[PT] Meus olhos 4

Lançando o cap 4 de Meus olhos enxergam. Aposto que queriam mais depois daquele final do cap 3, não é?
Espero que gostem desse cap.

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Meus Olhos Enxergam 4

Eliza ficou parada no canto, observando a ruiva andar entre fileiras de roupas enquanto balançava a cabeça.

— Não… Não… argh… essa não… o que minha mãe pensou pra por isso aqui? Ou mau gosto ficou popular agora? Sinto muito pelas próximas gerações — murmurou Bianca para si.

A garota conteve o impulso de perguntar por que as duas estavam lá. De novo. Não aguento mais ouvir ela dizer “comprar roupas” mais uma vez. A cara de “não é óbvio? Não dá pra ver?” é irritante demais, pensou Eliza, fechando os olhos e respirando fundo.

— Ah, esse aqui é interessante. — Eliza ouviu a voz de Bianca e abriu os olhos. A ruiva veio até ela com um sorriso no rosto e um vestido em mãos. — Experimente este.

Eliza olhou nos olhos de Bianca por um bom tempo antes de suspirar e voltar sua atenção para o vestido verde escuro sem alças.

— Não sei… — Ciente do quão persistente a ruiva era, a garota suprimiu sua resposta imediata, um não, e tentou imaginar-se usando as roupas. Não vai ficar bom. — Não é minha cara…

— Já tentou algo assim antes? — perguntou Bianca, inclinando a cabeça, os olhos verdes cheios de entusiasmo.

— Na minha festa de quinze anos — murmurou. Bianca nada disse, apenas observando a garota. Sob seu olhar, Eliza suspirou e aceitou o vestido. Não foi assim que imaginei que seria meu dia, pensou, caminhando até o vestiário.

Quando Eliza acordou, ela se sentia melhor que o habitual. Falar sobre meus poderes e o que aconteceu nos últimos meses pra alguém, ainda que fosse Bianca, foi ótimo. Ainda assim… talvez eu não devesse ter dito tanto. Embora a ruiva mal pudesse causar qualquer problema, por um instante, a garota pensou em faltar aula. Mas, quando imaginou o rosto da mãe, Eliza desistiu da ideia. A mãe e o pai se esforçam muito, pensou, saindo da cama.

Seus medos eram infundados, no entanto. Quando chegou à escola, tudo estava como sempre. Os alunos sussurravam os mesmos velhos boatos sobre ela quando a viram, e os professores a trataram como se fosse ter uma decaída a qualquer instante.

Acho que… isso é bom… quem sabe. Pode significar que a Bianca é confiável. Ou quem sabe está tramando uma, considerou Eliza. Não importa se estiver planejando algo ou não, não posso me esconder no banheiro o dia todo. Ela foi para a sala, mas parou na porta, suas mãos suando. Por que estou nervosa? Eliza balançou a cabeça e entrou.

Bianca não estava na sala. Acho que ela não chega cedo. Pensando nisso, eu mal chego na hora e não me lembro de vê-la aqui antes de mim. Eliza sentou-se na cadeira e descansou a cabeça na mesa, mas, em vez de fechar os olhos e descansar, ela prestou atenção. Quando escutou a porta se abrindo e o barulho aumentando na direção das garotas, sabia, mesmo sem ver, quem era a recém-chegada.

Se ela falar comigo aqui, será que minha reputação vai cair mais ainda? Aposto que vão inventar que estou chantageando ela pra conseguir dinheiro pra mais drogas. Qual foi a última? Ah, cocaína, pensou Eliza, virando a cabeça na direção da porta. Ela estava certa. Era mesmo a Bianca, mas a ruiva conversava com suas amigas e sentou em sua cadeira, sem se virar uma única vez na direção de Eliza.

