[PT] Samurai NOT 13

Boa tarde pessoal. Voltando a postar nos domingos. E nada melhor do que começar o mês de outubro com cap novo de Samurai NOT.
E isso não é a única novidade. Outubro vai ter mais novidades. Até lá, espero que curtam Samurai NOT 13.

 

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Samurai NOT 13

A vista não parecia tão incrível quanto a noite, mas ainda era bonita. Além do rio, Ei viu as planícies se estendendo e virando florestas até onde seus olhos alcançavam. Parece igual, mas é diferente de lá de casa, ela pensou por um momento, mas colocou a ideia de lado logo.

Apesar de ser uma sensação estranha, como se ela olhasse o mundo todo de cima, Ei não tinha vontade, nem tempo, para perder pensando sobre tal coisas. Tadayoshi não se importava, nem olhou ao redor. Ele já estava indo para a cidade e ela teve que correr atrás dele.

O destino deles não era tão fácil de encontrar de manhã. Sem as luzes trêmulas brilhando contra a escuridão, a cidade parecia tão pequena que dificilmente parecia diferente de uma vila comum. Mas isso não a incomodou. A cidade tinha perdido seu brilho inicial para a garota.

O problema mesmo era a distância. A gente vai chegar lá hoje mesmo? Ei não sabia quanta verdade havia nas palavras da dona, mas ela não estava mentindo quando disse que a cidade era mais longe do que parecia. De acordo com ela, eles não chegariam lá antes do meio dia. Essa hora tinha chegado e passado, o sol escaldante sobre suas cabeças no céu sem nuvem enquanto caminhavam pela planície, mas a cidade mal parecia mais perto.

Talvez não fosse tão ruim se ele dissesse alguma coisa, Ei pensou, olhando de relance para as costas de Tadayoshi. Ele não tinha dito nada desde que deixaram a pousada. E já que nem ela tinha algo a dizer, a jornada pareceu muito mais longa. O sentimento de culpa dela não ajudou também. Ela sabia que o progresso lento deles era culpa dela; ele tinha que desacelerar para acompanhar os passos dela.

O sol estava começando a tocar no horizonte quando eles finalmente podiam ver a muralha externa. Ei suava, ofegava, suas costas doíam e as pernas latejavam. Mas ao avistar a cidade que ia além de sua vista, ela esqueceu o quão exausta se sentia. Eles se juntaram a pequena fila para entrar e atravessaram os portões.

Ei apenas encarou com a boca aberta. Tantas casas e lojas que ela não conseguia contar todas. A maioria tinha dois andares, mas algumas tinham três e algumas pareciam tão grandes que faziam a pousada parecer pequena. Entre as construções, as ruas e becos pululavam com vida. A garota nunca tinha visto tantas pessoas num só lugar, nem mesmo quando os soldados vinham coletar e escoltar os impostos. Na vila dela, todos se vestiam quase igual. Aqui, homens e mulheres vestiam roupas coloridas e folgadas. Eles conversavam, compravam comida das mesas ao longo das casas e se abanavam com leques de papel, uchiwa, enquanto andavam pela cidade.

Ei queria checar as comidas nas mesas, mas só andar sem bater em ninguém precisava de sua atenção. Enquanto ela fazia se melhor para não pisar no pé de ninguém, ela notou algo estranho. Apesar da multidão e das coisas interessantes para olhar, alguns olhavam para eles mais de uma vez. Uns sussurravam entre si quando viam ela e Tadayoshi. Um velho até mesmo veio na direção deles, o rosto vermelho e os olhos lacrimejando, até um jovem musculoso o parar e o levar embora.

Apenas quando ninguém encontrou os olhos dela, Ei percebeu. As pessoas não olhavam para eles; elas olhavam para as armas. Ela puxou sua espada para mais perto por reflexo.

— Devia ter lembrado — falou Tadayoshi, mais para si do que para Ei. Ele olhou ao redor e entrou no beco mais próximo. Mesmo aqui estava lotado, mas eles podiam andar sem atrair a atenção de todos.

— Porque estão olhando pra gente? – Ela esperou para ele dizer o resto, mas quando percebeu que ele não ia dizer, ela perguntou.

