O homem que nega ser um Samurai

Finalmente, depois de muito, muito tempo, trago o oitavo capítulo de Samurai NOT, uma das minhas histórias favoritas.
Não se preocupem que não teremos mais esse hiatos grande.
Espero que gostem da história.

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Samurai NOT 8

Tadayoshi virou a espada de lado lentamente, mostrando a Ei os dois lados da lâmina, tão polida que a menina conseguia ver seu reflexo.

— Está preparada?

Ei se forçou a tirar os olhos da espada e prendeu a respiração quando viu o rosto dele. Não tinha nada do Tadayoshi de sempre agora.

— Está preparada? — ele perguntou de novo.

Respirando fundo, ela levantou o braço e fechou o punho tão forte que a mão perdeu a cor. Mesmo assim ela ainda tremia. Esse é o primeiro passo, Eiko, ela disse para si, tentando se acalmar. Mas quando Tadayoshi encostou o metal gelado contra sua pele, a respiração dela ficou pesada. Ela precisou de toda sua determinação para não puxar o braço de volta.

— Está com medo? — Ei segurou o impulso de dizer não. Ele vai saber… Ela conseguiu balançar a cabeça um pouco. — Bom — ele disse e sem avisar, puxou a espada.

Mesmo sabendo que que viria, Ei gritou. Ela mordeu os lábios, mas sua voz ainda ecoou entre as árvores. Durou apenas um instante, mas a dor não desapareceu, mesmo depois de Tadayoshi limpar o sangue, colocar a pasta amarela que Ei preparou antes e enrolar com um pano.

— Lembre dessa dor, Ei — ele disse, olhando nos olhos dela. — Eu vou ensiná-la a usar uma espada, mas você vai decidir quando usar. Mas não importa se virar uma samurai ou bandida, nunca esqueça a dor de uma lâmina.

Ei ainda encarava seu braço quando Tadayoshi limpou o sangue na espada e a embainhou. Ela abriu e fechou a mão devagar, sentindo a dor.

— Eu nunca vou me esquecer.

— Que bom.

Ele sorriu e num instante a seriedade desapareceu do rosto dele, e o Tadayoshi das últimas semanas estava de volta. Ele foi até a árvore onde estavam os pertences deles e quando voltou, ele entregou a espada pelo cabo para Ei.

Demorou um momento para a menina aceitar a arma. Ela olhou com desconfiança entre a espada e o homem.

— Isso é sério?

— É claro — Tadayoshi inclinou a cabeça. — Quando eu brinquei com seu treinamento? — ele perguntou, seu rosto cheio de inocência, enquanto o dela avermelhava.

— Do começo! — Ela não conseguiu mais conter sua raiva e gritou toda a frustração que sentiu nas últimas semanas. — Desde que saímos da minha vila, eu fiquei carregando as coisas e fazendo exercícios! Fiquei calada e fiz o que você disse, mas agora, quando você finalmente falou que eu ia treinar com uma espada, não só você me corta, você me dá isso? — Ei balançou a arma no rosto dele. Ao invés de Asahi, em segurança na cintura dele, Tadayoshi tinha dado a ela a menor das espadas, a wakizashi. — Quero a katana de verdade!

Tadayoshi manteve o rosto sério, mas depois de um momento, ele levou uma mão a boca, tentando e falhando em segurar o riso. Quando não conseguia mais segurar, ele riu e no silêncio ao redor deles, sua voz assustou os pássaros nas árvores mais próximas. Isso só a deixou com mais raiva.

— Qual é a graça?

Demorou um tempo até ele se acalmar o suficiente e responder.

— Só estava pensando que somos parecidos. Eu fiz quase a mesma coisa com meu mestre. — Ele limpou as lágrimas no canto dos olhos. — Tudo bem. Diferente do velho, eu vou explicar a razão. Mas antes disso, poderia tentar não gritar desse jeito de novo? Os que me perseguem provavelmente já sabem que passei na sua vila e devem estar perto. Eles não precisam de mais ajuda.

