Nova história (outra)

Bom domingo a todos. Pelo menos para mim está sendo. Como sabem, domingo é dia de postar, e hoje trago uma nova história. Essa é um pouco mais sombria do que escrevo, mas gostei muito e espero que gostem também.

Sem Glória Para Você

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Seu rosto o assombrava. Não, na verdade, o seu velho rosto. Não era dele. Não mais. Agora pertencia a uma vida diferente. Pertencia a um estranho. Um estranho que o assombrava em todo lugar. Mas isso não o incomodava. Embora fizessem apenas poucos dias desde que perdera sua velha vida, ele já se resignara a tal destino. Ainda que ver seu rosto não o incomodasse, as pessoas ignorantes o xingando e culpando fazia o sangue dentro de si ferver.

Ele fechou os olhos e escutou a TV enquanto bebia. Era um raro momento de paz nos últimos dias; a partida quase acabara e seu time vencia, a bebida gelada ficou ótima dentro do bar aquecido. Mas, quando o juiz apontou para o meio do campo e o noticiário começou, sua paz foi embora como se nunca tivesse estado lá.

As primeiras notícias da noite mostraram seu velho rosto. Não foi a foto que o deixou com raiva—era uma das melhores fotos já tiradas dele—mas a palavra procurado abaixo dela, junto a seu nome, fez toda a dor voltar.

Ele não precisava ouvir mais a TV. Sem prestar atenção, já sabia o assunto. “Samuel Alexandre da Silva ainda está à solta…”, “A polícia está oferecendo…” ou “Culpado pelas mortes de milhares…” e mais coisas do gênero.

— Filho da puta!

— O desgraçado merece morrer!

Os gritos que ecoaram pelo bar sobrepuseram o apresentador do jornal. Sam não tinha certeza se deveria ficar feliz ou bravo por causa disso.

Hora de dar no pé, compreendeu assim que outras pessoas se juntaram à conversa e uma pequena multidão se formou perto da TV. Sam foi lá apenas para ver seu time e esquecer dos problemas por algumas horas. Merda… Eu jurava que este bar não tinha tanta gente. Mas já que a destruição ainda afetava boa parte da cidade e a eletricidade não voltou a muitos bairros, qualquer bar aberto em dia de jogo teria clientes.

Foi burrice minha. É claro que todo mundo ia ter a mesma ideia, ele pensou, entregando o dinheiro para a garçonete mais próxima antes de ir embora. Ninguém prestou atenção nele quando o mesmo abriu a porta. Por que prestariam?

Sam olhou para a TV. Ele quase não parecia mais com a foto; não apenas perdera boa parte do cabelo, como também perdera a cor. A pele não era a mesma da imagem e não tinha cicatrizes para completar. Com o capuz cobrindo metade do rosto, seria difícil reconhecê-lo. Só se alguém me olhasse bem nos olhos conseguiria.

Ainda que não fosse necessário e não fizesse qualquer diferença real, Sam puxou o capuz para si. O simples ato fez sua respiração e batimento cardíaco diminuir. Sam fechou os olhos e sentiu a brisa no rosto.

Mal dera dez passos para fora do bar quando sentiu algo afiado contra suas costas.

— Parado —alguém sussurrou e empurrou Sam para um beco próximo com a mão livre. — Passa tudo.

Sou um belo de um idiota, pensou Sam, segurando a vontade de pressionar as têmporas. Antes de tudo começar, a cidade já não era segura o bastante para se andar sozinho de noite, mas agora ficou ainda pior. Assaltos se tornaram a principal fonte de renda de muitos, especialmente os que perderam tudo. Ele tinha visto durante sua procura, mas Sam nunca imaginou que aconteceria consigo. Um bar lotado obviamente atrairia essa gente.

Com o resto do corpo parado, Sam moveu a mão até o bolso, devagar, procurando pela carteira surrada. O ladrão pegou assim que ela ficou visível, abrindo-a e tirando o dinheiro.

Ele vai ficar bravo, pensou Sam, tentando conter o sorriso e pensando no que deveria fazer quando sua previsão se tornasse real. Duvido que esse dinheiro o satisfaça…

— Só isso? — bradou o bandido enquanto olhava a única nota de vinte reais.