Ela tá me ignorando? Por algum motivo, aquilo a irritou, mas ela suprimiu seus sentimentos. Respirando pelo nariz, Eliza fechou os olhos. Porém, em vez de descansar, a garota os abriu quase imediatamente e encarou a ruiva.

Coincidência ou não, Bianca olhava para Eliza no mesmo instante. Quando seus olhares se encontraram, a ruiva sorriu e voltou-se para seus amigos. Estou me importando demais com ela, pensou, estalando a língua.

Antes que Eliza se irritasse mais, a ruiva apontou para baixo, tão discretamente que apenas ela notara. O que ela está fazendo? perguntou-se Eliza por um instante, mas quando Bianca coçou o olho, ela percebeu. Suspirando, a garota focou sua vista na mesa de Bianca.

A mesa ficou transparente, e Eliza percebeu que Bianca apontava para entre suas pernas, cutucando sua coxa com um dedo. Eliza bufou. Se eu fizer o que ela quer, vou estar deixando ela me manipular… A ideia a irritava, mas, já que sua curiosidade era maior, ela focou os olhos um pouco mais. Corou no instante em que a saia ficou invisível, sua visão voltou ao normal quando perdeu seu foco.

Bianca escrevera na parte interna de sua coxa. Me encontre no shopping na hora do almoço. Droga, Ruiva. Não tinha jeito melhor de me falar isso? pensou Eliza, suas bochechas ainda queimando. O pior foi que a ruiva notou, o sorriso malicioso aparecendo em seus lábios. Merda…

— Não parece muito bom — disse Eliza através das cortinas, virando-se para se olhar no espelho. — Eu avisei.

— Deixa eu ver — disse Bianca, e entrou sem esperar uma resposta.

— Espera um pou…

— Do que você está falando? Ficou lindo. — Bianca circulou Eliza, cantarolando em aprovação. — É, tenho bom gosto.

— Sei que é difícil, beirando o impossível, mas poderia parar de se auto elogiar por um segundo e sair? Quero me trocar. — Eliza suspirou.

— Qual o problema? — Bianca mostrou o sorriso malicioso, perto demais do rosto de Eliza. — Ambas somos mulheres, então está tudo bem se trocar comigo aqui… né?

A garota olhou para a ruiva de cima a baixo, conferindo o busto de Bianca duas vezes antes de desviar o olhar. Com um corpo desses, é mais como se eu fosse uma menina e você uma mulher, pensou, mas não disse.

— Por vários motivos, parece sarcasmo quando você diz isso.

Bianca riu.

— Tudo bem. Algum dia farei de você uma mulher também — sussurrou enquanto olhava Eliza nos olhos.

Não reaja, Eliza pensou. Não deixe ela saber que essas brincadeiras me afetam. Depois de um tempo sem qualquer reação dela, a ruiva suspirou.

— Mas antes desse dia, experimente este aqui. — Ela estendeu a mão, segurando outro vestido que pegara e deixara do lado de fora do vestiário.

Eliza suspirou aliviada. Quando seu coração acelerado voltou ao normal, ela voltou-se para o vestido, pronta para dizer qualquer coisa e evitar experimentar mais roupas. Mas, quando olhou as roupas, as palavras de recusa e irritação nunca deixaram sua boca. Antes que notasse, imagens de si mesma usando o vestido encheram sua mente. Sem olhar para Bianca, ela aceitou as roupas e esperou até que a ruiva sorridente saísse do vestiário.

Não posso acreditar que estou fazendo isso, pensou outra vez, mas antes que pudesse impedir, um sorriso surgira em seus lábios dessa vez. Mas acho que sair com ela e fazer esse tipo de coisa não é ruim. É melhor do que ficar em casa e sem fazer nada.

— Ah — exclamou Bianca, quando Eliza puxou a cortina. A ruiva ficou sem palavras, mas logo voltou ao normal e sorriu. — Pelo visto…

— Pode começar com o autoelogio. Até eu preciso admitir que você merece um pouco — interrompeu Eliza, brincando.

