[PT] Tsukiko 9

Depois de um mês, Tsukiko-chan e Taiyou-kun estão de volta (eu também, por sinal)
Espero que gostem desse cap

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Tsukiko-chan e Taiyou-kun 9

O silêncio desconfortável preencheu a sala, quebrado volta e meia quando alguém fazia uma anotação no caderno ou tossia para limpar a garganta. Tsukiko tentou ignorar e focar-se no livro que deveria estar lendo, mas não conseguia deixar de olhar ao redor da mesa.

Como tanta gente pode se reunir e ficar tão quieta? Sei que estamos estudando, mas mesmo assim… Ela forçou seus olhos a voltarem ao livro, todavia, não termina de ler a primeira linha quando deu uma espiada no garoto à sua direita.

Taiyou-kun fazia o que ela deveria estar fazendo: ler. Ele não reparou na garota olhando para si enquanto virava a próxima página. Apesar de sua expressão calma, havia algo nos olhos dele que incomodava Tsukiko.

Ele tá com raiva? Deve estar… Nem a garota conseguia dizer vendo a expressão dele. Ele está com raiva, decidiu, pressionando os lábios. Quer dizer, quem não ficaria depois daquilo… Calma, não é minha culpa, né? Pensei que fosse uma boa ideia… Argh, droga! Como as coisas acabaram assim?

Tsukiko olhou para o garoto à sua esquerda. Embora Kobayashi-kun aparentasse ler o livro, parecia tão entediado quando ficava durante as aulas. A garota sabia que faltava pouco para ele cochilar. Se sentindo culpado pela forma como tratou o Taiyou-kun, Kobayashi-kun? Pronto pra pedir desculpas? Tsukiko quis dizer, queria descontar sua raiva… mas conteve seus sentimentos. Provavelmente só incomodaria o Taiyou-kun mais, sabia ela. A última coisa que queria era deixar o garoto ainda mais infeliz.

Com um suspiro pesado, Tsukiko forçou seus olhos a voltarem para o livro, embora não importa o quanto encarasse a página, nunca saiu da primeira frase.

— Valeu, Aozora — disse Kobayashi-kun após um tempo. Em poucos segundos, ele fechou o livro e reuniu seu material, pronto para ir. — Ajudou muito, mas preciso ir.

— É, temos treino — complementou Kenichi-kun, com uma voz embargada.

— Até perto das provas de meio semestre? — soltou Tsukiko.

— É, tipo… — Kenichi-kun coçou o rosto e mostrou um sorriso desconfortável.

— O técnico não sabe — interrompeu Kobayashi-kun. Tsukiko andava com o garoto tempo o bastante para saber que ele se orgulhava daquilo. — Fui eu que armei isso. Ainda que as provas estejam chegando, as partidas são mais importantes. Tipo, tem muita expectativa se vamos pras nacionais ou não.

Expectativas em você, na realidade, não? Tsukiko conteve-se. Descontar nele assim não vai dar em nada. Em vez disso, tentou tratá-lo o mais normal que conseguia.

— É mesmo? Bom treino, então.

— Valeu. Prometo que meu próximo gol será por você. — Kobayashi-kun mostrou seu sorriso antes de ir para a porta da frente do apartamento de Tsukiko.

— Isso, obrigado por tudo Aozora. Pode acreditar, vai ajudar nosso capitão idiota a passar raspando — disse Kenichi-kun, levantando-se e reunindo seus materiais.

— Ô, ouvi isso! — A voz de Kobayashi-kun veio da entrada e Tsukiko, Yui e Rika-chan riram. Todos, exceto Taiyou, que continuava quieto olhando para o livro. Tsukiko notou que seus olhos não se moviam.

— E desculpa pelo nosso capitão, Fuyuzora — adicionou Kenichi-kun, em voz baixa para que Kobayashi-kun não ouvisse. — Sei que ele parece um retardado, e pra ser honesto, ele é, mas não é um cara ruim. Espero que nos ajude de novo no futuro.

Tsukiko não notou, mas prendera o fôlego enquanto esperava a reação de Taiyou-kun. Ela olhou do colega de turma para o amigo, os segundos passando lentamente. O garoto voltou sua atenção para Kenichi-kun e fez uma pequena mesura sem dizer nada. O vice capitão mostrou um sorriso de desculpas e foi atrás de Kobayashi-kun.