Suas palavras não ajudaram a acalmar a raiva da garota. Ei queria dizer que as pessoas que ela amava e conhecia a vida inteira não trairiam a pessoa que os salvou e que se o paradeiro dele fosse conhecido, era culpa dos soldados. Mas ela engoliu seus sentimentos; os olhares que Tadayoshi recebeu no dia que eles foram embora estava marcado em suas lembranças. Tirando Dai-jii e Sumire, nenhum tinha qualquer gratidão.

Eles ficaram em silêncio por um longo tempo.

— Sabe porque não pegamos um cavalo? — ele perguntou de repente.

Apesar da raiva, Ei olhou para ele. Ela tinha reclamado uma ou duas vezes quando seu corpo estava exausto dos exercícios e mesmo assim Tadayoshi a fez carregar tudo. Ele alegou que não podiam parar só porque ela estava um pouco cansada, dizendo que eles não podiam perder tempo e que deviam se afastar o máximo que podiam da vila. Então um cavalo teria ajudado, ela pensou, sua raiva crescendo.

— Sei não.

— Tirando os problemas para cuidar de um animal e mesmo ignorando o fato de deixar mais fácil de rastrear a gente, você está em péssima forma e sua resistência física é horrível. Tudo até agora foi melhorá-los um pouco. Você ainda está longe de usar uma espada, mas logo sairemos da floresta — Ele olhou para frente, vendo algo entre as árvores que Ei não via. —Se estiver comigo, precisa saber usar uma espada. Portanto, você vai usar a wakizashi. — ele terminou com a expressão mais presunçosa que tinha.

— Na verdade, deveria ficar agradecida por treinar uma lâmina de verdade. Quando o velho me encontrou, eu já sabia usar uma espada e mesmo assim ele me fez treinar com uma de madeira. — Os olhos de Tadayoshi desfocaram um pouco.

Nostalgia? Ei pensou. Ele fica desse jeito toda vez que fala do Yasuhiro-sama… O que quer que Tadayoshi sentia, ele dispensou com uma sacudida da cabeça e balançou a mão como se afastasse um cachorro.

— Agora vá treinar como mostrei.

Mesmo com a raiva ainda borbulhando, seu desejo de finalmente treinar com uma espada era maior. Apesar de reclamar, a wakizashi era uma lâmina de verdade. Uma arma de verdade. Apesar de que nunca diria para Tadayoshi, Ei brincou de samurai com os amigos usando galhos como espadas e sonhou em ser um. Até agora, era nada além de um sonho infantil mas desde que assistira a luta de Tadayoshi e escolheu ir com ele, o desejo estava ao seu alcance e apenas crescia.

Ei desembainhou lentamente um pouco a espada, apenas para escutar o som do metal e dar uma espiada na lâmina. Apesar de opaca e dela não conseguir ver seu reflexo, ainda tinha uma beleza para a menina. Mal contendo seu sorriso, ela embainhou a espada e a colocou entre a faixa e as roupas no lado esquerdo, como Tadayoshi.

— Você é uma completa idiota? —Tadayoshi gritou do nada.

Ei levantou a cabeça, as narinas inflamando, mas a seriedade no rosto dele a surpreendeu. Ela procurou por algo que estivesse fazendo errado, e encontrou nada. Ela olhou de volta para ele com uma expressão um misto de raiva e confusão. Ele está brincando comigo de novo?

— O que?

— Não coloque a espada na cintura. — Ela ficou sem reação ao tentar entender outra das brincadeiras idiotas dele. — É sério. Você é nunca tocou numa espada e eu já vi pessoas se cortarem e até mesmo perder um dedo ou dois embainhando uma espada. Até estar pronta, não coloque a espada na cintura.

Ei não tinha ideia se ele estava sério ou não, mas sem tirar os olhos de Tadayoshi, ela fez como ordenada, sacando a espada e colocando a bainha contra uma árvore.