— Eu faria sem pensar duas vezes… se merecesse. Mas, a meu ver, você está linda demais pra começar a falar bem de mim mesma — disse, mostrando um sorriso sincero.

A falta de significado oculto por trás das ações da ruiva pegou Eliza desprevenida. Ela evitou os olhos de Bianca e olhou para o chão, procurando esconder o embaraço.

— Esse aqui ficou bom. Satisfeita? — murmurou Eliza, voltando para o vestiário.

— Sim, por enquanto. — A voz de Bianca ecoou do outro lado da cortina.

— Hã? Ainda não acabamos? — perguntou Eliza com a voz abafada, tirando o vestido e colocando suas roupas normais.

— Ainda tem muito pra essa noite — disse Bianca quando a garota terminou de se trocar, aguardando pela mesma com o sorriso malicioso.

— Ainda tem muito? E pra que, exatamente? Você ainda não me contou o motivo disso tudo.

Bianca ignorou Eliza, puxou a garota na direção do caixa.

— Vamos, não temos tempo a perder! — disse, de repente excitada como uma criança.

Ela deve ter gastado uma bela grana, pensou Eliza, olhando para seus novos pertences espalhados na cama de Bianca. Bom, uma bela duma grana pra mim, é claro. Ela olhou para a compra de Bianca. O que a ruiva comprara para ela nem se comparava com o que comprara para si. Sei que ela disse que eu não precisava pagar, mas… na real, não poderia pagar nem se quisesse, ainda assim, é muita coisa.

Não foram só roupas. Bianca também levou Eliza para fazer as unhas, comprou brincos e saltos, e até tiveram uma rápida ida a um Spa para, aparentemente, relaxar após um dia de compras. Acho que é isso que gente rica faz todo dia. Será que eu poderia fazer isso diariamente?

Após alguns segundos imaginando, Eliza balançou a cabeça. Ainda que tivesse dinheiro pra isso, seria chato demais fazer isso toda semana. Uma vez ou duas por ano basta. Ela olhou para Bianca, organizando as compras. Não pensei que a Bianca gostasse desse tipo de coisa. É difícil imaginar a garota que curte dar uma surra nos outros se divertindo fazendo compras todo dia, que nem nos filmes. Mas, de novo, acho que ela gostou bem mais de me ter como boneca do que as compras em si. Acho que essa parte da imagem de riquinha é real.

Embora fosse interessante descobrir mais sobre a famosa Bianca, havia algo que irritava Eliza. Ela nunca disse por que estávamos fazendo compras e quais os planos pra hoje.

— É surpresa — disse Bianca, na maioria das vezes, fazendo Eliza se revezar entre respirar fundo e suspirar.

Eu devia ter contado que odeio surpresas, pensou Eliza, saindo do banheiro. Minha vida está cheia delas depois que consegui meu poder.

— Finalmente. Estava começando a achar que tinha fugido — disse Bianca, com um sorriso, quando Eliza terminou de tomar banho.

— Foi mal — disse ela, olhando para baixo. — Gosto de demorar no banho… clareia a mente.

— Não reclamei. Agora, sente aqui. — Bianca deu um tapinha na cadeira em frente a cômoda com maquiagem.

Depois de um dia todo com ela, Eliza desistira de suspirar e simplesmente sentou na cadeira.

— Vai finalmente me contar o motivo disso tudo?

— Pensei que fosse mais esperta. Já deveria ter entendido que vamos a uma festa. Tudo isso é só para eu poder mostrar toda a beleza dentro de você e me gabar pro mundo. — Bianca riu.

Eliza não mostrou reação enquanto as palavras chegavam a ela.

— Gabar do quê? — perguntou algo, finalmente.

Bianca se inclinou para mais perto dela.

— Que você é toda minha — sussurrou e depois beijou Eliza na bochecha, olhando nos olhos da garota pelo espelho enquanto ria do embaraço dela.

