outro caminho. Mesmo que não seja na piscina, mesmo que não seja como atleta, há muito que você pode fazer. — Cris encarou Nelson com um sorriso gentil.

— Você está… certo. — Nelson suspirou e se inclinou de volta no banco, observando o céu claro. — Você diz isso com tanta confiança que é quase como se estivesse na minha posição.

— E estou… — Cris ficou quieto enquanto encarava o chão. — Sendo honesto, estou na mesma situação no momento…

Nelson olhou para ele. O sorriso gentil se fora e agora os olhos de Cris pareciam não ter foco. O nadador entendeu e aguardou.

— Você conhece a minha família, portanto provavelmente conhece nossa história. Todos que nasceram com o sobrenome Prado Maranhão já chegaram ao mundo cheios de expectativas sobre eles. — A voz de Cris estava baixa, mas carregava toda sua frustração. — Nós entramos na piscina assim que podemos, tentamos diversos esportes até encontrarmos o que se encaixa conosco. Ainda que não tenhamos qualquer talento ou desejemos fazer outra coisa, eles esperam que trabalhemos com algo relacionado à água. Se alguém quiser ser médico, devem tentar ser parte da equipe médica. Se for algo relacionado aos negócios, vai ajudar na administração. Até coisas pequenas, como coordenar os times, ajudar com maquiagem, projetar roupas de nado… Se nascer com o sobrenome Prado Maranhão, esperam que fique sua vida toda perto das piscinas…

Nelson escutou o desabafo dele da mesma forma que Cris escutara o seu.

— Você odeia isso?

— Mais do que ódio ou amor… é complicado. Eu disse que sou a ovelha negra da família, não disse? — Cris fechou os olhos e inclinou-se contra o banco. Nelson murmurou um sim baixo. — É porque não estou correndo atrás de nada relacionado à água.

— Como assim? Não está sendo meu assistente agora?

Cris soltou uma risada fraca.

— Não é o bastante para um Prado Maranhão.

— Já tentou todos os esportes aquáticos?

— Sim. Nadei por muito tempo. Mas quando percebi que não tinha talento, nem vontade de superar isso com pura determinação, tentei outros esportes. Polo aquático foi o pior de todos. Vivia levando bolada na cara — disse, estremecendo enquanto massageava o nariz. Então ele balançou a cabeça para dispensar as lembranças. — Não tenho força para canoagem. Salto foi divertido, mas logo aprendi que eu preferia como hobby. O que mais gostei foi do nado sincronizado, mas acho que foi mais pelas roupas bonitas do que pelo esporte em si.

— Então, por que eles consideram você a ovelha negra? Digo, você tentou. Ninguém pode dizer que não. Mas se esses esportes não despertaram uma paixão em você, não tem sentido continuar. Ser um atleta profissional não é algo que dê pra fazer sem muita determinação.

— Não dá pra concordar mais com você. Mas o problema de verdade foi ano passado, quando me formei do ensino médio. Minha avó queria que eu fosse pra faculdade fazer administração que nem meu pai e ajudasse com as finanças do clube e tal. Só porque eu tenho jeito com os números, não quer dizer que seja bom com dinheiro. Quando eu disse isso para ela, ela perguntou o que eu queria ser, mas aí eu… congelei. Tipo, mal sou adulto. Como diabos vou escolher meu futuro? Eu não tinha ideia e nem tenho ainda. Por isso continuei como assistente. Ninguém concordou com a minha escolha. Todos continuavam me forçando a escolher algo adequado de um Prado Maranhão.

Quando Cris terminou, ele estava um pouco sem fôlego, as maçãs do rosto vermelhas. Ele respirou fundo enquanto o silêncio reinava entre os dois homens. Nelson olhou para seu assistente pessoal, quem encarava o céu com olhos sem foco.

— Então você está que nem eu… na frente de um vórtice de incerteza — disse Nelson com um sorriso fraco. Cris voltou-se para ele.

— Pode ser por isso que nos botaram juntos — disse, imitando o sorriso de Nelson. — A ovelha negra e o ex-prodígio.

— Esse ex-prodígio dói mais do que você imagina, tá ligado? Embora seja verdade, eu já fui conhecido como o futuro da natação brasileira. — Nelson ergueu o queixo e estufou o peito para mostrar o quão orgulhoso estava, embora sentisse o oposto na hora.

— Como parte de ser seu assistente, e uma pessoa que prefere ser sincera, preciso dizer para se focar no futuro e não no passado — falou Cris, confiante.

— Futuro, né? — Nelson olhou para Cris. — Tem razão.

— Ei, não faça essa cara. Estou aqui pra você. Pode me pedir qualquer coisa.

— Qualquer coisa? — repetiu Nelson.

— Sim. Não vou dar para trás no que digo… na maior parte do tempo — murmurou a última parte, desviando do olhar do rapaz com um sorriso amarelo.

Nelson olhou para aquele rosto, aquele sorriso, por um tempo.

— Então poderia me acompanhar no exame hoje? — As palavras saíram, para sua própria surpresa. Ele arregalou os olhos e, antes que percebesse, o rosto corou e ele desviou o olhar.

— Quer que eu vá com você?

Surpreso com as próprias palavras, mas, quando Nelson pensou nelas, sabia que era verdade. Sem olhar para Cris, ele assentiu.

— Sim… por favor — sussurrou.

Cris colocou as duas mãos no rosto de Nelson e virou-se para ele, mostrando um sorriso gentil para o nadador.

— Com todo o prazer.

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