— Bom. Mas não precisa tentar me matar com os olhos. Nem apontar a arma pra mim.

Respirando fundo, ela focou a atenção na espada, segurando a na frente dela como Tadayoshi tinha mostrado para ela. A posição básica onde você pode tanto defender ou atacar, de acordo com ele.

Mas não importava o quão simples e básica a posição era, para Ei era especial. Meu primeiro passo, ela pensou, pressionando os lábios para esconder o sorriso. Ela fechou os olhos e lembrou cada detalhe do movimento. Como Tadayoshi balançou a espada, como suas costas estavam, como as mãos dele estavam no cabo, como ele mexeu o corpo…

Quando abriu os olhos, ela levantou os dois braços acima da cabeça e trouxe a espada para baixo com um movimento rápido. Não teve barulho do metal cortando o ar como Tadayoshi, mesmo assim ela fez nada para parar seus lábios de se contorceram num sorriso.

— Não foi completamente horrível — Tadayoshi disse. — Mantenha as mãos um pouco mais afastadas e tente não mexer muito os quadris.

Ei acenou com a cabeça e mexeu a mão esquerda para baixo, segurando na ponta do cabo, e a outra para cima, tocando na guarda da espada. Respirando lentamente, era repetiu o movimento.

— Menos ruim. Agora vire e fique fazendo até não conseguir levantar os braços.

— Porque preciso virar de costas? — ela retrucou, sua irritação voltando à superfície antes que ela percebesse.

Tadayoshi suspirou e fechou os olhos.

— Nesse pouco tempo que nos conhecemos, você mudou tanto. Você costumava só fazer qualquer coisa que eu mandasse, mas agora questiona tudo. — Ele colocou a mão na testa e balançou a cabeça em um decepção falsa. — Você sabe que vai se distrair se ficar me olhando. Agora vire — ele falou lentamente, como se falasse com uma criança, e então fez um pequeno círculo com o dedo.

Ei segurou sua resposta imediata. Ela não conseguia retrucar as palavras dele. Durante os exercícios dela, ele também treinava. O problema era quando ela parava para descansar um pouco e acabava o assistindo por um longo tempo antes que percebesse. Apesar de que ela nunca diria para ele, a visão de Tadayoshi balançando a espada era incrível.

Rangendo os dentes, ela virou e levantou a espada de novo. A animação transbordou em no rosto enquanto ela trazia a espada para baixo de novo, dessa vez com as instruções mais recentes de Tadayoshi em mente. Ela fez de novo e de novo até seus braços tremerem apenas por segurar a pequena espada. Ofegando e sem forças para levantar a wakizashi de novo, ela olhou para o Tadayoshi.

Ele corria de um jeito estranho, indo de um lado da clareira ao outro com passos largos. É como se ele estivesse pulando pra frente, ela pensou. Em pouco tempo ele cobria a distância, virava com um giro rápido e refazia os passos, cada vez ficando um pouco mais veloz

— O que está fazendo? —ela não conseguiu mais segurar a curiosidade.

— Não consegue perceber? — Tadayoshi parou sem ar e limpou o suor do rosto. — Você já viu isso antes.

Ei fechou os olhos e vasculhou a memória, mas não precisava ir muito longe. Se já tinha visto antes, só podia ter sido na única luta de espadas de verdade que viu em sua vida. Ela tinha observado cada detalhe, gravando tudo em seu coração. As memórias ainda estavam vividas, mas ela não lembrava de nada parecido como o que Tadayoshi fez.

— Eu admito que minha velocidade não compara com a dele. — ele adicionou depois de um tempo.

Com isso em mente, Ei reviveu a luta mais uma vez. A lembrança finalmente veio e ela abriu os olhos animada.

— A técnica do samurai!

— Demorou um tempo mas você acertou. Agora volte para seu exercício. — Tadayoshi disse antes de continuar seu próprio treinamento. Ele foi de um lado ao outro da clareia duas vezes e parou de novo quando percebeu Ei ainda o encarava. — Diga logo.