Como suspeitei desde o princípio, pensou, sorrindo. Ainda segurando a faca contra suas costas, o ladrão jogou a carteira no chão e vasculhou os outros bolsos. Se quiser um celular, tenho más notícias pra você. O meu foi destruído e não tenho motivo pra comprar um novo. Não pra que… não depois de tudo… O pensamento fez o sorriso em seus lábios desaparecer.

Só havia uma coisa que Sam valorizava e quando as mãos do ladrão se fecharam naquilo, ele arregalou os olhos. Sua respiração ficou irregular e rápida e ele teve dificuldade em controlar o impulso de matar o ladrão. Merda! Merda! Não vou matá-lo… Ainda sou humano… Ainda sou humano!

— Que merda é essa? — O ladrão olhou para a pequena pedra vermelha em suas mãos, virando-a.

— Não… toque… — Sam conseguiu falar, o outro sangue dentro de si fervia. Droga! Estou perdendo a consciência…

Com uma mão na cabeça, Sam se virou antes que o ladrão pudesse fazer qualquer coisa. Ele só queria segurar o pulso do meliante, mas usou força demais e sentiu os ossos quebrarem por debaixo de seus dedos. Porra! Esqueci de controlar, pensou, soltando, metade de sua visão tingida de vermelho.

O assaltante gritou e caiu no chão, segurando seu pulso quebrado. Ele levantou a cabeça para encarar Sam, olhos cheios de raiva e dor. Mas então, após um instante, a raiva se foi e só restou horror.

— O monstro! — Ainda no chão, ele recuou, gritando e apontando com a mão boa.

Merda, Sam pensou quando percebeu que seu capuz caíra, expondo o rosto. Ele puxou o capuz de volta, mas antes que pudesse pegar a pedra, a porta do bar se abriu. Todos correram para fora e se reuniram no beco.

A multidão olhou para ele e depois para o assaltante. O ladrão apontou para Sam e, aos poucos, as pessoas entenderam quem ele era, o horror preenchendo os rostos. Foi só por um instante, mas a hesitação delas foi o bastante para Sam fugir.

Ele conhecia a cidade. Ele cresceu naquelas ruas. Sabia onde estava e para onde o beco dava. Graças a isso, não precisou pensar muito para escolher as rotas de fuga que chegavam a sua mente. Estava mais ocupado tentando acalmar seu sangue. Sou humano… Ainda sou humano, disse para si de novo e de novo enquanto virava nas esquinas.

Mas a cidade que conhecia desapareceu. A destruição mudou a cidade e ele desconhecia os novos caminhos. Os restos do supermercado que sua mãe ia todo domingo bloqueavam a rua que levava a outra ruela estreita, o melhor caminho. E antes que pudesse pensar em outra rota, pôde ouvir a multidão correndo atrás de si, os gritos alcançaram seus ouvidos. No instante seguinte, o caminho estava bloqueado.

— Monstro…

— Por sua causa… por sua causa, minha filha morreu!

— E a minha esposa!

Ele não deu o trabalho de olhar os que falavam. Eram todos uma massa sem rosto para ele. Sam manteve a boca fechada, suprimindo a vontade de retrucar. Vou falar o quê? Que salvei vocês… salvei esta cidade… e todas as vidinhas de merda deles, pensou ele, as narinas dilatando. Perdi meu olho, metade do meu rosto… o lugar a qual pertencia… tudo… e é assim que me agradecem?

— Sam… então é verdade… você realmente é o monstro…

A única voz familiar o fez olhar. Primeiro, ele não sentiu nada enquanto olhava para seu melhor amigo, mas quando Sam viu os olhos de Thiago, a raiva o preencheu. Ele é praticamente um irmão… e agora me olha assim, pensou, sua mão queimando por dentro. Não… Não! Ele agarrou o braço com a outra mão com toda força que tinha. Posso estar me tornando um, mas ainda não virei um monstro! Ainda sou humano, disse para si mesmo enquanto sua visão virava escura agora. Ainda sou humano…

Antes que Sam pudesse se controlar, alguém jogou uma pedra. Mesmo no seu estado, ele desviou sem esforço. O mesmo valeu para a segunda e terceira. Mas conforme a multidão se aproximava e jogava mais pedras, uma hora, Sam foi atingido na cabeça.