— Acho que já vou nessa também. Minha mãe anda no pé recentemente sobre ficar fora até a hora do jantar — disse Rika-chan, poucos momentos depois dos garotos irem. — Não acho que ela acredita em mim quando eu digo que estava estudando com amigos.

A garota sorriu e Tsukiko riu, entretanto, era mais do que óbvio que a amiga queria sair de lá. Não a culpo.

— Imagine se você tivesse as minhas notas — brincou Tsukiko, tentando melhorar o clima.

— Se ela tivesse, a mãe ia chorar o dia todo se perguntando onde errou — disse Yui com um tom indiferente.

Rika-chan riu e desviou o olhar quando Tsukiko voltou-se para ela. A garota ficou vermelha e pronta para responder Yui quando viu Taiyou-kun tremendo e usando o livro para cobrir o sorriso. A visão daquilo fez ela suspirar de alívio e deixar a piada da amiga passar. Por enquanto, pensou.

— Eu vou com você, Rika. — Yui reuniu os livros e esfregou a cabeça. — Não consigo estudar mais. Cheguei no meu limite diário faz tempo.

— Obrigada por tudo, Taiyou-kun — disse Rika-chan, com um sorriso gentil. — Espero que possa nos ajudar de novo.

— Sim, valeu, Taiyou. Quando a Tsukiko sugeriu isso, nunca pensei que seria tão útil.

— Eu disse, não disse? Deveria me agradecer também. — Tsukiko tinha um toque de orgulho na voz.

Yui encarou a amiga por um bom tempo sem nada dizer.

— É, valeu novamente, Taiyou — disse, inclinando a cabeça para fala com o menino atrás de Tsukiko.

— Ei, não me ignore! — A garota inclinou-se para bloquear a linha de visão de Yui e exagerou na reação para melhorar o clima um pouco mais.

Após pararem de rir e se despedirem, as garotas saíram pela porta da frente. Quando Yui estava prestes a fechar a porta, ela olhou para Taiyou-kun com as sobrancelhas erguidas e ergueu o queixo algumas vezes. Eu sei, eu sei, Tsukiko disse na forma de um aceno.

Assim que foram embora, Tsukiko olhou para a porta, respirando fundo. Ela caminhou para a mesa sem olhar para Taiyou-kun. Quando estava perto dele, abaixou a cabeça e juntou as mãos.

— Me desculpa, Taiyou-kun!

— Você não fez nada que precise se desculpar…

Ela apenas ergueu a cabeça quando o escutou suspirar, fechar o livro e virar para ela. Tsukiko mordeu os lábios quando viu seu rosto. Embora fosse sua expressão comum, a falta de raiva em seu rosto a fez se sentir culpada.

— Eu sei, mas… Você veio nos ajudar e o Kobayashi-kun te tratou daquela forma. — Sua voz foi sumindo enquanto lembrava. — Se eu soubesse que ele ia se comportar daquele jeito, nunca teria convidado ele. — Na verdade, eu nunca quis convidá-lo, lembrou-se, tentando, sem sucesso, aliviar um pouco seu sentimento de culpa. Ele se convidou…

Um dia, durante a aula, Tsukiko foi pega de surpresa quando o professor lembrou-os de que as provas de meio de semestre se aproximavam. Ela ficou ainda mais surpresa quando quase todo mundo concordou. A única razão da garota não ter entrado em pânico foi porque suas amigas a contaram que não haviam estudado. Mas quando Yui e Rika-chan completaram com um “tanto assim”, ela ficou preocupada.

— Deixe-me adivinhar — disse Yui, sorrindo —, você se esqueceu completamente das provas enquanto ajudava os clubes e ficava com o Taiyou-kun e não estudou uma vírgula. Acertei?

Tsukiko engoliu em seco, ignorou Yui e voltou-se para Rika-chan.

— Por favor, me salva!

— Tudo bem, Tsukiko-chan. Ainda tem tempo — disse sua amiga com um sorriso muito diferente do da Yui.

As garotas planejaram que cada uma ajudasse as outras duas em sua especialidade. Só tinha um problema.

— História… — disseram juntas, o bom humor de todas evaporando. Nenhuma delas tinha notas boas nessa disciplina. Na realidade, Tsukiko estava muito perto de uma nota vermelha desde o segundo ano e, se não fosse pela insistência do professor em dar tarefa adicional a ela, a garota teria recuperação no verão passado.