Ele tinha logo aprendido quando ela ficava desse jeito, interessada em alguma coisa, ela parava o que fazia e só voltava depois de ter sua curiosidade satisfeita. Tadayoshi tinha reclamado disso mais de uma vez.

— Pode isso? Quero dizer, colocar algo no estilo desse jeito?

Pelo que tinha escutado através das histórias, o estilo de espada era importante para um samurai. Mesmo que Tadayoshi negasse ser um, seu mestre era. De acordo com as histórias que sua mãe e Dai-jii costumavam contar as crianças, Yasuhiro-sama desafiou e foi desafiado várias vezes, sempre almejando o título do estilo mais forte. Ele mudaria o estilo do mestre desse jeito?

— Isso vai demorar… — Tadayoshi reclamou. — Este estilo em particular é mais flexível. O velho não aprendeu com ninguém, nem mesmo com seu pai. Ele forjou quando jovem e percorrendo as províncias. Ele encontrou vários mestres, duelou contra muitos guerreiros e enfrentou adversários fortes, aprendendo com cada luta.

Ei tinha notado quando ele falava sobre o mestre, na maioria das vezes Tadayoshi sorria, como fazia agora, mesmo que o próprio não percebesse. Mesmo ele às vezes agindo de forma estranha quando o nome de Yasuhiro-sama surge, eu consigo dizer que ele o ama… Os rumores sobre ele ter matado seu mestre são mentira… tenho certeza, ela pensou, tentando afastar a sombra de dúvida em sua mente.

— Ele percebeu que o importante não é o estilo, mas sim o guerreiro. O jeito que o velho lutava focava nisso e ele acabou nomeando isso de Ittou Isshin. Você ainda não consegue ler, mas aprenda isso agora. — Tadayoshi mexeu um dedo na terra, escrevendo ‘一剣一心’. — Quer dizer Uma Espada, Um Coração. De acordo com mestre, o estilo possui técnicas, mas não depende delas. O que acha?

Ei encarou as palavras no chão, o cansaço esquecido enquanto ela ficava imóvel, concentrando nas palavras de Tadayoshi. Ele esteve fazendo esse tipo de pergunta desde que começou ensiná-la. A maioria das respostas dela o deixava com um sorriso irritante nos lábios e ela com vergonha depois.

— Se o estilo não depende apenas das técnicas, quer dizer que pode aprender de tudo. Então o limite é o próprio espadachim…? — ela respondeu com um pouco de hesitação depois de um tempo. Ele a encarou com uma expressão vazia. — Ah! Experiência é mais importante que muitos treinos! — ela falou antes que conseguisse parar.

Tadayoshi deu uma pequena risada.

— Quando mestre me perguntou isso, eu pensei e pensei, mas não consegui chegar numa resposta de jeito nenhum. Até ataquei ele de raiva depois. Mas você chegou numa boa resposta. Parabéns — Tadayoshi bateu palmas, mas quando percebeu as bochechas de Ei avermelhando, ele parou. — Ele gostava de dizer que ‘técnicas são importantes para fazer seu corpo lembrar dos movimentos. Mas quando se está numa luta, com sua vida na espada, você reage antes de conseguir se quer pensar.

Apesar de sorrir de novo, dessa vez não tinha felicidade por trás. Os olhos dele perderam foco enquanto ele ficava em silêncio. Ei ficou calada e o deixou apreciar as memórias, apesar de ainda ter muitas perguntas.

— O nome do estilo não significa uma espada para uma pessoa. — Tadayoshi falou de novo. Dessa vez foi Ei que sorriu. Era sua próxima pergunta. Ele levantou e sacou sua espada. — Quer dizer que você coloca seu coração, sua alma na sua arma e ela se torna parte de você. Tudo que aprender, tudo o que sentir, todo seu ser vai se refletir na espada. Foi assim que mestre forjou o estilo Ittou Isshin.