A garota ignorou a provocação da ruiva. Uma festa… Ela riu. Não parece nada mal, pensou, deixando Bianca cuidar do seu cabelo como bem quisesse…

Eliza tentou dizer algo enquanto seus olhos percorriam o recinto. Não precisava ser esperto ou sarcástico, apenas algo para mostrar um pouco da confusão que a garota sentia na hora. Mas ela estava muda.

Ao seu lado, Bianca se esforçava para conter o riso, contudo, enquanto a garota pressionava os lábios, Eliza entendeu que era quase impossível para a ruiva.

— Pode rir — disse Eliza, envergonhada pela expressão da ruiva. Estava começando a chamar atenção. Ou quem sabe ela só se destaque demais. Ela olhou o recinto mais uma vez. Algumas pessoas, homens, mulheres jovens e velhos, olhavam para elas e então sussurravam algo para as pessoas a sua volta. Alguns simplesmente olhavam para Bianca como se fosse a garota mais bonita lá. Eliza até viu alguns garotos se empurrando, como se tentassem reunir coragem para falar com a ruiva. É… ela simplesmente chama atenção, pensou, suspirando.

Seu suspiro cansado foi demais para Bianca.

— Você não ia acreditar no rosto que fez. Foi tão engraçado — disse a ruiva e depois riu. — É como se nunca tivesse ido pra uma festa — adicionou ao parar de rir.

— Já fui em algumas, mas depois de ver isso, tenho bastante certeza de que nossas definições de festa são totalmente diferentes.

Eliza olhou a sala mais uma vez. As festas com a qual estava acostumava não tinha um banquete, ou banda apresentando ao vivo. As pessoas não usavam vestidos, smokings, ternos ou qualquer jóia de luxo. O máximo eram alguns músicos tocarem violão enquanto os outros cantavam junto. Usavam jeans, saias e shorts, indo de blusas a camisas. A maior parte das joias eram brincos. Eram apenas amigos se reunindo para conversar e, quem sabe, dançar.

— Isso tá pro Óscar — murmurou.

— Pode ser difícil de acreditar, mas entendo como se sente. É um exagero pra nossa cidade. Porém acho que é esperado, dado nosso novo prefeito — riu Bianca.

— Diz a menina que contratou uma limusine para nos trazer aqui…

— Foi porque meu pai me obrigou, já que é perigoso… Sério… acredite em mim… para de me olhar com essa cara — adicionou Bianca, com pressa, sob a expressão duvidosa de Eliza.

Eliza riu.

— Tá bom — disse. — Mas, de qualquer jeito. Que tipo de festa é essa? Você disse que não era um aniversário, nem uma celebração.

— É uma festa de propina — disse Bianca, sem interesse.

Eliza esperou, mas a ruiva não parecia disposta a falar mais.

— Como assim?

— É o que eu disse, infelizmente. Reconhece alguns dos convidados? — Bianca suspirou.

A garota olhou em volta outra vez.

— Acho que reconheço uns rostos, mas não lembro de onde…

— Mas deveria. Todos os vereadores da cidade estão aqui.

Ah, agora que você mencionou, pensou Eliza.

— Então, por que é uma festa de propina?

— Porque nosso novo prefeito quer aprovar o novo orçamento, mas tem certa resistência…

— Daí isso aqui é pra convencer eles. — Eliza completou a frase da ruiva.

— É, mas isso não é importante. — Sinto que é bem importante, pensou Eliza enquanto os olhos da ruiva davam a volta no recinto. — Então aquele é o seu ex-namorado, hum?

— Você ainda tá nessa… — Eliza também olhou para ele.

Após Bianca cumprimentar alguns e introduzir Eliza, Bruno veio falar com elas. Embora não houvesse necessidade, a garota introduziu seu ex-namorado para a ruiva, quem, por algum motivo, ficara mais formal.