— Ah! Já sei! — Tsukiko alegrou-se quando lembrou, sorrindo como se tivesse tido a melhor ideia de todas. — Que tal pedirmos ao Taiyou-kun? Ele…

— Pra um calouro? Chegamos a esse ponto? — interrompeu Yui. — Ainda que coloque o garoto num pedestal, duvido que ele possa ajudar.

— Que tal me deixar terminar, querida melhor amiga? — Tsukiko fechou os olhos, ergueu a mão e moveu o dedo lentamente, mostrando a expressão mais convencida que tinha. — Mesmo que ele seja do primeiro ano, de vez em quando ele tem aulas particulares com um ótimo professor. Dan-sensei ou algo assim.

— Calma, não tá falando daquele Dan-sensei do Colégio Hyouzan, tá? — Rika-chan arregalou os olhos, surpresa. — Como ele conhece alguém tão famoso?

— É um amigo da família.

— E acha mesmo que o Taiyou pode ajudar? Digo, ainda que ele seja bom em história, ainda está no primeiro ano. Ele pode nos ajudar com a Era Sengoku? — Yui parecia pasma por um segundo, mas logo voltou a ser cética.

— Deixa eu perguntar pra ele. — O sorriso de Tsukiko ia de uma ponta para a outra enquanto pegava o celular.

Ele ficou tão feliz quando pedi pra ele, lembrou-se Tsukiko, a culpa crescendo em seu coração quando olhou a expressão vazia do garoto. Por que não recusei quando o Kobayashi-kun se convidou? Não é minha culpa… Ah, droga! Ele arruinou tudo! Por que ele tinha que ser tão rude com o Taiyou-kun?

Após as garotas terminarem seus planos, Kobayashi-kun apareceu do nada, perguntando com seu sorriso habitual se podia se juntar a eles. Disse que se suas notas não melhorassem até um mínimo, o técnico não ia deixar ele jogar nas próximas partidas. Após a insistência de Kenichi-kun e Rika-chan, não tinha jeito de Tsukiko recusar.

Apesar de alguns contratempos aqui e ali, incluindo um dia quando todos confundiram a matéria e trouxeram os livros errados, o grupo de estudo ia sem problema. Tsukiko se sentia realmente confiante que seriam suas melhores notas em um bom tempo.

Até que chegou a vez de história. Rika-chan já se encontrara com Taiyou-kun, mas Tsukiko ficou surpresa ao saber que Kobayashi-kun e Kenichi-kun também conheciam o garoto. Porém, o que a chocou de fato foi o motivo: as escolas se enfrentariam na próxima partida de futebol.

Como o Taiyou-kun conseguiu esconder isso de mim? Pensou Tsukiko na hora, já considerando o quanto iria provocá-lo por conta disso. Então notou o motivo, e desistiu logo. Se ele escondeu de mim, é porque tá nervoso… Tipo, tecnicamente, ele vai jogar contra a minha escola… e somos mais fortes, segundo a Yui… e o Kobayashi-kun.

No instante seguinte, no entanto, Tsukiko não teve mais tempo para pensar nisso. Kobayashi-kun começou a fazer piadas e comentários maldosos sobre Taiyou-kun, querendo saber se ele podia ajudá-los, sendo um pirralho e tudo mais, segundo ele. Ou se o garoto queria mesmo ajudar, já que eles se enfrentariam e, sem ele, as chances de vitória da Teikou aumentariam um pouquinho…

— Ele é mesmo… arrogante — disse Taiyou-kun, olhando-a nos olhos. Embora Tsukiko não pudesse fazer nada além de concordar com ele, ela desviou o olhar. Havia algo nos olhos do garoto no momento que ela não gostava, embora não soubesse o que era. — Eu fiquei sabendo que ele era assim, mas pensei que era apenas no campo…

No instante seguinte, ela compreendeu. Pra ele falar assim de alguém que acabou de conhecer… Não é que esteja bravo. Esse doce de garoto que transborda gentileza se sente ferido, percebeu ela em seu coração.

— É… Não posso discordar… mas ele consegue ser legal… quando quer… às vezes… — Porque estou defendendo o Kobayashi-kun?

— É mesmo? — A voz de Taiyou-kun ficou mais baixa e pela primeira vez desde que o conheceu, Tsukiko sentiu que era uma voz fria. — Ele me enganou totalmente. Pensei que era só egoísta. É difícil acreditar que vocês dois são amigos.