Tadayoshi a encarou, perguntando silenciosamente se estava satisfeita. Ei sempre gostou das histórias de samurai, mas nunca tinha pensado muito sobre os estilos de espada além do que elas contavam. Com a curiosidade satisfeita, ela levantou, pronta para treinar de novo.

Ei largou a espada e caiu de joelhos quando Tadayoshi anunciou que o treinamento tinha acabado. Ela tentou pegar sua arma, mas seu braço se recusava a obedecer. Ela desistiu e deitou. Nunca pensei que o chão seria tão bom e fofo

Ainda de barriga para baixo, ela virou a cabeça, tentando ver o céu pelo canto dos olhos. Através do topo das árvores, Ei ainda conseguia ver o sol, mas a lua e as estrelas dividiam os céus. Já passou tanto tempo…?

Ei se sentia exausta. Nunca se sentiu desse jeito, nem mesmo depois de trabalhar o dia todo nos campos de arroz. Tudo em sua mente era dormir ali mesmo. Mesmo a fome não era problema; ela duvidava que conseguisse comer. Ela fechou os olhos e deixou sua mente vagar…

Até Tadayoshi limpar a garganta, a trazendo de volta. De má vontade, ela virou a cabeça e o encarou ainda deitada. Ele ofegava e suava quase tanto quanto ela, mas de algum jeito parecia cheio de energia. Como esse idiota ainda pode estar se mexendo? Eu nem consigo comer!

— Não está esquecendo de nada não?

Desde do primeiro dia, não importava o quão cansada ela estava, Tadayoshi a fez coletar lenha. Era parte do treinamento dela, de acordo com ele, e hoje não seria exceção. Ei se forçou a sentar e então levantar. Suas pernas mal aguentavam seu próprio peso, cada passo um custando um grande esforço.

Entretanto, ela não precisou se afastar muito da clareira. Tinha muita madeira ao redor e em pouco tempo ela tinha o suficiente para um fogo decente. Ela considerou coletar mais para a manhã seguinte, mas seu corpo não permitia.

Demorou mais tempo para voltar do que devia, o peso extra a atrasando demais. Quando finalmente arrastou seu corpo de volta para a clareira, o sol tinha se posto e Tadayoshi não estava por perto. Ei largou a lenha perto dos pertences deles e apanhou a sua espada. Com grande esforço, ela embainhou a wakizashi.

Apesar do cansaço, Ei quase já tinha terminado de armar a fogueira quando Tadayoshi voltou. Também era uma de suas tarefas diárias.

— Até que foi rápida. — Tadayoshi tinha um sorriso quando ele jogou as frutas perto dela e começou a trabalhar no fogo. Logo ele tinha um pedaço de madeira flamejante, segurando de lado com as pontas dos dedos com cuidado.

Ele é sempre desse jeito perto de fogo, Ei pensou enquanto as chamas devoraram as lenhas, o fogo crepitando alegremente.

Antes que percebesse, ela sentou mais perto do fogo. Não por causa do frio; as noites de verão eram quentes e as árvores bloqueava a maior parte dos ventos. Apesar do calor, ela não queria ficar longe da luz. Ainda que quase fosse lua cheia, ela se escondia atrás das nuvens e os poucos raios que atravessavam morriam nas copas das árvores. Neste momento, a fogueira era a única luz que impedia a escuridão de devorá-la completamente.

Ela não tinha medo do escuro. Na verdade, Ei se orgulhava de ser uma das poucas crianças que brincavam até de noite, mesmo quando a maioria estavam com medo. Sua mãe sempre reclamava muito. Mas isso era na casa dela, na vila dela. Nunca estivera tão longe de tudo que conhecia. Sinto falta de casa…

O pensamento de correr de volta para casa tinha cruzado sua mente mais de uma vez. Ver os rostos de Dai-jii, Sumire, Kenta e todos seus amigos. Mas ela fizera uma promessa consigo. Nunca de novo queria se sentir desamparada.

