SN 2 [PT]

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Tadayoshi sentou lentamente e virou na direção da voz, todo seu sono desaparecendo. Ele estava certo; era mesmo uma criança.

Menor que outras, mas as roupas eram as mesmas. Simples e desgastadas pelo uso diário, a cor já desbotando devido à luz do sol. As mangas e a barra eram mais curtas do que deveriam, sem cobrir completamente as pernas e braços bronzeados. Provavelmente de trabalhar nos campos, Tadayoshi decidiu.

A criança tinha cabelos pretos amarrados atrás da cabeça, com duas mechas soltas e uma franja cobrindo a testa. Mas diferente do que suas roupas sugeriam, o rosto era delicado, e seus olhos…

Tadayoshi quase levantou quando notou os olhos do menino. Seu olhar tinha algo… então finalmente ele percebeu. O olhar dessa criança era vazio. O rosto de alguém que conhece profunda tristeza e dor. Algo comum hoje em dia, o homem pensou. Se não fosse por Kaguya e Taichi, eu estaria desse jeito, Tadayoshi sabia.

— Não, não. Eu não sou um ladrão — ele disse, levantando devagar para não assustar a criança. — Mas não se preocupe. Já cuidei deles. – Ele mostrou o mesmo sorriso que usou com os bandidos mais cedo, apesar de com outro significado.

Foi o mesmo que nada. A criança ficou parada, encarando o homem que acusava.

— Você é sim — a criança disse de novo, sua voz no mesmo tom sem emoção. – Esses pêssegos não eram seus.

Ele olhou para os restos das frutas perto de seus pés.

— Encontrei-os nessa árvore — ele apontou para cima — então assumi que pertenciam a natureza.

— Errado. Eles eram da minha vila. — O olhar acabaram na mesma coisa que atraiu a atenção dos ladrões; a katana. Seus olhos encararam o cabo por um tempo, um tipo de brilho despertando atrás deles. — Um samurai deve retribuir tudo que recebeu. Você tem que fazer um trabalho pra minha vila.

Não é nem um pedido, Tadayoshi pensou, rindo por um instante. Ele parou de rir quase na mesma hora. Pra exigir algo de um estranho, especialmente um com uma espada. Esse moleque é ousado… ou está desesperado demais.

— Antes de tudo, não sou um samurai — Tadayoshi reclamou. A essa altura, ele já estava acostumado, mesmo assim o irritava, e ele negava toda vez. Não sou como meu mestre. — Eu não devo nada a você nem a sua vila, mas talvez eu possa ajudar. — Melhor do que dormir a céu aberto de novo. E seria bom demais conseguir algumas roupas.

Ainda sem nenhuma expressão, a criança acenou a cabeça e virou, andando de volta para a trilha principal. Virando as costas pra um estranho… Tadayoshi seguiu a uma distância, tentando sentir qualquer presença próxima.

— Qual o trabalho exatamente? — Andar tanto tempo com alguém em silêncio era tedioso. A primeira pessoa que não foge ou me ataca em semanas acaba sendo um moleque calado. — Me chamo Tadayoshi, por sinal – ele acrescentou ao lembrar que não tinha se apresentado e que nem sabia o nome da criança.

— Proteger minha vila — ele respondeu secamente.

Tadayoshi segurou o impulso de suspirar. Então era um trabalho desses

O espadachim esperou por mais, mas o menino ficou em silêncio de novo. O homem podia dizer que a criança queria falar mais, e faria caso Tadayoshi pedisse. No entanto, algo o fez esperar sem dizer uma palavra. Essa criança precisa falar por si mesmo, ele percebeu e esperou.

— Minha vila foi atacada… — o menino finalmente falou depois de um longo tempo. Apesar da voz continuar no mesmo tom, Tadayoshi percebeu que a respiração da criança estava mais lenta. Ele está reprimindo as emoções… O menino respirou fundo e disse: — Lutamos e os expulsamos, mas eles vão voltar. Hoje ou amanhã.