— O que tem ele?

— Sei lá. Pensei que teria algo a dizer pra ele depois de tanto tempo — disse a ruiva, enrolando uma madeixa de cabelo com um dedo, sem nunca olhar nos olhos de Eliza.

— Esperava que eu fizesse o quê? Ele terminou comigo depois daquela overdose…

— Isso é tudo?

— Fico alegre que ele esteja feliz… especialmente depois de tudo que aconteceu. — Bianca pigarreou alto. — Que foi?

— Nada. Só não pensei que caras mais velhos fossem seu tipo…

— Mais velho? Deixa de besteira. Ele é só um ano mais velho.

— E muito popular. Todos parecem conhecê-lo. Acho que ter um pai famoso ajuda.

— Escutar isso da sua boca é meio… — Eliza riu quando Bianca mordeu o lábio e deixou os ombros caírem como sinal de derrota. — Mas não é só o pai dele. Ele também é esforçado e um cara legal. Foi um dos poucos que tiraram 1000 na redação do Enem. — Antes que notasse, havia um sorriso nos lábios da garota.

— Que partido — murmurou Bianca, cruzando os braços. — Parece que sente saudades dele…

— Seria mentira dizer que não.

— Ei… você quer voltar com ele?

— Por que você se importa?

— Por favor — sussurrou Bianca, olhando nos olhos de Eliza. — Me diga.

Eliza notou que a ruiva pressionava os lábios e prendia a respiração. Após um momento de silêncio, Bianca engoliu em seco. A garota respirou fundo e pensou no ex-namorado.

— Sendo franca, já pensei nisso sim. Tipo, antes de tudo dar ruim, éramos felizes. Eu… Eu estava apaixonado por ele. — Eliza corou com o que dissera. Bianca parecia ter algo a dizer, mas continuou quieta. — Eu estava na pior quando ele terminou comigo. Quando estava na reabilitação, ele veio visitar algumas vezes. Conversamos bastante, mas nunca sobre voltamos.

— Mas você quer… não quer?

— Não sei. Ele foi uma grande parte da minha vida… — Bianca desviou o olhar, mas Eliza jurava que viu os olhos da ruiva lacrimejarem. — Mas não acho que quero voltar — adicionou, lentamente.

Bianca olhou para ela com um repentino interesse.

— Mesmo? Tem certeza?

Eliza riu. Prefiro essa Bianca que fica feliz de uma hora pra outra feito criança, pensou, mas não disse.

— É. Ele foi uma grande parte da minha vida… mas foi, no passado. Não sou a mesma pessoa de antes. Não só meus olhos, mas… — Ela olhou para a ruiva e a sua voz sumiu.

— Estou feliz quanto a isso. Caso contrário, talvez nunca tivéssemos a chance de nos conhecer. — Bianca sorriu.

— Tá. Que seja — disse ela, corando e desviando o olhar. — Mudando de assunto. Quando chegamos aqui, você disse que a festa não era a surpresa.

— Ah, sim. — Bianca abriu a boca e arregalou os olhos um pouco. Então um sorriso malicioso apareceu em seus lábios. — Provavelmente vai começar logo.

— Ainda não vai me contar o que é?

— Ei, você sabe jogar pôquer?

— Sei…

— Ótimo. Então será interessante, com sua habilidade única…

Eliza abriu a boca, mas só suspirou, sorrindo. Não posso dizer que não será…

Nunca na vida, nem nos sonhos mais loucos, Eliza imaginara que acabaria jogando pôquer contra o prefeito em uma festa da alta sociedade. Muito menos que teria chance de ganhar mais dinheiro do que já vira na vida.

Todos no recinto assistiram enquanto a garota desconhecida que a filha do chefe de polícia introduzira a eles olhava entre as suas cartas e o prefeito. Todos tentaram ficar o mais quieto que puderam; as conversas cessaram; os sons de bebidas pararam. Todos pareciam prender a respiração em união. Mas, em vez de um silêncio desconfortável, tensão e excitação preenchiam a sala.

