[PT] Sem Glória 2

Parei de jogar Zelda para postar esse capítulo.

É o segundo da minha outra história nova desse primeiro semestre. Espero que gostem.

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— Você tá entrando baixo demais, Samuel — disse o mestre. — Quantas vezes preciso repetir? Não é porque seu oponente é mais baixo que seus socos tem que ser fracos.

— Sim, mestre — disse Sam. Ele perdeu a conta de quantas vezes dissera aquilo só hoje.

— Mostre pra ele como se faz, Thiago.

— Sim, mestre — respondeu seu amigo e caminhou até ele.

Sam cerrou os maxilares quando viu o sorriso de deboche nos lábios de Thiago. Ele balançou a cabeça e levantou as mãos, em posição de guarda.

Mas não fez diferença. Mesmo com luvas, Thiago era rápido demais para ele. No momento em que o professor mandou começar, o soco de Thiago virou um borrão, perfurou a defesa com facilidade e acertou o queixo dele. O golpe deixou Sam tonto, mesmo usando o capacete protetor, enquanto ele caia no tatame.

Ainda piscando, demorou um pouco para a sala parar de girar. Quando os olhos voltaram ao normal, Sam tirou as luvas e pegou o braço oferecido pelo amigo.

— Você é forte demais — disse.

— É, eu sei — disse Thiago, levantando-o. — Mas o fato de que você não gosta de bater nos outros ajuda.

— Sinto muito não ser um bruto.

Thiago riu.

— Não faço ideia do porquê você decidiu treinar Muay Thai do nada. Se realmente quer lutar MMA, melhor ficar no Jujutsu. Você é melhor agarrando caras sem camisa, de qualquer forma.

— Não fale de forma que pareça gay. — Sam deu um soco no ombro do amigo. — E você só está falando isso porque é péssimo no negócio.

— Prefiro atingir meus oponentes a ir pro chão com eles — disse Thiago, devolvendo o soco.

Eles enfileiram com o resto dos alunos. Cumprimentaram o professor, agradeceram pela aula e seguiram em direção ao vestiário.

— Ô, Sam. — A voz de Thiago chegou até ele através da partição dividindo os chuveiros. — Você ainda não falou pra sua mãe e pra Mirela que quer lutar profissionalmente, né?

Sam manteve os olhos fechados enquanto lavava o cabelo.

— Eu tento toda vez que começam a falar de faculdade e pá, mas… é complicado dizer.

— Sei como é… Não dá pra imaginar elas te apoiando — disse Thiago. — Falando sério, eu imagino a sua mãe chorando e indo pra igreja rezar pra você não seguir esse caminho.

Sam deu um riso fraco. Imaginara o mesmo.

— E a Mirela vai ficar uma fera.

— Tais ferrado de qualquer jeito. Boa sorte. — Mesmo pela parede de madeira, Sam sabia que o amigo tinha um sorriso no rosto.

— É, valeu pelo apoio. Realmente preciso.

— Sempre a disposição.

— Não sei o que eu faria sem você.

— Provavelmente ia se agarrar com uns caras sem camisa até chão.

Eles terminaram de se trocar e caminhavam para o ponto de ônibus.

— Quer comer onde? — perguntou Sam.

Thiago fechou os olhos e cruzou os braços.

— Sua mãe que cozinha hoje, né? Vamos comer lá na tua casa.

— Você só quer almoço grátis — disse Sam, depois riu.

— Quero mesmo é a comida da tua mãe…

Embora sua boca ainda se movesse, Thiago ficou mudo para Sam.

Durou apenas um piscar de olhos, mas Sam viu um pilar de luz no canto dos olhos. Uma explosão se seguiu, tão alta que fez o corpo todo tremer. Enquanto se virara para o som, Sam voou para trás com a onda de choque.

O céu virou o chão e o chão virou o céu. Depois se inverteram. E de novo. E de novo. Sam sentia tudo sumindo e fechou os olhos. Não fazia diferença. Mesmo sem ver, ele ainda sentia o mundo girar.

Sam acertou algo, ou alguém, ele não conseguia dizer, e então parou de voar. Tentou abrir seus olhos, mas o mundo não tinha parado de rodar. Ele tentou ficar de pé, mas não tinha controle sobre seu corpo dormente. Sem forças dentro de si, ele ficou lá, onde quer que estivesse.

— Sam… Sam… — Ouviu alguém chamá-lo de algum lugar distante, por cima do zumbido em seus ouvidos. Ei… Conheço essa voz, pensou, com a mente confusa. Sam sentiu algo contra o peito.

— Ainda está vivo — disse outra voz, ecoando perto de seu coração.

Usando toda concentração que tinha, Sam forçou os olhos a abrirem. O mundo parecia tão brilhante que o fez estremecer.

— Sam! — Ele viu Thiago e uma mulher que não conhecia ajoelhada perto dele

— Melhor não se mover — disse a mulher quando Sam tentou se levantar. — Você pode ter quebrado algum osso.