Não falaram mais nada enquanto voltavam para a trilha principal. A criança foi na mesma direção que Tadayoshi estava indo antes de sua pausa. O caminho se dividia em algum ponto, mas o menino seguiu em frente sem hesitar. O espadachim espiou outra trilha, seus olhos indo para as pegadas apagadas pela natureza. Ele conseguia perceber que eram recente e o deixou inquieto.

Poderia ser aqueles bandidosSerá que foram pro esconderijo deles… ou a fortaleza próxima? Sem perceber, sua mão estava sobre a cicatriz. Tadayoshi puxou as roupas o máximo que podia sem rasgá-la.

Apesar da vila não ser longe, eles levaram tempo demais para chegar lá. Os passos da criança não se comparavam com os dele, mas a única coisa que Tadayoshi podia fazer era acompanhá-los. Quando finalmente chegaram, o sol já começava a se pôr no oeste e os moradores já tinham acendido algumas tochas.

Era igual a outros vilarejos; pequenas casas, algumas construções maiores, provavelmente o depósito da colheita e ferramentas e onde os moradores tinham suas reuniões. Ao fundo, os campos se estendiam até chegar na floresta que cercava. Se não fosse as casas queimadas na entrada, não teria nada que destacasse de outros vilarejos. Algumas ainda tinham restos de paredes, mas o fogo tinha consumido a maioria das casas naquela área. Ainda tinha marcas de fuligem no chão.

Foi um grande incêndio, Tadayoshi pensou, desviando das pilhas que madeira queimada. Isso era pra ser uma barreira ou algo assim? Ele percebeu outra coisa. As mulheres e crianças trabalhavam nos campos, plantando mudas de arroz. Ele tinha visto o ritual de plantação de arroz algumas vezes, mas o que ele via agora era o oposto. Não tinha nada que lembrasse as festividades. Não tinha dança ou música para inadama, o espírito que reside dentro do arroz. A expressão dos homens cercando o campo dizia tudo; ninguém na vila estava no clima de festival. Eles estavam apenas parado lá ao redor. Não, estão protegendo, o espadachim percebeu.

A criança ignorou as casas queimadas e continuou, respondendo os cumprimentos dos poucos moradores com um aceno rápido, sem nunca parar. Ninguém cumprimentou Tadayoshi. Em vez disso, eles paravam suas tarefas e qualquer expressão que tinham se tornava numa encarada suspeita quando o viam. Pelo menos é melhor que o usual. Tadayoshi olhou de novo. É como se já tivessem desistido

Eles pararam na frente da segunda maior construção da vila, quase no centro. Tadayoshi conseguia escutar gritos vindo de dentro, mas mesmo concentrando sua audição, era difícil entender o que estavam dizendo. Sem tirar as sandálias, a criança abriu a porta e encarou o espadachim.

Tadayoshi balançou a cabeça e não se mexeu nem um pouco. Não tem chances de pular no meio disso… especialmente com uma espada, ele disse para si. A criança virou de costas e entrou.

O aposento estava lotado. Alguns estavam em pé, mas a maioria dos homens e mulheres estavam sentados em lados opostos com as costas para a porta. Os pouco rostos que Tadayoshi via choravam, mas o que ele sentia era além da tristeza. Frustração e ódio.

O único que parecia calmo era um senhor sentado sozinho na parede oposta à entrada. O chefe da vila, assumiu Tadayoshi. Com os olhos fechados, era impossível para o espadachim saber o que se passava por trás da expressão serena.

— Então vamos fazer o quê? — um rapaz gritou para o senhor e olhou ao redor, procurando apoio. Ninguém respondeu. Todos viraram a cabeça, evitando encontrar os olhos do rapaz.

— Achei alguém pra ajudar — o menino anunciou. Apesar de falar num tom normal, ninguém prestou atenção nele.

— Quer que a gente lute? — uma voz ecoou no meio dos moradores.

— A gente vai morrer… — uma mulher disse e vários murmuraram concordando.

— Então a gente vai desistir? — o jovem gritou de novo. Só agora que ele virou para todas as direções desesperado por qualquer apoio, Tadayoshi viu que ele tinha uma atadura sobre um olho.