O jogo começara com doze pessoas, incluindo Bianca e Eliza. Mas após muitas mãos e turnos, só restavam Eliza e o prefeito. Até a ruiva caíra fora após vencer e perder algumas vezes.

Eliza respirou fundo enquanto olhava o prefeito. A pilha de fichas perante seus olhos parecia tentadora, mas a garota sabia o melhor a se fazer. O prefeito apostara tudo e empurrara todas suas fichas em uma pilha no centro, mas ele não era tolo de blefar naquela hora. Ao menos é o que posso dizer pelo jogo, pensou ela.

A garota perdera a conta de quantas vezes fizera o mesmo, mas aquilo não a impediu de prender a respiração e se focar na mão do prefeito. De sua posição e da forma como segurava as cartas, Eliza só podia ver três da mão dele. Um sete, um oito e um nove. Todas do mesmo naipe…

Eliza virou os olhos para suas próprias cartas, os quatro dez do baralho e um dois de espada. Se ele tiver um cinco e um seis de coração, eu perco. Porcaria… se ele movesse a mão só um pouco, daria pra ver se tem um straight flush ou não!

Poucos segundos se passaram desde que o prefeito apostara tudo, mas, para ela, parecia uma eternidade. Embora sua respiração estivesse calma e lenta, Eliza suava. Mas ela nunca moveu suas mãos para limpar a testa.

O prefeito é um jogador dos bons. Tenta não se arriscar, mas quando vê a chance do prêmio principal, começa ir com tudo, Eliza escutou as palavras de Bianca novamente. Ainda que tenha me dito isso, não posso dizer se ele está se arriscando ou não agora.

Mas preciso escolher. Apostar ou não apostar.

Com o coração batendo feito doido, Eliza empurrou sua pilha para o centro.

O tempo e ar pareceram parar para a garota enquanto o prefeito abaixava suas cartas na mesa.

Quando ela viu o dois e quarto de corações que ele tinha, Eliza quase riu alto. Contendo a vontade, seu coração acelerou quando mostrou sua mão.

A sala ficou paralisada e depois uma explosão de aplausos e torcidas de felicidade se sucedeu. Bianca correu para abraça-la, rindo mais alto que todos.

O prefeito deixou os ombros caírem por um instante, mas logo ergueu a cabeça com um sorriso.

— Você é a primeira a me derrotar em tempos — disse, com um tom cordial. — Estou impressionado. Espero que vê-la no próximo jogo.

Os momentos seguintes foram como um sonho para Eliza. Após muitos parabéns, convites para outros jogos, perguntas sobre ela e sua família, Bianca conseguiu afastá-la dos outros. Quando se deu conta, estava de volta na limusine com a ruiva ao seu lado.

— Foi muito mais incrível do que imaginei! — disse Bianca.

— Meu coração tava batendo feito doido até agora! — Eliza finalmente pareceu despertar do sonho.

— O meu também! Quase ri quando ele apostou tudo! E você colaborou fingindo considerar!

— Eu não fingi — confessou Eliza, ainda sorrindo. — Não deu pra ver as cartas dele.

— Quê? Então você apostou tudo sem saber se ia vencer?

— É. Mesmo com os poderes, não sou nenhum ser onisciente.

Por um instante, Eliza pensou que Bianca ficaria brava. Eu apostei todo o dinheiro dela, pensou, sentindo-se bastante culpada por não considerar aquilo na hora.

Mas no instante seguinte, Bianca riu muito.

— Você é mais incrível do que pensei!

Eliza não conteve um sorriso próprio. Mas, após a risada acabar, a culpa encheu a garota.

— Aqui — disse, empurrando quase todo o dinheiro para Bianca.

De repente, Bianca ficou séria.

— O que é isso?