Tsukiko sentiu outra dor no peito quando escutou aquilo, mas, novamente, tudo que podia fazer era concordar. Não está certo… O Taiyou-kun que conheço e gosto não diria algo assim… O Kobayashi-kun realmente o magoou…

Kobayashi-kun só diminuiu os comentários e piadas maldosas quando Taiyou mencionou Dan-sensei. No instante em que escutou aquele nome, ele mudou de atitude com o garoto, tratando-o com alguma decência.

Mas ainda tirava uma com o Taiyou-kun volta e meia… Ah, droga! Chega! O Taiyou-kun não deve pensar naquele idiota mais.

— Deixando isso de lado, você reparou em algo entre a Yui e o Kenichi-kun? — Ela mudou de assunto no instante em que se lembrou. Com o desastre de hoje, esquecera-se, mas durante as sessões de estudo, algumas situações fizeram a garota se perguntar se sua melhor amiga gostava ou não do vice capitão. — Embora ela não demonstre nada, nem me diga, acho que ela gosta dele.

— Eh? — Taiyou-kun arregalou os olhos, o ar frio e obscuro sumindo na hora. A mudança foi tão repentina que pegou Tsukiko desprevenida. — Você não notou mesmo?

— Eh? Notar o quê? — Tsukiko se aproximou dele, seu rosto a centímetros do rosto do garoto. A expressão do Taiyou-kun mudou de surpresa para medo, e então arrependimento. — Ei Taiyou~~kun… O que você está escondendo de mim? — sussurrou ela no ouvido dele. O garoto se afastou, o rosto com um tom alarmante de vermelho.

— Não… é que… não é bem… — Taiyou-kun se enrolou com as palavras enquanto tentava escapar dela, mas Tsukiko não o deixou.

— Né, Taiyou-kun. Não prometemos que não esconderíamos nada um do outro? — pressionou ela, olhando-o nos olhos. De alguma forma, Taiyou-kun ficou ainda mais vermelho.

— Errh… mas isso não é sobre nós… Digo, eu…

— Então você mentiu para mim… — Tsukiko olhou para baixo e fungou. Ela sabia que Taiyou-kun sabia que ela estava fingindo, mas, mesmo assim, o afetou. Ele pressionou os lábios e depois abaixou a cabeça.

— Yui-san… não gosta do Kenichi-san… — Ela mal escutou o sussurro dele.

— Eh? Então de quem ela gosta? — Tsukiko parou de fingir se sentir magoada e arregalou os olhos. — Do Kobayashi-kun? Sério? Nunca notei… e ela tentou nos juntar, embora ela parou por algum motivo…

— Não… Ela não gosta dele também…

— Eh…? — Levou um tempo, mas Tsukiko finalmente entendeu.

— O tempo acabou. Parem os lápis — disse o professor com a voz cheia de energia no instante em que o sino tocou.

— Finalmente acabou. — Tsukiko passou as folhas de prova para a pessoa a sua frente e descansou a testa na mesa, apreciando a madeira gelada contra sua pele. — Minha cabeça parece que vai derreter…

— E só vai ficar pior daqui pra frente. Não consigo imaginar quando os vestibulinhos chegarem. — Tsukiko escutou a voz de Yui. Ela olhou para cima e viu a amiga esfregando os olhos. — Aposto que minha mãe vai ficar toda não relaxe! Comece a estudar pras provas! Não perca nem um segundo!

— Imagine daqui três anos quando for o vestibular de verdade. — Tsukiko soltou uma risada cansada.

— Ao menos História foi mais fácil dessa vez por causa do Taiyou-kun. — Rika-chan se juntou a conversa deles.

— Não foi? Acho que foi a primeira vez que terminei a prova toda antes do tempo acabar.

— Melhor darmos algo pra ele como agradecimento. Ele se esforçou muito pra nos ajudar.

— É. Tenho uma ideia do que ele gostaria. — Yui voltou-se para Tsukiko com um olhar cheio de significado. Antes que a garota perguntasse, no entanto. — Preciso usar o banheiro. Estive segurando por tempo demais.

— Eu vou com você — disse Rika-chan.

Tsukiko observou enquanto suas amigas saíam da sala conversando e rindo. A Yui realmente gosta da Rika-chan nesse sentido…? As provas fizeram a garota deixar a ideia de lado, mas, desde que o Taiyou-kun mencionou, as palavras dele continuavam lá, no fundo de sua mente.