Sam fechou os olhos, concentrando-se. Apesar da dor, a dormência e a ânsia de vômito, nada parecia quebrado. Ele tentou sentar primeiro.

— Acho que estou bem — disse, com a voz rouca.

A mulher parecia preocupada, mas gritaram por ajuda e ela se levantou e correu até outra pessoa.

— Cara, tá tudo bem mesmo?

— Não morri — Sam disse, tirando uma risada de Thiago.

— Se consegue fazer essas piadas bestas, deve estar bem. Aliás, eu estou ok.

— Que bom. Eu já ia perguntar. — Sam olhou em volta e viu uma cortina de fumaça que vinha do parque no final da rua. — Fiquei inconsciente por quanto tempo?

— Pouco. Alguns minutos. — Thiago suspirou, aliviado. — Disseram que foi vazamento de gás — adicionou, quando viu que Sam olhava a fumaça.

— Gás? — A dor repentina fez Sam segurar a cabeça. — E aquela luz?

— Luz? Tá falando do quê? Bateu com a cabe…

Outra explosão interrompeu Thiago.

Sam cobriu os olhos por reflexo.

— Outra? — Escutou a voz de Thiago, seguida de uma tossida.

Quando a onda de choque passou, Sam agarrou o braço de Thiago e, com a ajuda do amigo, levantou. Seus olhos ardiam, as orelhas zumbiam e a garganta doía. Ele piscou até conseguir ver, mas a fumaça cobria a área.

O que… é aquilo… Sam não conseguia acreditar em seus olhos. No meio da fumaça, conseguia ver duas sombras embaçadas. Ele piscou, duvidando de sua visão. Mas assim que a fumaça se dissipou, pôde confirmar. Duas pessoas saíam da explosão. — Quem são eles?

— Hã? Que foi?

Ele… não pode vê-los, percebeu Sam, olhando para o rosto confuso do amigo. Por um instante, pensou que fosse uma das piadinhas babacas de Thiago. Mas ele não faria isso nesta situação. Olhou os arredores. Deveria ser impossível ignorar os dois homens caminhando pela rua, trajados em armaduras medievais. Mas ninguém parecia prestar atenção a eles.

O homem alto disse algo que Sam não pôde ouvir. O baixo assentiu e fechou os olhos.

Sam reconheceu. Ele está se concentrando… O medo percorreu todo seu corpo na mesma hora. Tenho um mau pressentimento quanto a isso.

— Vamos sair daqui — disse, tentando puxar Thiago junto. — Agora!

— Por quê? — No momento que Thiago terminou de falar, o homem baixo abriu os olhos e ergueu o braço.

Durou apenas um segundo, mas uma luz saiu do braço, atingindo as pessoas por perto. Por um instante, nada aconteceu… Então, seus corpos se partiram na cintura. Antes que alguém notasse o que aconteceu, a luz atravessou o prédio e ele despencou.

Sam puxou Thiago enquanto os detritos caiam neles. Ele ajudou seu amigo a levantar, depois olhou para a causa daquilo tudo. Alto olhou em volta, observando a cena com olhos vazios… até encontrar com os de Sam. O rosto ficou tenso e ele colocou uma mão no ombro do Baixo. O outro parou de balançar seu braço e também olhou para Sam, o rosto se animou com um sorriso.

A respiração de Sam ficou lenta e pesada. O corpo tremeu. Suor descia por sua testa e costas. Cada fibra de seu ser gritava, mandando-o fugir, mas nenhuma parte dele obedeceu. Estão atrás de mim… Sam entendeu com só um olhar.

— Corre! — gritou Thiago e puxou Sam.

No segundo seguinte, um pilar caiu no local em que estavam agora pouco. O barulho despertou Sam. Ele olhou para os dois homens e correu para a outra direção.

Thiago correu ao seu lado. Ele virou a cabeça para trás. Os dois vultos caminhavam, mas ele sabia que estavam atrás dele. Baixo levantou o braço de novo.

Ele agarrou seu amigo pela mão e o puxou para a outra rua. No instante seguinte, Sam sentiu uma onda de choque passando atrás de si, destruindo tudo em seu caminho.

— Que merda é essa? — Thiago parou para olhar a rachadura de dois metros feita no concreto. — A explosão chegou até aqui? — perguntou, mas Sam o puxou de novo, empurrando as pessoas que paravam para ver as casas desabando.

Quem são eles? Por que estão fazendo isso? Quis saber Sam, correndo pelo labirinto de ruelas, esperando despistá-los. Mas não havia tempo para parar. Apenas tinha certeza de uma coisa: estão atrás de mim… Espero que a Mirela esteja bem. De repente, ele sentiu um calafrio. Ela tinha cursinho hoje… não é?

— O que porra foi isso? Outra explosão de gás? — perguntou Thiago quando pararam para respirar. Ele pegou o celular. — Merda, sem sinal…

Sam olhou para seu amigo.