— Achei alguém pra ajudar — a criança disse de novo quando o silêncio tomou conta do aposento. Pouco a pouco os olhos de todos se voltaram para ele. — Um samurai.

O silêncio apenas cresceu como reação. Os homens e mulheres encararam o menino e então trocaram olhares entre si, nunca notando o homem suspirando na porta. Eu não sou um samurai… O jovem com a atadura mordeu os lábios.

— Ei… estamos agradecidos, mas não podemos…

— Quem poderia nos ajudar?

— Confiar num estranho…

O número de murmúrio cresceu tanto que era difícil dizer quem estava falando. Eles estão certo, menino. Não sei o que aconteceu aqui, mas é melhor sobreviver do que desperdiçar a vida numa luta sem sentido…

— Vamos desistir? — Ei disse acima das vozes. Apesar de dizer a mesma coisa que o jovem com ataduras, não tinha desespero em sua voz, e palavras atingiram os moradores como uma katana.

Mesmo sob os olhares todos, ele demonstra nenhuma emoção… esse moleque é muito parecido com o antigo eu, Tadayoshi pensou, apertando sua espada com mais força. O que será que aconteceu com ele?

— Claro que não! – Atadura estava gritando de novo. — Mandamos alguém pedir ajuda pro nosso senhor… Ele já deve estar voltando. Até os soldados chegarem, devemos—

— Esse senhor nunca fez nada! — uma mulher interrompeu Ataduras. — Nossas casas queimam e morremos por causa dos inimigos dele!

Alguns choraram em silêncio enquanto outros morderam os lábios e olharam para o chão. Mas a criança nunca mudou sua expressão, seus olhos firmes. É quase como uma máscara permanente, Tadayoshi pensou, encarando o rosto de Ei. Ele observou o enquanto o clima ficava mais e mais pesado e a inquietação preenchia o aposento, o tempo se alongando. O espadachim percebeu que ninguém ali dentro o quebraria, nem mesmo Ataduras.

O sol já desaparecera por completo e as estrelas brilhavam no céu quando um grito atravessando a vila quebrou o silêncio. Tadayoshi inconscientemente apertou sua espada com mais força e virou, dando um passo para o lado. Os moradores que não estavam na reunião estavam segurando tochas em volta de alguma coisa.

Todos dentro da casa correram para fora, ainda sem notar o homem com uma katana na porta. O velho foi o último. Pouco a pouco os moradores abriram caminho para ele, criando uma passagem para o centro da comoção; um cavaleiro solitário. A única diferença entre ele e os moradores era o machado de madeira em sua cintura.

O cavaleiro estava falando com aqueles mais próximo dele, mas quando viu o chefe, ele balançou a cabeça.

— Me desculpe, Dai-jii — ele disse numa voz pesada, olhando para o chão. — Nem consegui falar com o senhor. Ele estava ocupado — ele cuspiu as palavras, apertando as rédeas com tanta força seus dedos estavam brancos. — O único que falou comigo foi o conselheiro. Ele disse que não podia mandar reforços agora porque tem um risco de invasão, mas tentaria enviar alguém para investigar quando desse…

Enquanto o cavaleiro apertava os lábios, os moradores olharam para o chão, cobrindo seus rostos. Alguns viraram para o chefe, seus olhos cheio de terror e suplicando por alguma esperança. Tentaria enviar alguém era o mesmo que nada, Tadayoshi sabia, e suspeitava a razão. Se existia a ameaça de invasão, os senhores abandonariam qualquer vila ou cidade para se defender. Apesar de que, mesmo em épocas seguras, essa vilarejo era longe demais para receber qualquer ajuda rápida.

O poder por essas redondezas pertencem a duas fortalezas, Tadayoshi lembrou. A importante é perto da fronteira… o que faz o alvo mais provável. A outra fortaleza pertencia a um nobre pequeno e sem importância. Os dois senhores respondiam ao clã Matsudaira. Essa vila pertence a que senhor? Lidar com bandidinhos não deveria precisar de tantos soldados… ou esse senhor está com problemas, ou tem algo por trás…

— O que a gente vai fazer? — um senhor falou diretamente com o chefe, segurando a manga dele. — Não podemos abandonar nossas casas…

— Precisamos lutar!