De início, ela pensou que o garoto estava errado, mas Tsukiko sabia que o Taiyou-kun não diria algo assim a menos que tivesse certeza. Eu meio que o forcei a falar… mas, de toda forma, ele observa bem demais os outros. Se diz que tem algo no meio… Ainda que não percebesse, Tsukiko estivera observando as amigas melhor naquele dia. Houve algumas… situações estranhas, mas se o Taiyou-kun não tivesse dito nada, eu nunca consideraria…

— …kiko… Tsukiko… Tsukiko! — Alguém balançou ela e a garota olhou para cima, dando de cara com Yui e Rika-chan. — Aleluia! Pensei que você dormiu de olhos abertos depois de usar tantos neurônios desse cerebrozinho.

— Prometo que, quando eu achar a graça, vou rir da sua piada — disse Tsukiko, reunindo todo o sarcasmo que conseguia. Após um segundo de silêncio, as três riram. — O que vocês vão fazer mais tarde? Vamos celebrar o fim das provas. Podemos até procurar algo pro Taiyou-kun!

— Estou dentro. — Yui se levantou.

— Quem me dera… — Os ombros da Rika-chan caíram enquanto suspirava. — Minha mãe vai me forçar a ir em um cursinho. Esse ano é muito importante! Você precisa entrar em colégio bom e depois em uma universidade boa! — disse ela, em um imitação incrível de sua mãe. E alguns professores também, pensou Tsukiko, contendo o riso.

— Boa sorte. — Yui deu uns tapinhas nas costas de Rika-chan enquanto assentia de forma simpática. — Acho que somos só nós duas, Tsukiko. Que tal o fliperama?

— Caramba! — Yui jogou as bolsas na cama de Tsukiko. — Como eles mantêm um jogo quebrado daqueles?

Tsukiko conteve o riso.

— Ao menos você conseguiu o prêmio — disse, embora soubesse que sua amiga não estava feliz com aquilo.

— Preferiria ter meu dinheiro de volta e jogar um jogo que não esteja quebrado! — Apesar do que dizia, Yui acariciou o prêmio com carinho.

Elas decidiram acatar a sugestão de Yui para aliviar um pouco de estresse. Mas o fliperama acabou sendo um erro. Após alguns jogos divertidos, Yui viu um bichinho de pelúcia que realmente quis, por algum motivo. Tsukiko pensou que precisaria de só alguns minutos, já que a amiga era muito boa naquela máquina da garra. Mas não foi o caso. Não importa quantas vezes Yui pegasse o animal, ele simplesmente não sai a do lugar. Só após gastar quase sua mesada toda, ela notou que o bichinho estava com sua etiqueta presa em um parafuso.

O gerente se desculpou várias vezes pelo inconveniente e deu o bichinho de pelúcia para Yui.

— Por que você queria tanto ele? Não queria falar, mas um tigre estripado com o intestino pra fora não é nada fofo.

— É pra Rika. — Yui deitou na cama com os olhos no bicho. — Sabe, o aniversário dela está chegando.

Tsukiko se inclinou contra a parede e observou sua amiga em silêncio. Um mês não é “está chegando”, pensou, porém guardou aquilo para si. Isso quer dizer que ela gosta da Rika-chan nesse sentido…? Espera… pode ser só amizade. Ela é assim comigo também…

Ah, droga! A garota chegara em um ponto sem solução. Não vou saber sem perguntar… mas tem problema perguntar? Tipo, ela é minha melhor amiga e dividimos quase tudo, mas isso é diferente… não é? E se ela quiser me contar, mas estiver com medo de que vou rejeitar ela ou algo do tipo? Não, ela sabe que eu nunca faria isso… ah, droga! Quero ajudar minha amiga! O que eu faço?

— Ei, Tsukiko, tá ouvindo?

— Hã? Ah, foi mal. — Tsukiko piscou e balançou a cabeça. — Eu estava pensando em algo…

— Ainda cansada da prova? Yui sentou na cama e encarou Tsukiko. — Não… não é isso… O que foi? Você sabe que pode me contar qualquer coisa.

Eu sei disso… mas parece que é você que não sabe, pensou ela e depois suspirou. Isso não é sobre mim… é sobre minha melhor amiga… Se ela estiver passando por qualquer coisa, quero estar lá por ela, como ela esteve tantas vezes por mim.

— Você também. — Yui piscou, confusa. — Sabe que pode me contar qualquer coisa também. Qualquer coisa. Tipo, pode me falar se tem alguém que você gosta.

Yui arregalou os olhos e então os estreitou. Só durou um segundo, mas Tsukiko conhecia bem demais a amiga para saber que ela entendeu.

— Você que diz — disse ela, pressionando os lábios para impedi-los de tremer.