Serei forte, ela lembrou a si de novo. Foi por isso que decidiu seguir Tadayoshi. O homem que negava ser um samurai poderia realizar seu desejo. Mas mesmo com sua determinação, Ei sentou um pouco mais perto do fogo.

Perdida em pensamentos, Ei demorou um tempo para perceber o que Tadayoshi oferecia. Em uma mão ele segurava dois pêssegos sem dizer nada. Na primeira vez ele brincou perguntando se teria que salvar alguma vila pelos pêssegos de novo. Apesar de ter coletado mais, ele guardou algumas frutas para manhã seguinte, como sempre.

Ele disse que não gostava de procurar por comida quando acordava, mas Ei sabia que tinha algo a mais. O espadachim tinha algum tipo de pressa, apesar de dizer que não tinha lugar para ir quando ela perguntava.

Na outra mão ele oferecia um dos últimos bolinhos de arroz. Sumire fizera o suficiente para durar duas semanas no máximo, mas como eles racionaram, tinha durado até agora, apesar de já terem perdido o gosto. Então a gente só vai ter fruta a partir de agora, ela pensou, aceitando sua parte.

Eles tentaram caçar algumas vezes. Para surpresa dela, Tadayoshi sabia cozinhar um pouco, mas odiava o trabalho extra. Ei também reclamara do gosto e já que capacidades culinárias dela eram quase inexistentes, nenhum dos dois sugeriu caçar novamente.

Em sua defesa, Ei dissera que quase nunca cozinhava em casa. Sua mãe amava ensinar, ou pelo menos tentava. Mas depois de várias tentativas desastrosas, ela desistiu e disse que só tentariam de novo quando Ei fosse mais velha.

A memória parecia uma espada em seu coração e Ei abraçou seus joelhos. Ela evitava esses pensamentos, mas sempre que estava exausta, os sentimentos a inundavam. Nunca esqueceria de sua mãe, ou de sua antiga vida, mas desde que dera adeus à tudo, ela não choraria de novo. Foi o que prometera a si mesmo.

Dai-jii, Sumire e seu primo, Kenta, a última família viva que lhe restava, não a deixariam ir com Tadayoshi, mesmo que ele fosse o homem que deviam suas vidas. Estamos seguros agora, eles disseram. Não vamos ter mais problemas e graças ao nosso senhor, vamos viver em paz. Tentaram tudo para impedi-la de ir embora.

Mas ela sabia que essa paz era falsa. Poderia ser bandidos ou até mesmo inimigos do senhor de novo, mas eles podiam perder tudo e todos num instante. Ela não queria isso. Ei queria mais. Eles sabiam que não tinham como impedi-la, por isso a fizeram jurar que fugiria e voltaria para casa ao primeiro sinal de perigo. Ei prometeu, mas no fundo de seu coração, estava consciente que nunca cumpriria essa promessa. Mas em horas como essa, quando as lembranças ficavam mais fortes, sua resolução fraquejava.

Tentando manter a tristeza e saudade de casa afastadas, Ei devorou sua comida em poucas mordidas. Era o suficiente para seu corpo, mas não trouxe nenhum alívio. Ela olhou para Tadayoshi, procurando algumas palavras de conforto.

Nas poucas semanas que se conheciam, Ei logo descobriu que ele gostava de brincar. Ela virou o alvo de suas brincadeiras e sarcasmo. Mas, nos momentos certos, ele a escutava e a fez se sentir melhor. Ei começava a depender dele nessa área mais do que estava disposta a admitir.

Tadayoshi já tinha terminado sua comida e agora se preparava para dormir. Ele revirou algumas vezes na terra até encontrar uma posição confortável. Logo seu peito subia e descia lentamente.

— Estou impressionado por ainda estar acordada. Pensei que desmaiaria depois do treino de hoje.