— Não temos armas…

— Nós temos armas — alguém disse. Silêncio tomou conta enquanto todos viravam para o falante. Era Ei.

Tadayoshi arregalou os olhos quando viu. Não era apenas a falta de desespero que o diferencia de Ataduras, ele percebeu. Os olhos de Ei não eram vazios; eles queimavam com determinação. Ele, como incontáveis outros, era alguém que conhecera profunda tristeza e dor, mas não tinha desistido. Tanta determinação… algo raro nesses tempos, e em alguém tão jovem…

— Temos as espadas que eles deixaram pra trás. E temos um samurai. — Pela primeira vez os moradores notaram a presença de Tadayoshi. – Não vamos desistir do nosso lar.

– Ei-chan… quem é esse homem? – uma mulher falou, puxando o menino para perto – Não sabemos quem ele é. Além disso, depender de um estranho…

— Ele pode estar com eles

— É mesmo…

Todos se voltaram contra ele quase no mesmo instante. Preciso fazer alguma coisa antes que isso perca o controle, ele pensou, limpando a garganta.

— O nome pelo qual atendo é Tadayoshi. Estou viajando e acabei nessa área. — Um sorriso nervoso apareceu em seu rosto. Espero que essa multidão seja diferente da última. — Na floresta, essa criança me fez um pedido e me trouxe até aqui. Como preciso de descanso e comida para minha jornada, apreciaria se me deixassem ficar aqui. — Sem nenhuma reação, ele decidiu apostar. — Posso ver as armas deixadas para trás?

Agora eles reagiram, cochichando entre si. O murmuro o deixou nervoso. Droga! Se tem algo pra falar, digam! Tadayoshi queria gritar, mas segurou seu silêncio. Isso não vai me ajudar. O espadachim respirou fundo e olhou diretamente para o chefe, seus olhos se encontrando.

Os moradores viraram para seu líder um por um. O velho os ignorou, seu olhar nunca deixando Tadayoshi. Os olhos claros do chefe o lembravam de seu mestre. O espadachim quase encolheu, mas conseguiu segurar seu instinto de desviar o olhar e encarou de volta.

Depois de um bom tempo, o velho acenou a cabeça e alguém entre a multidão correu e voltou segurando três bainhas. Duas grandes, como a sua, e uma menor. Ei não hesitou ao entregar as armas para Tadayoshi. O espadachim suspeitava que a criança teria ficado ao lado dele o tempo todo caso uma mulher não tivesse o puxado para longe.

Ciente que cada movimento que fazia assustava os moradores, Tadayoshi pegou uma das espadas longas e desembainhou lentamente. Isso ainda os assustou; os mais próximos recuaram e teve alguns que até empurraram os outros para sair do alcance. Pelo menos fiquem parados com essas tochas, ele pensou, suspirando. O espadachim virou suas atenções para a lâmina, analisando cada detalhe da espada sem nomes ou ornamentos.

É uma espada bem feita, apesar do metal não ser um dos melhores. Mesmo sob a luz de tochas, Tadayoshi conseguia dizer. A curvatura da ponta é na medida certa e a curvatura em geral é decente. Isso o deixou inquieto. Bandidos comuns conseguiriam colocar a mão nisso? Ela foi feita por alguém que sabia o que estava fazendo, mas não se deu o trabalho de se esforçar. Nem se compara com as dos bandidos dessa manhã. Ele equilibrou a espada na mão esquerda. A distribuição de peso é boa demais… Alguém poderia vender por um bom dinheiro. Isso o deixou mais suspeito. Tadayoshi encarou o cabo. Eles limparam, mas ainda tem traços de sangue. O espadachim embainhou a espada e pegou a outra katana, chegando na mesma análise. A mesma coisa com a wakizashi também.