Ela está com medo de dizer, notou Tsukiko. Sob o olhar rígido de Yui, a garota caminhou pelo quarto, tentando encontrar um lugar para sentar e não parecer que acusava a amiga. Sou uma idiota… por que estou pensando demais nisso? No fim, ela sentou na cama perto de Yui. Se for sobre qualquer outra coisa, ela teria ficado irritada e me contado pra para desembuchar agora…

— Você gosta da Rika-chan — disse Tsukiko, após um bom tempo. Consegui soar apoiadora?

As duas se encararam enquanto o silêncio preenchia o quarto. Yui suspirou e coçou a cabeça.

— Taiyou — disse após um bom tempo, desviando o olhar. Não era uma pergunta. — Te conheço bem o bastante para saber que nunca notaria algo assim.

Apesar da tensão, Tsukiko não se conteve se soltou uma risada com o comentário de Yui.

— É, você está certa… pra variar. — Sua amiga abriu a boca, mas após um segundo tenso, sorriu também.

— Sendo franca, não sei. — Yui deitou na cama de novo. Ela abraçou o bichinho de pelúcia e encarou o teto. — Quando o semestre começou, pensei que ela estava mais fofa… mas quando ela começou a falar do Kenichi-kun… meio que me incomodou.

Yui ficou quieta. Tsukiko tinha algumas perguntas, mas conteve-se. Sabia que a amiga falaria tudo sozinha.

— No começo, pensei que era sobre perder minha amiga e tal, mas você tem esse rolo com o Taiyou e não me incomoda em nada. Me irrita, é claro, mas é porque você fica muito chata quando começa a falar do menino.

— Ei, estou aqui por você e tá tirando uma comigo? — Tsukiko tentou aliviar um pouco da tensão.

— É inevitável. — As duas riram, mas quando pararam, o silêncio reinou. — Acho que tudo mudou quando vi minha senpai beijando uma menina e me fez pensar mais e mais na Rika. Eu queria fazer aquilo com uma amiga? Mas até eu não tinha ideia. Continuei pensando e pensando… e até tentei falar com a senpai, mas o que eu diria? Ei, vi você beijando uma garota e eu… eu…

Quando Tsukiko viu os olhos de Yui se encherem de lágrimas, ela puxou a amiga para si e a abraçou antes que percebesse. Eu não fazia ideia de que minha melhor amiga estava passando por tudo isso…

— Está tudo bem… Não sei o que posso fazer por você, mas estou aqui.

— Obrigada… — Yui devolveu o abraço com mais força.

Tem alguma coisa que eu possa fazer pra ajudar? Tsukiko vasculhou a mente desesperadamente, mas sabia que havia pouco que podia fazer por sua amiga. Ela precisa de alguém que passou por isso…

— Ei, Yui… Quer falar com alguém?

Em um raro momento, Yui disse nada e só assentiu, ainda abraçada na amiga. Tsukiko mandou uma mensagem para a única mulher que sabia poder ajudar. Está livre agora? Tem uma amiga aqui que precisa conversar…

Rin-nee fez três xícaras de chá, passando uma para Yui, que aceitou, e uma para Tsukiko. A garota estava prestes a aceitar quando suas mãos pararam no meio do ar. Ela olhou para a amiga, vendo seu reflexo na superfície da bebida, os olhos vazios.

— Talvez seja melhor se eu não estiver por perto…

— Não… tudo bem… fica… — Uma trêmula Yui agarrou a manga de Tsukiko antes que ela se movesse.

É a primeira vez que a vejo tão vulnerável… Tsukiko aceitou o chá com uma mão e segurou  a mão Yui com a outra. Rin-nee assistiu em silêncio, tomando o chá enquanto a garota sentava no banquinho próximo à amiga.

— Então, o que você queria conversar? — perguntou Rin-nee, olhando para Yui, que manteve os olhos no chá, sem fazer qualquer som.

A médica voltou-se para Tsukiko. A garota abriu a boca, mas então a fechou, olhando para sua amiga. Melhor eu dizer? Não sei de tudo que a Yui passou… sozinha… No fim, tudo que fez foi apertar a mão da amiga com mais força.

— Você estaria, quem sabe, sentindo algo por uma garota? — Rin-nee disse, após ter bebido quase todo seu chá. Yui ergueu a cabeça com os olhos arregalados. Ela abriu a boca e virou-se para Tsukiko, que rapidamente negou. — Tsukiko-chan não disse nada. Mas tem um número limitado de assuntos em que posso ajudar. Sendo assim, a menos que esteja grávida, só poderia ser porque você gosta de uma garota.