Ele respirou fundo para ignorar a dor e sangue, usando metade de sua concentração para considerar suas opções, o resto se esforçava em manter sua mente humana.

O outro sangue queria revidar, queria matar cada um daqueles lixos ingratos. Só pensar nisso fazia seu braço tremer. Sam precisou fechar o punho para impedir que a mão se transformasse. Não é a melhor escolha, pensou, recuando. A polícia chegará a qualquer segundo e não posso ser perseguido a noite toda. Ainda preciso…

— Samuel… é verdade então… você se tornou um pecador. — Outra voz familiar chegou a ele. O padre da igreja que sua mãe o forçava a frequentar quase todo domingo olhava para ele, os olhos não demonstravam emoção alguma.

Pecador, hã? Ótima forma de colocar isso, Padre, pensou Sam, uma risada rouca ecoando dentro de si. Ao menos não é uma mentira como a dos outros. O momento em que escolhi beber daquele sangue, me tornei um. Ele fechou e abriu o punho que se transformava. No início, o sangue fervia daquele jeito quando ele queria, quando precisava ou quando perdia o controle de si. Porém, aos poucos, aquilo o dominara, e agora ele mal conseguia controlar o sangue.

Ninguém precisava explicar; Sam sabia que a única forma de parar com aquilo era com sua morte. Se fosse só isso, seria fácil demais. Eu teria acabado com minha vida depois de ter matado eles, pensou. Mas Sam sabia o que acontecia no momento em que seu coração desse as últimas batidas. Ele morreria como humano, mas o sangue tomaria posse e então viveria como uma fera. Se eu pudesse ao menos matar todos os responsáveis por tudo isso, morreria feliz…

É, que nem nos filmes. O herói morre com um sorriso no rosto. Sam sabia que era idiota. Ainda que completasse sua vingança, morreria como um monstro que matou sua própria família e mais milhares, além de destruir a cidade. Não haveria glória para ele. Mas a ideia ao menos o entretinha enquanto a multidão se aproximava. Pelo menos as pedras acabaram.

— A casa do senhor não tem mais suas portas abertas para ti — disse o Pastor Nathan, liderando a multidão.

No momento em que o pastor estava ao alcance, o braço de Sam se tornou um borrão e fechou-se em volta da garganta dele. Sam precisou usar toda sua concentração para impedir que seus dedos perfurassem a carne. Sua respiração ficou irregular e dolorida, mas o plano funcionara.

— Usando o Nate como refém…

— Você vai arder no inferno por isso!

É, será o menor dos meus pecados, pensou ele, mal registrando o que disseram. Usando o padre de escudo, Sam conseguiu escalar as ruínas do supermercado.

— Valeu pela ajuda e desculpe por isso — disse ao Padre enquanto alcançava o topo. Ele jogou Nathan para a multidão, que se apressou para segurá-lo.

Antes que pudesse confirmar o pouso seguro do Padre, Sam correu. Quando estava longe o bastante, puxou o capuz de volta e descansou contra um muro. Respirando fundo, ele conseguiu fazer o sangue esfriar. Enfiou as mãos nos bolsos e fechou os dedos em volta da pedra vermelha.

Preciso de um lugar para me esconder, preciso de um lugar para me esconder… Só conseguia pensar nisso enquanto as sirenes da polícia chegaram a seus ouvidos. Quando notou onde estava, quase riu. Não tem nenhum lugar aqui, logo soube. Sam precisaria ir para outra parte da cidade. Aquela que destruí, disse para si, sentindo nada enquanto pensou nessa palavras.

Você queimará no inferno… Sam ouviu os gritos ecoando em sua mente e de repente soube que precisava ir. Tudo bem, vou acabar lá de qualquer jeito mesmo, mas não vai ser agora.

Sam esperou nas sombras até que o caminho clareasse. Ele perdeu a noção do tempo enquanto observou as pessoas indo e vindo atrás de comida, calor ou qualquer outra forma de ajuda. Quando a última família saiu, Sam esgueirou-se para a igreja, ciente da ironia de suas ações, já que odiava perder suas manhãs de domingo indo para lá quase a vida toda.