Ei ficou surpresa e então soltou uma pequena risada. Uma das coisas que ela invejava sobre ele era o fato dele conseguir dormir logo em qualquer lugar. Ela, por outro lado, perdia muito tempo revirando até sua consciência ir embora. Mas como já tinha feito várias vezes, ele a escutaria.

— Diz logo. Estou cansado também — ele disse, bocejando.

Tinha tanta coisa que Ei não sabia por onde começar. Apesar de confiar nele, ela mal sabia sobre ele. Tirando o tempo que passaram juntos, o que ela sabia era devido aos rumores que tinham chegado até mesmo na pequena e isolada vila dela. Mesmo se recusando a acreditar, as palavras do samurai ainda ecoavam em sua mente.

Ei queria perguntar, mas era difícil. Na maioria das vezes Tadayoshi sorria quando algo relacionado a Yasuhiro-sama surgia, mas as poucas vezes que ele não sorriu a assustaram. O rosto dele ficava sombrio e aterrorizante e Ei só conseguia ver dor em seus olhos. Ela tentou ignorar todo esse tempo, mas a sombra sempre esteve lá, no fundo de sua mente, sempre aparecendo quando ela menos esperava.

Ela abriu a boca várias vezes, tentando encontrar as palavras certas.

— Nunca pensei que você teria problemas para falar — ele disse.

Ei expirou. Ela precisava saber a verdade.

— Você… — ela hesitou, quase perdendo a voz, mas se forçou a falar — matou Yasuhiro-sama?

Por um momento Ei não tinha certeza se ele a escutara. Não por causa do som do fogo, nem dos sons da floresta. Foi porque ela mal sussurrou. Mas um instante depois, ela sabia que ele tinha escutado. Ei não conseguia ver seu rosto, mas conseguia sentir que ele estava completamente acordado agora.

Tadayoshi ficou imóvel por um longo tempo antes de finalmente sentar e virar para ela. Ele apanhou um graveto e alimentou o fogo, mas seu rosto estava vazio enquanto encarava as chamas.

— O que você sabe sobre meu mestre? — Ele não estava acusando-a, nem estava na defensiva. Ele não estava nem com raiva. Ele estava apenas perguntando.

Ei não sabia se era a fogueira, mas o rosto dele ficou mais sombrio.

— Todo mundo da minha vila conhece Yasuhiro-sama. Acho que todo mundo no país conhece.

Ela lembrava dos viajantes ocasionais e até mesmo o soldado que coletavam impostos falando sobre Yasuhiro-sama. Alguns até afirmavam que o conheciam pessoalmente. Ela nunca acreditou neles.

— A gente cresceu escutando os contos sobre ele. Só o conhecíamos através das histórias, mas mesmo assim ele é… era como um herói… Quando escutamos que ele estava morto, foi como se tivéssemos perdido alguém importante. — Ei lembrava daquele dia. Alguns adultos tinham ido ao castelo comprar ferramentas e voltaram com a notícia. — Eles disseram que Yasuhiro-sama tinha sido traído por seu discípulo, que o matou quando ele estava machucado por causa de… — Ei parou quando viu o rosto de Tadayoshi ficando ainda mais sombrio.

— Continue — ele sussurrou. — Gostaria de saber o que você escutou.

Ei suspirou e abaixou os olhos, com medo de continuar olhando o rosto dele. De algum jeito o ar ficou mais frio apesar do fogo e a menina tremeu.

— Alguns disseram que voc… o discípulo fez isso porque queria Inori-sama. Mas Yasuhiro-sama não permitiu. Sua filha estava prometida para o filho do imperador. Quando voc… o discípulo escutou isso, ele aproveitou a oportunidade e depois que matou Yasuhiro-sama, ele foi até o quarto de Inori-sama e…

Ela não conseguiu se forçar a dizer o resto. Como eu posso dizer que ele se forçou nela e a engravidou? A aparência no rosto de Tadayoshi era demais para ela. Ela tinha visto uma expressão parecida apenas uma vez; depois que o samurai revelou seu nome e todos o olhavam cheio de ódio. Mas nem naquela hora foi assim, ela pensou.