Os moradores observaram o estanho olhando as armas em silêncio mortal. Quando Tadayoshi, eles se afastaram um pouco, e quando ele ofereceu as espadas de volta, ninguém ousava se mexer. Apenas Ei avançou, encarando-o sem dizer uma palavra enquanto pegava as armas de volta.

— Acho que essa vila tem mais problemas do que pensa — ele disse para o chefe. — Quem quer que tenha feito essas espadas sabia o que estavam fazendo. O equilíbrio, o corte, o peso, tudo tem sua qualidade. Apesar do metal não ser dos melhores, é improvável bandidos comuns possuírem armas como essas. Provavelmente forjadas num castelo… ou fortaleza.

Suas palavras eram um golpe final. Se alguns ainda tinham esperança, ela desapareceu, dando lugar ao terror crescente. Até mesmo o rosto de Ataduras se contorceu.

— Porque deveríamos escutar você? Você pode estar com eles! — ele gritou. Alguns murmúrios concordaram com ele, e isso fez Ataduras mais confiante. — Você está tentando nos fazer desistir sem lutar! — Mais algumas vozes se juntaram a dele, e alguns moradores até andaram para ficar lado a lado com ele.

Tadayoshi os ignorou e virou para o chefe. O rosto do velho não tinha mudado, seus olhos tão claros como antes. Quase como se minhas palavras só confirmasse algo que já sabia…

– Melhor conversamos sozinhos – o senhor disse, ignorando os protestos e as súplicas.

Tadayoshi seguiu o chefe, focando nas costas dele. Logo estavam de volta a mesma casa onde os moradores estavam antes do cavaleiro solitário chegar. O chefe tirou sandálias andou até o mesmo lugar que estava antes e sentou.

O espadachim tirou as sandálias também, levando seu tempo para não destruir o resto dela. Ele estava prestes a sentar quando se impediu. Droga… é difícil lembrar todas essas formalidades idiotas, mestre. E você nunca se importou muito com elas, ele reclamou em sua cabeça, esperando o chefe o convidar a sentar.

Agora perto o suficiente, Tadayoshi podia ver que o chefe parecia perto dos cinquentas, talvez mais. E o medo pelo futuro da vila o faz parecer ainda mais velho. Seus cabelos eram quase cinza, o preto desaparecendo no pouco que lhe restava. Apesar de não ter cicatrizes visíveis, o cansaço de alguém que trabalhou duro a vida inteira aparecia em seu rosto enrugado.

– Meu nome é Daisuke e sou o chefe dessa vila. – Só falar parecia lhe cansar. Ele respirou fundo e fitou nos olhos de Tadayoshi.

Os olhos castanhos tinham uma profundidade que incomodavam Tadayoshi. Esse velho parece demais com meu mestre. O espadachim se mexeu em seu lugar, fingindo ajeitar a posição. Era desconfortável estar sob aquele olhar por tanto. Ele está procurando mentiras

— Perdoe esse velho, mas quem você é? — o chefe perguntou sem cerimônias. — Não acho que seja alguém perigoso, já que Ei-chan sabe julgar as pessoas. Você é um samurai?

Mesmo trazendo um completo estranho pra sua casa, ainda desconfia. Talvez essa vila ainda tem alguma chance.

— Não sou um samurai — foi a primeira coisa que disse depois de considerar suas palavras. As vezes ele ficava surpreso com o quanto odiava o engano. Seu mestre e seus filhos eram. Ele não. — Depois de comer uns pêssegos, aquela criança me acusou de ladrão, dizendo que as frutas pertenciam a essa vila e que eu deveria pagar — Tadayoshi disse. Depois de um instante, ele decidiu contar a verdade. — Só vim porque eu preciso de um descanso decente

O chefe ficou em silêncio. Tadayoshi abriu a boca, mas mordeu os lábios no instante seguinte, segurando o impulso de dizer outra coisa. Não… posso arriscar minha vida. Não aqui, não agora. Não por pessoas que significam nada pra mim. Contra sua vontade, a voz de seu mestre ecoou em sua mente, usando o mesmo tom que usava quando estava sério. ‘Faça o que achar certo, viva como achar correto! Erros você aprende, lamentos você carrega.’