Sam caminhou o mais quieto que pôde pelos corredores até encontrar a estante de livros no meio do corredor. É melhor estar certo sobre isso, Padre. Ou vou te mandar na frente para ajeitar as coisas lá embaixo, pensou, empurrando o móvel o bastante para que ele pudesse passar.

A parede atrás da estante era que nem as outras, sem nada de diferente do resto. Respirando pelo nariz e fechando os olhos, Sam empurrou a parede. A raiva desapareceu de si quando a parede se moveu para trás. Ele entrou na sala e puxou a estante de volta escondendo a entrada.

O velho cômodo no segundo andar da igreja fora esquecido. Segundo o Padre, era um quarto secreto usado para proteger revolucionários de séculos atrás. Então virou um depósito por anos até que, após muitas renovações, as pessoas simplesmente esqueceram que estava lá. Melhor para mim, pensou Sam, caminhando entre décadas de poeira e mobília. Apesar da janela mal deixar qualquer luz entrar, ele não considerou ligar o interruptor. Seria um saco se alguém descobrisse que estou aqui.

Depois de caminhar em volta do quarto um pouco, ele descobriu um espaço entre um armário apodrecido e uma parece que era grande o bastante para ele. Como dava de cara para a porta e janela ao mesmo tempo, serviria muito bem.

Sam descansou as costas na parede e fechou os olhos. Ele não dormiu. Depois de tudo, só conseguiu deixar a mente descansar por pouco tempo. As imagens o assombraram, mas agora ele aprendera a ignorá-las por algumas horas. Tudo que precisava era deixar a mente vazia.

No instante em que escutou um som baixo de alguma coisa pesada sendo empurrada, Sam ficou em alerta e abriu os olhos. Alguns segundos depois, alguém bateu na parede.

— Bom dia — disse o Padre Nathan com uma voz tristonha antes de empurrar a passagem de volta. Que nem Sam, Nate puxou a estante de volta a sua posição e empurrou a parede também. O Padre tinha duas sacolas de plástico nas mãos. Sam assentiu a cabeça como cumprimento. — Acredito que não tenha dormido bem.

Apesar de tudo, Sam acabou rindo. Dormir? Eu preferiria não ficar louco, pensou. Sempre que fechava os olhos e deixava a mente vagar, ele podia ouvir as vozes, os gritos, as acusações. Podia sentir o cheio e a sensação do sangue nas mãos, podia reviver a sensação dos ossos quebrando sob seus pés.

— Eu preferiria manter minha mente sã por enquanto — disse, a voz rouca.

O Pastor Nathan abriu a boca para fechá-la logo em seguida, evitando os olhos de Sam.

— Aqui… Trouxe um pouco de comida para você — disse, tirando um pão e uma caixa de leite de uma das sacolas. — Sinto muito se for pouco. Não sobrou nada de ontem. Vieram mais pessoas do que imaginávamos…

— Valeu — disse Sam, aceitando a comida. — E foi mal por te jogar. Eu tinha que fugir, mas estou feliz que ainda esteja.

— Eu também — disse Nate e ambos deram uma risada fraca.

Apesar de não estar com fome, ele deu uma mordida no pão. Faz tempo desde que senti fome, percebeu, um tanto surpreso pelo fato. Ele tentou lembrar-se de quando foi a última vez que sentiu fome. Não conseguia. Sua velha vida, ainda que houvesse sido há menos de uma semana, se tornara mais e mais difícil de lembrar. Após toda a luta e correria, ainda não precisei de comida… Acho que estou menos humano do que imaginei.

— Aqui — disse Sam, quando terminou o pão, jogando a pedra vermelha ao Padre.

Nate a pegou, fechando-a com força na mão. Ele respirou fundo e abriu sua palma, olhando para a pedra, o rosto perdendo o resto de sua cor.

Sam terminara o leite, mas o padre ainda encarava o sangue sólido.

Ele fechou as mãos.

— Agora precisamos…

— Já sei — interrompeu Sam, pressionando os olhos com as mãos. — Carne e osso. Carne e osso. Não precisa repetir. Ainda tenho capacidade mental o bastante para lembrar dessas duas palavras.