— Eu sabia que os rumores eram ruins, mas isso…

Eles ficaram em silêncio por um longo tempo. Ela tentou pensar em algo para mudar o clima.

— Minha história favorita é aquela onde Yasuhiro-sama invade o castelo e salva Kouhime-sama. E também a dele derrotando uma vila inteira de ninjas sozinho. Dai-jii gostava de contar a que ele deu todo seu dinheiro e pertences tirando a espada para ajudar uma vil… — Ei perdeu as palavras de novo quando viu o rosto de Tadayoshi se iluminando com um sorriso.

— Essas histórias foram… vamos dizer levemente mudadas. — Seu sorriso aumentou com a risada. — O velho não invadiu o castelo, ele foi convidado. E o que ele fez com Hikari-sama tecnicamente foi sequestro, dependendo do ponto de vista. E sobre a coisa sobre o dinheiro… ele odiava falar sobre isso, mas sua esposa adorava contar para qualquer um que escutasse. Na verdade ele apostou com uma criança e perdeu de verdade.

Ei não conseguiu deixar de sorrir também. Mas lentamente sua risada morreu e o sorriso diminuiu. Seu rosto ficou sombrio de novo e o ar ficou mais pesado. Por um longo momento, o som da fogueira foi a única coisa que quebrou o silêncio na clareira. Ele parou de encarar as chamas e olhou Ei nos olhos.

— É verdade que eu matei meu mestre — ele sussurrou. — Não porque queria. E sobre Inori…sama… eu nunca a machucaria… — Tadayoshi cobriu o rosto para esconder as lágrimas. Depois de um longo tempo, ele abaixou a mão. — Eles me chamam de o homem sem lealdade, mas é mentira! Tudo o que sou é graças ao mestre! Eu preferia morrer a traí-lo! — ele terminou, sua respiração pesada.

Tinha uma intensidade estranha em seus olhos, mas Ei não conseguiu encontrar nenhuma mentira neles. Ela foi inundada por alívio e respirou. Só agora percebera que segurava a respiração desde que Tadayoshi a encarou nos olhos.

— Se eu contar o que realmente aconteceu, você nunca acreditaria. Prometo que vou contar um dia. — O clima pesado se foi e no outro momento ele voltou para sua posição confortável. — Agora vá dormir. Você precisa recuperar suas energias. Tem uma longa estrada antes de começar a treinar de verdade.

Demorou um tempo para entender as palavras dele. Quando entendeu, uma faísca de raiva cruzou o rosto dela.

— Então o que fiz hoje? Não era uma técnica?

— Não — ele riu. — Aquilo foi só o básico. — E foi dormir.

Ei respirou fundo e desapegou de sua raiva. Então ela notou algo inesperado. Ela se sentia calma. A ligação entre eles não tinha mudado. Não… mudou sim, ela percebeu com um pequeno sorriso. Está mais forte.

Junto outra onda de alívio, veio o sono, a atingindo como uma espada. Ei mal conseguia manter os olhos abertos agora. Ela tentou se mexer, mas seu corpo não obedeceu de imediato. Sentar na mesma posição por tanto tempo deixou suas pernas doendo. Com dificuldade, ela levantou e as sacudiu um pouco.

Agora era sua vez de procurar um lugar confortável no chão. Não encontrou nenhum. Desistindo, ela apenas deitou perto do fogo. Apesar do cansaço, o sono não veio na mesma hora.

Por alguma razão sua mente estava inquieta. Mais uma vez invejou da habilidade de Tadayoshi de dormir a qualquer hora em qualquer lugar. Pensando nele, ela virou e encarou as costas dele. Ele não era grande nem musculoso, mas suas costas pareciam enorme para ela. Ei finalmente dormiu.

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