— Thiago, vá pra casa. Veja se teus pais estão bem. Eu… Eu também vou checar lá em casa — mentiu.

Thiago abriu a boca… e depois a fechou, assentindo com a cabeça. No instante seguinte, seu amigo se fora. Espero que todos estejam bem, pensou, virando a cabeça para onde eles vieram. Ele suspirou, aliviado. Parte de si esperava vê-los. Preciso ir o mais longe possível de casa… Se me seguirem até lá…

— Samuel! — Alguém gritou e então uma mão o agarrou. — Samuel! — Levou um instante, mas ele reconheceu o rosto.

— Padre Nate?

— Graças ao Senhor você está bem — disse. O padre estava encharcado de suor, seu rosto vermelho e só respirar parecia complicado para ele. — Estive… procurando… por você. — Ele respirou fundo. — Você… viu a causa… da explosão?

Sam arregalou os olhos e agarrou o braço do padre.

— Você também viu eles? Sabe quem são?

— Sim. Vi, mas não sei quem são — disse, olhando o arredor. — E sei que estão atrás de você.

— Como? Sabe por que estão atrás de mim?

— Não sei o porquê — disse. — E não há tempo para explicar tudo.

— Porque? — Sam agarrou o colarinho do padre e o encarou nos olhos. — O que está acontecendo?

— Eu… não sei… Mas você pode pará-los… — Padre Nate pegou o Santo Cálice. Ele fechou os olhos e mordeu os lábios. As mãos tremiam, mas o líquido vermelho dentro nunca ondulou. — Se… se você beber este… sangue… você pode lutar contra eles…

Sam olhou o sangue, a superfície ainda parada. Sua respiração ficou lenta e a mente parou de raciocinar conforme as palavras ecoavam em sua mente.

— Quê? — Sam balançou a cabeça e olhou do sangue para o rosto do padre. — O que você está falando? Ficou louco?

O Padre Nate fechou os olhos e passou uma mão pelo rosto sofrido. Quando os abriu, não havia nada neles.

— Provavelmente… mas depois de tudo, se pudesse ficar são, isso sim seria loucura. Mas sei que você é o único que pode enfrentá-los.

— É uma dessas loucuras de religião? Por que eu deveria beber isso?

— Para salvar sua família — disse o sacerdote, com o rosto sério, apesar da dor. — Se eles não puderem encontrá-lo, irão atrás de sua família.

Sam não ouviu nada mais. Ele olhou em volta e correu para casa, a mente só pensava em seus pais. Ele olhou em volta. Sabia onde estava, mas, ao mesmo tempo, não se lembrava do caminho para casa.

Ele correu sem destino, mas antes que notasse, suas pernas o trouxeram para casa. Ele abriu a porta com força e chamou os pais aos berros.

— Mãe, pai! — O coração saltou de alívio quando os viu na sala de estar. Eles assistiam às notícias com preocupação estampada nos rostos.

— Alex! — Uma voz gritou atrás dele.

Sam se virou e quase chorou quando viu a namorada.

— Graças a Deus você está bem — disse ela, correndo até ele.

Mas antes que pudesse alcançá-la, uma lâmina de luz a atravessou. Aconteceu só por um instante, mas para Sam, tudo se moveu em câmera lenta. Mirela estendeu a mão, mas seu braço caiu, seguido pelo tronco.

Um segundo depois, a casa caiu em cima deles. Ele cobriu a cabeça enquanto o telhado caia acima de sua cabeça. Quando o mundo parou de cair, ele empurrou os detritos até ficar livre.

— Mirela! Mirela! — gritou, mas não houve resposta. Ele se virou. Os pais não estavam em lugar algum. — Mãe! Pai!

Uma sombra pairou sobre ele. Sam olhou para cima e viu que era o homem baixo, com um sorriso. Ele levantou o braço, mas antes que pudesse abaixá-lo, algo empurrou Sam.

— Corra! — Levou um momento até que percebesse que foi o padre.

A lâmina de luz cortou o lugar onde ele estava um segundo atrás, e depois a casa explodiu em chamas antes que Sam pudesse dizer qualquer coisa.

A cabeça estava dormente. Ele olhou para os restos da casa. Com a mente em branco, Sam caminhou para as chamas, estendendo o braço.

O Padre Nate o segurou.

— Estão mortos — disse, as lágrimas caiam por seu rosto.

Sam olhou para as chamas e então para o padre. A dormência espalhou-se por sua mente e alma.

— Me dê — disse ele, com a voz seca, olhando para as chamas com olhos vazios.

O padre entendeu imediatamente.

— Você vai morrer — disse, tirando o Cálice da bolsa.

Sam pegou o Cálice e olhou para o líquido. Mesmo após tudo, nenhuma gota tinha derramado. Sua respiração diminuiu de ritmo e ficou estável. A mente ainda estava vazia quando levou o Cálice até a boca e o virou, derramando o sangue em seu rosto e descendo pela garganta.

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