— O dinheiro da entrada, do vestido e do resto todo.

Bianca só pegou uma parte dele, contando as notas até chegar em mil. Depois ela devolveu tudo de volta pra Eliza.

— Eu disse que era um presente de aniversário pra você — disse Bianca, tentando mudar de assunto. — Só queria que tivéssemos nos encontrado antes. Teria adorado celebrar seu aniversário com você.

— Meu aniversário foi há dois meses. E isso tudo não é um presente normal.

— Você não é exatamente normal. — Bianca virou-se para ela e se aproximou, olhando Eliza nos olhos. — Você é especial.

Eliza tentou dizer algo, mas a ruiva a pegou desprevenida. Seus olhos são muito lindos, a ideia veio a ela antes que evitasse.

— Você só está mudando de assunto.

— Descobriu? — riu Bianca. — Mas falo sério. Presentes são presentes.

— Todo esse dinheiro…

— O dinheiro é meu, gasto como eu quiser — disse Bianca, empurrando o dinheiro pra Eliza.

— Seu…?

— É. Não contei? Desde que fiz dezoito, estive ganhando meu próprio dinheiro — disse Bianca. — Só para poder gastar como bem entender sem ninguém falando merda pra mim.

Eliza abriu a boca, mas só pôde rir. É bem a cara dela, pensou e então olhou para a pilha de dinheiro em seu colo. Deve ter mais de dez mil aqui… Não tenho ideia do que faria com esse tanto. Tirando a ideia de reembolsar Bianca, de repente, Eliza se sentiu culpada pela forma como venceu.

No começo, ela foi muito contra usar seus poderes no jogo. Mas, conforme pensou no momento, e mais tarde a ruiva dissera o mesmo, seus poderes eram parte dela. A parte sobrenatural, mas ainda sou eu. Mas agora que penso nisso, não foi certo usar meus olhos…

— Ei, já sei no que está pensando — disse Bianca, olhando Eliza nos olhos. Não havia sorriso em seus lábios agora. — Se estiver se sentindo culpada quanto ao dinheiro, use-o em prol de outra pessoa.

— Tipo quem? Você?

— Seus pais — sussurrou ela.

Eliza arregalou os olhos. Não passara por sua mente. Se usar isso, posso pagar o empréstimo que fizemos pra reabilitação… a mãe e o pai não precisarão fazer hora extra mais. A ideia fez sua culpa desaparecer. De fato, trouxe até um sorriso a seu rosto. Não será como antes, mas quem sabe aqueles dias antes de tudo começar possam voltar.

— É uma boa ideia, Bianca. Obrigada — disse Eliza, sorrindo. A ruiva corou e desviou o olhar. A garota riu com a reação, mas, de repente, parou quando se lembrou de algo. — Ei, pode dizer por que se sentou na minha frente?

— Não é óbvio? Para que não conseguisse usar seus poderes contra mim. Eu também queria vencer, sabia? Mas hoje não foi meu dia de sorte — disse Bianca, estufando as bochechas. Eliza riu de novo. Que fofo. — Ao menos foi o seu dia. Você venceu. Não de forma justa, mas ainda vale.

— Foi desconfortável sentar entre aquele cara e aquela mulher. Toda vez que podiam, eles começavam a flertar. Havia tanta tensão sexual entre eles que fiquei surpresa dos dois simplesmente não irem para o banheiro transar.

— Realmente. Pensei que eles começariam a esfregar virilhas com você ali no meio.

Eliza riu antes que percebesse.

— Não posso acreditar que estou ouvindo isso de você. Você é realmente diferente da sua fama.

Bianca inclinou a cabeça.

— Não vejo nada de errado com isso.

— Nem eu — disse Eliza, sorrindo. — É divertido sair com você.

Bianca sorriu e pulou de seu assento para abraçar Eliza.

— Então vamos continuar saindo!

Eliza riu.

— É, sem problema.

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