Nunca vi a Rin-nee ser tão gentil… e madura, pensou Tsukiko, impressionada. Ela sabia que a médica era legal, mas sempre via Rin-nee como alguém que amava brincar com aqueles que amava muito, ainda que fosse de forma amigável e amável. Mas nunca a vi tão… responsável.

— Eu… Eu não sei… — admitiu Yui, brincando com o chá intocado. — Rika-chan tem ficado muito bonita recentemente, mas depois que começou a falar de um garoto e… eu vi uma senpai beijando uma garota, tive esses sentimentos estranhos… não sei… se… se…

— E se esses sentimentos são de amor ou quem sabe por talvez perder uma amiga? — Rin-nee terminou a frase para Yui. A garota assentiu, os olhos úmidos.

— Sei que é estranho. Por que eu tenho esses sentimentos? Sou uma amiga ruim? Estou com inveja porque ela está interessada em um garoto ou estou com inveja do garoto? Tem algo errado comigo? O que meus pais vão dizer se eu contar isso a eles?

Yui pôs todos os seus sentimentos para fora e Tsukiko não sabia o que dizer. Ela esteve com esse peso nos ombros por meses e eu não fazia ideia… A única coisa a qual era capaz era abraçar sua amiga. Ainda que eu diga que não tem problemas se ela gosta de garotas, conhecendo a Yui, pode ser um tiro pela culatra…

— Yui-chan. — Rin-nee olhou nos olhos de Yui enquanto ela colocava uma mão sobre a da garota e apertava seus dedos. — Não tem nada errado com você ou seus sentimentos.

As palavras fizeram a garota chorar. Yui abraçou Tsukiko mais forte com um braço. Após parar, ela limpou os olhos.

— Me desculpa por chorar assim.

— Não diga isso. Eu sei que crianças como você pensam que são espertas demais pra isso, mas lembre-se que está em fase de crescimento. É uma fase estranha e desconfortável. Passei pela mesma coisa.

— Você passou? — disseram Tsukiko e Yui em coro.

Rin-nee parece tão senhora de si… só perto da tia Shigure que ela age como uma criança. Pensar que a médica adulta e legal que conhecia passou por uma fase dessas era confortador para Tsukiko.

— Sim… Quando eu estava no ensino médio, uma amiga que se mudou arrumou um namorado. Ei, pensando agora, acho que era foi meu primeiro amor. — Havia uma nostalgia estranha envolvendo Rin-nee enquanto ela sorria. Ela deixou para lá com um balançar de cabeça. — Mas, de qualquer forma, minhas amigas e eu começamos a falar mais e mais de amor até eu notar que estava mais interessada em minhas amigas do que nos garotos de nossa escola. Após muitas situações, acabamos praticando beijos umas com as outras. Sabe, pra beijar melhor… Não vou dizer de quem foi a ideia.

Rin-nee riu e bebeu o resto do chá.

— Então o que aconteceu? — Yui parecia interessada enquanto bebia o próprio chá.

— Eu e essa garota em especial continuamos treinando sem as outras saberem. Acho que me apaixonei por ela… Mas depois que ela arrumou um namorado, paramos e ela me fez prometer que nunca contaria ninguém sobre a gente.

— Isso… parece cruel…

— De fato… Foi um choque. Mas, bem, o primeiro amor raramente dá certo. Só em mangás — disse Rin-nee, dando de ombros. Mas logo parou de sorrir e parecia séria de novo. — O que você está sentindo pode ser inveja ou amor. Ou quem sabe algum sentimento temporário que pode passar. Sabe, essas coisas que pessoas velhas dizem quando eu era mais jovem e tal. Confie em mim, já ouvi muito. Mas se realmente gosta de garotas, não precisa se preocupar. Não tem nada de errado com você.

— Não tem…?

— Não. — Rin-nee nunca pareceu tão confiável. — Então não tente apressar seus sentimentos. Apenas deixe ele saírem naturalmente. E o mais importante, não pense no que as pessoas a sua volta dirão. Sei que seus pais são importantes, mas é de você e dos seus sentimentos que estamos falando. Se sentir vontade de falar, estou disponível.

— Obrigada… — disse Yui em voz baixa e Rin-nee sorriu.

— Preciso ir agora. Sabe, encontrar o meu felizes para sempre — disse a mulher.