O Padre nada disse enquanto Sam descontava a raiva nele.

— Desculpe. Mas apenas…

— Sim, sim. Eu sei. É só que… Tem alguma ideia do quão difícil foi procurar por algo quando todo filho da puta retardado desta cidade atrás da minha cabeça?

— Como está o sangue? Ainda pode controlá-lo? — Nate olhou para Sam.

— Por mais alguns dias. Esse é o meu limite. Eu… Eu posso sentir. — Sam fechou os olhos e descansou a cabeça na parede. — O problema é que… sempre que me aproximo de casa, as vozes gritam na minha cabeça. Quase desmaiei pra conseguir a pedra. É… difícil — disse, fechando os olhos e descansando a cabeça na parede.

O Padre ficou quieto novamente.

— Não posso fazer nada por você. Eu queria poder contribuir mais…

Quando Sam viu a peruca vermelha na mão do padre, ele riu de verdade pela primeira vez no que pareceram séculos.

— Sério? Uma peruca vermelha pra um cara negro? Está tentando chamar mais atenção pra cima de mim? Eu já chamo demais sem isso, valeu. — Ele riu de novo, mas sua voz logo sumiu. Sam olhou para o reflexo em um espelho sujo e empoeirado no canto do cômodo. Até naquela superfície, ele podia dizer; sua pele perdera quase toda a cor e agora era um cinza, morto e pálido.

— Desculpe…

— Não é sua culpa. — Sam agarrou a peruca. Se eu puder esconder meu rosto com isso e o capuz, pode dar certo, pensou. — Vou sair assim que o sol baixar. Ainda não tem eletricidade naquele lado da cidade, né?

— Não. Você… a luta destruiu os postes. Vai levar semanas para colocar tudo de volta. Até com a ajuda da capital. — Sam não sentiu nada enquanto ouviu isso.

— Então posso procurar por Carne e Osso sem pessoas gritando pra cima de mim — disse, com os olhos fechando de novo, aguardando a noite.

O rosto morto o encarou, os olhos pálidos e vazios acusavam-no. Sam não tinha certeza se era apenas sua imaginação ou se a alma de algum morto realmente o encarava.

Enquanto a dormência o dominava, ele se virou. O que está feito está feito. Chorar sobre o leite derramado não vai mudar nada, e não vou ajudar vocês a superarem, pensou. Seus olhos procuraram pela destruição debaixo do luar. Será impossível de encontrar.

Sam olhou para sua mão. É o jeito mais rápido, disse para si mesmo, concentrando-se. Enquanto o sangue fervia, ele fechou o punho, abrindo e fechando os dedos para impedir a fera de controlá-lo.

Conforme o sangue queimava e se transformava, seus sentidos ficaram mais aguçados. Agora, debaixo do luar que pouco iluminava, Sam podia ver. Ele fechou os olhos e deixou os sentimentos o dominarem. Escutou um som baixo e rítmico. Um coração batendo, compreendeu. Tem alguém que ainda está vivo aqui, pensou, percebendo que ele não sentia com relação a isso.

Caminhando até o som, ele notou que vinha de debaixo de uma casa. Enquanto levantava os restos, leves como penas para ele graças ao sangue, Sam notou, com uma estranha sensação, que era a sua casa. Todavia, não parou.

Quando Sam puxou o resto da parede destruída, ele sentiu suas pernas perderem a força e caiu de joelhos. Ele conhecia aquele rosto. O rosto de alguém que amou por anos.

— Mirela! — O coração dela… como… Eu a vi morrendo com meus próprios olhos… Ele puxou e jogou tudo até que ela estivesse livre. — Ei, fale comigo — disse, acariciando o rosto da namorada gentilmente. — Você está viva… Eu ouvi seu coração…

Não importa o quanto ele chamasse, Mirela não respondia. Ele colocou o ouvido no peito dela. Não está batendo.

Virando a cabeça, ele encontrou a fonte do som. Perto de Mirela, havia um coração ainda batendo.

Como as coisas acabaram assim? pensou enquanto abraçava Mirela, as lágrimas caiam pela primeira vez desde que bebera o sangue.

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