— Espadas não—

Um homem deu um encontrão com força no ombro de Tadayoshi. O espadachim virou a cabeça e o homem careca o encarou de volta com o único olho que lhe restara. Por alguns longos momentos, Ei prendeu a respiração, esperando a luta começar. Mas quando o homem olhou para a espada na cintura de Tadayoshi, a garota percebeu que a mão do espadachim não estava no cabo. É claro… não tem chances do Tadayoshi lutar por algo tão idiota, ela pensou com um sorriso pequeno.

Quando o homem finalmente foi embora sem dizer nada, ela respirou aliviada. O espadachim suspirou, revirou os olhos e passou a mão no rosto. Ele murmurou algo que parecia muito com idiota e virou para Ei.

— Espadas não são… bem vindas nessa época.

— Por que? — Ei franziu. Sei dos… perigos das armas em mãos erradas, mas sem elas, a cidade, as pessoas estariam indefesas, ela pensou, mas não deu voz.

— Esse festival é para honrar os ancestrais e aqueles que não estão mais aqui — ele disse e a garota entendeu.

Ei olhou para a arma na própria cintura. Uma espada pode proteger, mas também pode matar. Quem perdeu pessoas próximas por causa da violência não querem o lembrete, ela pensou, olhando ao redor. Eles não eram os únicos carregando lâminas, mas diferente dela e de Tadayoshi, eles a cobriam com um pano ou qualquer coisa para manter a bainha e o cabo fora de vista. Os soldados patrulhando as ruas não cobriam suas armas. As pessoas confiam neles, ela percebeu. Diferente da gente, estranhos.

— Não tem nada pra cobrir as espadas?

Tadayoshi mostrou um sorriso amarelo enquanto olhava para a bolsa. Ei entendeu. Se ele tirar as roupas da pousada… Com um suspiro, ela percebeu que a única coisa que podiam fazer era ignorar os olhares.

Enquanto andavam pela cidade, cheiro diferentes preencheram o nariz da garota e ela finalmente viu o que tinha nas mesas de madeira ao longo das ruas. Tanta comida, ela pensou, tentando lembrar dos nomes. Dango, um tipo de bolinho feito com farinha de arroz; manjuu, um doce feito à base de feijão vermelho; udon, macarrão servido em pequenas tigelas de madeira; yakitori, pedaços de aves assadas servidos num palito, e muitos mais

O estômago dela roncou em resposta. Ela cobriu a barriga, mas ainda escutou a risada de Tadayoshi e não olhou para cima.

— Precisamos de dinheiro antes.

Tadayoshi perguntou algo para uma mulher numa das mesas, mas Ei não escutou; ela estava ocupada demais prestando atenção num senhor. Ele falava e mexia as mãos. Na frente dele tinha uma caixa de madeira com uma placa com um desenho de um samurai e uma pequena, mas aterrorizante sombra demoníaca.

Kamishibai! Ei lembrou. Um dos mercadores que visitava a vila uma vez por ano gostava de contar histórias para as crianças depois de terminar seus negócios. Ele carregava uma caixa igual a do senhor, mas ele tinha mais desenhos, mudando a placa para combinar com a cena. Apesar do mercador ser mais energético, o velho era muito melhor. Até mesmo adultos paravam para assisti-lo.

O senhor contava a história de Yasuhiro-sama lutando contra o pequeno demônio. Ei conhecia a história; era uma das favoritas de Dai-jii. Mesmo assim, ela se aproximou um pouco mais sem notar seu sorriso.

— Quando todos tinham perdido as esperanças de parar o pequeno demônio, Yasuhiro-sama apareceu. — O senhor ficou em silêncio, deixando a ansiedade dos espectadores crescer.

Ei se aproximou, esperando o clímax, mas então Tadayoshi a chamou. Ela andou até ele, mas continuou olhando o senhor. Ela assistiu o máximo que podia, mas então uma mão a puxou pelo colarinho. Tadayoshi tinha virado num beco e ela não percebera.

— Não abaixe a guarda.

A garota mordeu os lábios, suspirou, ajeitou as roupas e seguiu o espadachim. De alguma forma andando contra e a favor do fluxo ao mesmo tempo, eles se juntaram a uma fila do lado de fora de uma loja perto da rua principal. As pessoas falavam com um menino na entrada e ele entrava e voltava com pregos, martelos e outras pequenas ferramentas

Enquanto o menino entrava e saia e a fila andava, Ei escutou marteladas constantes e ritmadas vindo de dentro da loja do ferreiro. O menino parecia tão entediado quanto ela quando foi a vez deles e nem olhou eles nos olhos.