Cale a boca… você não está mais aqui…

Tadayoshi fechou os olhos e respirou lentamente, retomando o controle de suas emoções. Demorou um tempo para a voz ir embora.

— Daisuke…dono – ele adicionou, lembrando das formalidades — Temo que não posso oferecer qualquer ajuda. Sou apenas um único homem. – um sorriso torto surgiu em seus lábios. Mestre nunca diria que era apenas um único homem.

O senhor encarou de volta, sua expressão a mesma. A única mudança foi em seus olhos. Por um breve momento, tinha uma luz dentro deles, mas rapidamente sumiu, como se nunca tivesse existido. Daisuke-dono não iria se agarrar a qualquer esperança falsa.

— É melhor desse jeito — 0 velho finalmente falou. — Se eles acreditassem que você podia ajudar, isso os atiçaria a lutar… e morrer…

—Me… desculpe… — disse Tadayoshi, desviando o olhar. Tenho que manter a boca calada, ele disse para si. — Tudo que peço é comida e abrigo. E tudo que posso pagar é isso, mas não sei se você querer… — Ele tirou a faca de dentro das vestes e segurou a lâmina pela ponta, oferecendo o cabo para o chefe.

O senhor prendeu a respiração e encarou a arma, seus olhos brilhando de novo. Por um instante, a mão de Daisuke-dono tremeu e se mexeu até a lâmina, mas antes que pegasse, ele puxou a mão de volta.

— Podemos oferecer um pouco de comida e abrigo, mas guarde isso… por favor — o chefe disse, desviando o olhar.

Tadayoshi fez como pedido, colocando a faca de volta onde estava. Que força de vontade tremenda… ele quer lutar, ele quer proteger seu lar, e mesmo assim escolhe o caminho da sobrevivência, e não por ser covarde. Acho que a determinação daquela criança não é tão surpreendente…

Daisuke-dono gesticulou para Tadayoshi levantar. O chefe tomou seu tempo para fazer o mesmo. O espadachim pensou em oferecer uma mão por um instante, mas dispensou a ideia. Ele parece demais com meu mestre.

A casa tinha uma janela e três portas. Daisuke-dono foi para a porta oposta a janela. Ficando uma distância respeitosa do chefe, Tadayoshi espiou a mulher cozinhando dentro da cozinha. Ela preencheu duas tigelas de madeira com a comida, mas quando apanhou a terceira, ela parou. De repente ela tremeu, largou a tigela e cobriu o rosto com as duas mãos.

Daisuke-dono não disse nada enquanto esperava a mulher terminar de chorar. Ela limpou o rosto e virou. Mais lágrimas ameaçavam cair quando ela olhou para o chefe, mas então seus olhos se encheram de terror quando viram o estranho parado atrás do velho.

— Sumire, não se preocupe. Esse é o nosso convidado, Tadayoshi-sama, e ele vai jantar com a gente. — A mulher acenou com a cabeça, mas o medo nunca deixou seus olhos.

Assim é mais parecido, Tadayoshi pensou, segurando um sorriso desconfortável. Alguém usando honorífico comigo já estranho demais, imagine ‘sama’. Mesmo quando era mais jovem e viajava com seu mestre, todos o tratavam como um empregado, nunca como discípulo. O jeito que Sumire-dono o olhava enquanto pegava outra e enchia com milhete na verdade o deixou mais confortável. Mas quando as lágrimas silenciosa voltaram a cair, o espadachim desviou o olhar e apertou os lábios.

Tadayoshi ajudou a tirar a mesa colocada na cozinha para o aposento principal. Sumire-dono trouxe as tigelas e três pratos com um peixe cada. Logo o único som era deles comendo. Isso é estranho… essa deve ser uma das refeições mais silenciosas que já tive. Podia muito bem estar comendo na floresta. Pelo menos os sons da natureza é melhor que isso.