Tsukiko teve dificuldade em conter a risada. Quando a Sawa-chan-sensei não está por perto, ela diz isso. Mas quando está, a Rin-nee só consegue provocá-la…

— Tsukiko-chan, pode dar meu e-mail e número para a Yui-chan?

— Claro. — As garotas se levantaram.

— Não precisam sair. O Taiyou está no quarto dele — disse a médica antes de ir.

No instante em que a Rin-nee fechou a porta, Taiyou-kun saiu do seu quarto. Ele olhou para Tsukiko, mas a garota notou que ele se esforçou para evitar olhar para a amiga dela. Não fez diferença. Yui virou-se para ele, de volta a si.

— Então foi você quem contou pra Tsukiko. — Novamente, não era uma pergunta.

Tsukiko não fazia ideia se a amiga estava brava ou não. O garoto engoliu em seco, tão vermelho que ela esperava ver vapor saindo de suas orelhas a qualquer segundo. Taiyou-kun tremeu um pouco quando Yui foi até ele, mas ele se manteve firme.

Ele é tão corajoso de enfrentá-la quando ela fica assim, pensou Tsukiko, sorrindo. Algumas vezes, ele pode ser bem viril. Mas para a surpresa do garoto e de Tsukiko, Yui o abraçou.

— Acho que eu devo agradecer.

Quando ela o soltou, o garoto abriu e fechou a boca várias vezes, mas nenhum som saiu dele. Quando ela se inclinou e o beijou na bochecha, Taiyou-kun pareceu prestes a desmaiar a qualquer momento.

— É sua recompensa. Por contar a minha melhor amiga algo que não pude… e por ajudar com história — disse Yui, embora seus olhos estivessem em Tsukiko.

A garota ficou vermelha e correu para se colocar entre eles.

— O que você está tentando fazer com o puro e inocente Taiyou-kun?

— Puro e inocente? — Yui riu e colocou uma mão na cabeça de Taiyou-kun. — Acredite, ele já fez mais do que um beijinho na bochecha.

— Quê? Quando? — Tsukiko olhou de Taiyou-kun para Yui. Mas o que ela realmente queria perguntar era: — Com quem?

— Oh, olhe a hora. Preciso ir. — Yui ignorou sua amiga e passou pela porta. Tsukiko saiu com ela, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, a garota abraçou sua amiga. — Tsukiko… obrigada…

— Eu disse que estou aqui por você. — De repente, uma piada veio até ela. Posso dizer? Tipo, antes disso eu fazia piadas sem me preocupar. — Se você gosta meninas, isso significa que curte essas coisas?

Yui congelou por um segundo, mas depois riu, para o alívio de Tsukiko.

— É… Se gosto mesmo garotas, posso dizer sem medo que você não é meu tipo. — Ela riu de novo.

— Como é? Você teria sorte de me namorar! — Tsukiko fingiu magoada, tirando mais risadas da amiga.

— É, eu teria mesmo— disse Yui e abraçou Tsukiko de novo. — Valeu.

— Ah, para. Você está me deixando envergonhada.

Yui estava prestes a fechar a porta quando parou de novo.

— Tem alguém que seria mais sortudo do que eu — disse, então foi embora.

Tsukiko virou-se para o garoto e de repente se lembrou das palavras de Yui.

— Ei, Taiyou-kun, do que ela estava falando? — Antes que ele pudesse fugir para seu quarto, ela o agarrou. — Você não vai escapar.

— Eu… ah… não sei do que ela estava falando… — Ele olhou para todos os lugares, menos para ela.

— Vou te deixar passar… dessa vez. — Ela sabia que ele estava mentindo, e ele sabia que ela sabia, mas em vez de pressionar mais, Tsukiko sentiu no sofá e puxou o garoto. Ela o abraçou por trás e olhou para o teto. — É graças a você que estou mais próxima da Yui.

— Eu não fiz nada…

— Não… hoje foi tudo graças a você… Se não tivesse me contado, eu nunca saberia e a Yui poderia manter esses sentimentos pra si por muito mais tempo.

— Mas você estava lá por ela. Isso é o mais importante. As coisas só aconteceram hoje porque você é uma boa amiga.

— Acho que conhecer você me mudou. — Tsukiko fechou os olhos e apreciou o calor que vinha do garoto. — Estou feliz que falei com você aquele dia.

— É… eu também. — Ela escutou sua voz baixa, mas o que a deixou feliz era ele envolvendo suas mãos nas dela.

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