— Vender — Tadayoshi disse antes do menino perguntar.

Ele ficou um pouco surpreso enquanto olhava as espadas, mas tinha a mesma expressão entediada quando entrou na loja. Um momento depois, o menino voltou e disse para eles entrarem, já atendendo o próximo cliente.

As marteladas eram ainda mais altas dentro. Ei sentiu o som vibrando através dela, mas quando ela estava se acostumando, parou. Pouco tempo depois, a porta no fundo da loja abriu com um baque surdo e um homem andou até eles, limpando as mãos no avental de couro, o suor descendo pelo rosto.

— Vendendo o que? — ele perguntou num grunhido baixo.

Tadayoshi desamarrou as espadas da bolsa e estendeu a mão na frente de Ei. A garota olhou entre a mão e o espadachim. Um momento depois, ela entendeu e não protestou nem disse nada. Sentindo nada além de um vazio, ela puxou a arma de sua cintura e entregou para ele sem olhar em seus olhos.

— Vendendo isso.

O ferreiro sacou um pouco uma das espadas da bainha. Ele murmurou enquanto examinava a lâmina com um olho.

— O metal não é do melhor — ele disse no mesmo grunhido baixo.

— São todas assim. — Tadayoshi desembainhou a wakizashi pela metade e mostrou para o ferreiro.

Ei parou de prestar atenção na conversa deles. As paredes cobertas com o trabalho do ferreiro pareciam ser mais interessantes para ela. Pás, enxadas, foices e outras ferramentas, o metal brilhando e os cabos sem lascas. Pra aumentar o preço, aposto. Mesmo assim, ela se aproximou para ver seu reflexo borrado. É a primeira vez que vejo ferramentas polidas, ela percebeu com alguma surpresa. Na vila dela, eles só tinham ferramentas velhas e quando precisavam de novas, sempre compravam usadas.

O menino continuou entrando e saído enquanto Ei andava pela loja. Mesmo algo tão comum tem sua beleza, ela pensou com um sorriso pequeno. Mas quando ela viu a ferramenta, acima da porta dos fundos, seu sorriso sumiu.

Uma espada. Nua e refletindo luz para mostrar toda sua beleza e as habilidades do ferreiro, tão imponente que apagava a presença das outras ferramentas da vista da garota. Tão polida que ela conseguia se ver. Não um reflexo borrado; ela conseguia ver seus olhos, podia se ver na lâmina, aterrorizada. A luz do fogo dançava e o fio afiado parecia encharcado de sangue.

A garota tremeu enquanto a imagem da senhora sorrindo apareceu em sua mente. Uma sombra sem rosto agarrou o braço da senhora, a fez segurar uma faca e guiou a mão dela para o seu coração. A senhora caiu ainda sorrindo.

Cicatriz apareceu do nada e passou através da sombra. Ele pisou sobre o cadáver de sua avó e ofereceu chá para Ei. Ele sorriu e mexeu a boca, mas nenhum som saiu daqueles lábios. Então a sombra ganhou forma de novo, pegou a lâmina da mão da senhora e enfiou na garganta de Cicatriz. Sem parar de sorrir por um momento, o corpo dele caiu para frente em cima da garota.

Ei gritou, empurrou o corpo e conseguiu sair debaixo do cadáver. Quando ela levantou a cabeça, a sombra sem rosto estava a centímetros dela, a encarando nos olhos com as órbitas vazias. No outro instante, as órbitas viraram olhos escuros que ela reconhecia.

Quando ela fechou o punho, tinha uma espada na sua mão. Sem pensar, sem ficar paralisada, Ei cortou a sombra e tentou correr. Mas seu pé escorregou na terra ensopada com sangue. Ela se arrastou através da lama e sangue sem olhar para trás.

Mas enquanto ela conseguia distância da sombra, ela sentiu muitas mãos agarrando suas pernas, os dedos apertando tanto que ela pensou que seus ossos quebrariam. Quando ela virou a cabeça, viu a senhora e os gêmeos segurando os tornozelos dela, puxando-a. Ela tentou chutá-los, mas não fez diferença. Eles a puxaram com mais força e Ei sentiu as mordidas em suas pernas.