Eles terminaram sem trocar uma palavra. Sumire-dono saiu da casa o mais rápido que pode depois de levar as tigelas e os pratos para a cozinha, sem nunca olhar para o espadachim. Daisuke-dono disse que Tadayoshi poderia dormir no aposento principal, e se quisesse, ele podia pegar um pouco de palha para não precisar dormir diretamente no chão. Então o chefe saiu para checar a vila.

Tadayoshi juntou um pouco de palha e depois de pensar por um instante, ele escolheu o canto oposto à entrada. E eu pensei que tinha perdido esse hábito, ele pensou, um sorriso pequeno aparecendo em seus lábios. Quando era criança, sempre que dormia numa casa, ou estábulo, ou qualquer lugar com paredes, ele sempre escolhia um dos cantos para nunca deixar suas costas expostas. Demorou muito pra eu deixar esse hábito, mesmo depois do meu mestre me achar.

Com seus olhos ficando mais pesados, a pilha de palha parecia tentadora demais para adiar, mas mesmo depois de deitar sua cabeça, algo no fundo de sua mente o incomodou. Quando Tadayoshi escutou o chefe e sua esposa do lado de fora, ele levantou e saiu.

Por um momento senhor estreitou os olhos enquanto encarava o homem bloqueando o caminho deles para a própria casa. Ele se mexeu para ficar entre o espadachim e Sumire-dono, e a mulher agarrou a manga de seu marido.

— Sei que não tenho nenhuma relação, mas poderia me dizer o que aconteceu aqui? — ele perguntou numa voz baixa. — E também… com aquela criança… — Tadayoshi deu voz ao que queria saber de verdade.

O rosto de Daisuke-dono congelou sob a luz de tocha. Ele virou para sua esposa e acenou com a cabeça, seu pescoço tão duro que mal se mexeu. Sumire-dono engoliu seco e passou pelo espadachim, seus olhos chorando de novo.

Quando os dois estavam sozinhos, o velho olhou de novo para Tadayoshi. Seus olhos perderam o foco, mas logo qualquer sinal de emoção desapareceu, seu rosto ilegível. Não… não é ilegível. Apesar de esconder sua dor, ele é um dos que mais sofre, o espadachim percebeu. Não acho que ele quer compartilhar qualquer coisa com um completo estranho. Tadayoshi sabia disso, mas esperou em silêncio de qualquer jeito.

– Dois dias atrás… estávamos preparava para o ritual da plantação — ele começou a falar numa voz pesada. — Seis bandidos apareceram e disseram que a vila era deles agora e… e que se a gente quisesse viver, tínhamos que ir embora… — Daisuke-dono não conseguiu mais segurar e as lágrimas caíram. Ele nunca tentou esconder com as mãos, nem desviou o olhar.

Tadayoshi notou uma coisa. Apesar das lágrimas, o velho nunca emitiu um choro. Este homem já ultrapassou no seu limite, mas está tentando de tudo para garantir que seus amigos e familiares sobrevivam, espadachim percebeu.

Levou um tempo até as lágrimas de Daisuke-dono pararem. Ele limpou o rosto e continuou:

— Ninguém aceitou, mas alguns correram para o depósito de ferramentas procurando qualquer coisa para lutar. Os bandidos colocaram fogo nas casas mais próximas antes que alguém pudesse fazer qualquer coisa. — Ele fechou os olhos e respirou fundo várias vezes. — Ei-chan estava ajudando com o ritual e correu para casa, mas um dos bandidos agarrou aquela criança pelos cabelos e ameaçou com uma espada no momento que Aiko estava saindo de uma das casas em fogo. Quando ela viu sua criança em perigo, ela pulou nas costas do bandido. Um de seus companheiros a puxou e a matou. Meu neto foi o primeiro a voltar do depósito e atacou na mesma hora. — As lágrimas voltaram a cair, mas ele não parou dessa vez. — Alguns o seguiram e eles conseguiram matar três, mas já tínhamos perdidos muitos. Os bandidos colocaram mais casas em fogo para nos assustar, mas já estávamos além do medo. Nós jogamos pedras e eles desistiram e fugiram, mas gritaram que voltariam. Corremos para apagar o fogo, mas tinha crescido demais. Se não fosse a chuva…

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