Ei usou todo o ar de seus pulmões, mas não tinha voz para gritar. Ela ignorou a dor, suas mãos tentando achar qualquer coisa para agarrar. Mas ela encontrou nada além de sangue. Os mortos a puxaram para dentro da terra vermelha. Ela lutou para respirar enquanto se afogava em sangue.

A sombra apareceu na frente dela, oferecendo a mão. Ei levantou a cabeça e viu um rosto que conhecia; Tadayoshi. Por um momento, ela sorriu aliviada e esticou o braço para aceitar a mão, mas quando ela olhou nos olhos dele, eles estavam frios e vazios. As mortes que ele causou não o afetam… A mão dela tremeu. Não é isso que quero. Eu só quero ser forte, proteger os fracos… proteger minha mãe…

Uma voz alta trouxe Ei de volta para a loja do ferreiro. Ela balançou a cabeça e limpou as lágrimas, mas não importava o quão forte ela fechasse os olhos, ela ainda conseguia ver as imagens. O quarto girou e ela se sentiu doente. Ei viu Tadayoshi a olhando com uma expressão preocupada, mas tudo o que ela conseguia ver era a sombra.

Sua respiração ficou rápida e rasa. Seu coração batia dolorosamente. Com sua mente escura, ela só conseguia pensar em uma coisa; ela tinha que sair dali, se afastar daquela espada acima da porta… da sombra…

As pessoas esperando na fila reclamaram quando Ei as empurrou, mas ela mal os escutou. Tudo que ela conseguia escutar ela os gritos de Tadayoshi, mas ela o ignorou. Tudo que ela fez foi correr. Ela não tinha ideia de onde ir, mas ela tinha que se afastar de todos. Mas em cada beco que virava, ela encontrou pessoas.

Suas pernas tremiam e doíam, mas ela não parou, acertando as pessoas em seu caminho. Elas empurravam, reclamavam ou xingavam, mas Ei não escutou nem se importou. Tantas pessoas, ela pensou, a dor em seu peito crescendo. Cada respirava que dava doía, mas ela não parou. Não fez diferença. Não importava para onde ia, para onde corria, ela estava encurralada por pessoas e casas. Ela não conseguia mais respirar. Sua cabeça ficou tonta, sua visão borrou e ela vomitou.

Alguém falou com ela de longo, mas ela não conseguia entender uma palavra sequer. Então, com uma sensação estranha, ela vagamente percebeu que a pessoa estava gritando com ela. Ei limpou a boca com as costas da mão e levantou a cabeça com dificuldade.

Tinha um homem reclamando e mostrando suas roupas para ela. Ei olhou para onde ele apontava, onde ela vomitara. Em algum lugar em sua mente ela sabia que tinha que pedir desculpas, mas sua boca não trabalhava na mesma velocidade. Ela tinha se esquecido como falar.

O homem levantou o braço e fechou o punho. Ele vai me bater… Ela precisava reagir, sabia que precisava reagir, mas seu corpo parou de obedecê–la. Sua mente estava turva. Ela fechou os olhos, esperando.

O homem levantou o braço e cerrou o punho. Ele vai me bater… Ela precisava reagir. Ela sabia que precisava reagir, mas seu corpo se recusou a escutá-la. Sua mente estava enevoada demais para pensar direito e ela apenas fechou os olhos.

Mas nada aconteceu. Um piscar de olhos depois, Ei abriu os olhos. Tinha uma sombra segurando o punho do homem. Ela tentou ver além do homem para ver quem segurava o punho, mas a pessoa estava contra a luz, o rosto escondido pelas sombras.

Seu salvador disse algo que ela não entendeu, mas conseguia sentir o tom ameaçador. O homem foi embora resmungando algo e Ei finalmente viu quem a salvou. Ela abaixou a cabeça, com vergonha demais para olhar Tadayoshi nos olhos.

Tadayoshi colocou a mão no ombro dela. Só quando o calor fluiu dos dedos dele para ela, ela percebeu o quão frio ela estava. Aquele toque gentil a tirou de seu estupor. Apesar do quão doente ela se sentia, um sorriso fraco cruzou os lábios dela.

Sempre que eu preciso dele, ele está lá. Ela nunca admitiria para ele, mas mesmo com todas as dúvidas em sua mente, ela o agradeceu do fundo do coração. Mesmo agora, ela era grata a ele. Mas quando ela olhou nos olhos dele… eles não são os mesmos, ela se forçou a pensar. Eles não são aqueles olhos frios e vazios.

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