Samurai NOT 1 [PT]

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Tadayoshi conseguia escutar. Ele escutava folhas balançando no vento, as águas de um pequeno riacho, pássaros voando. Mas o som que chegava aos seus ouvidos não era pertencia à floresta. Ele sabia o que era na mesma hora. Tinha escutado sua vida inteira. O som quase inaudível de metal chacoalhando. O som de uma espada.

O sol brilhava forte e os raios de luz que atravessavam as folhas criavam um lindo cenário. No entanto o homem não prestava muita atenção. Ele caminhava tranquilamente pela pequena trilha na floresta mas, escondidas entre as árvores, duas sombras acompanhavam seus passos. Ou pelo menos era o que acreditavam, já que Tadayoshi percebeu imediatamente. Mas ele não se preocupou o suficiente para parar. Queria encontrar alguém, não importava quem fosse, ou suas intenções. Fazia um bom tempo que ele não encontrava ninguém, a não ser se contasse aqueles atrás de sua cabeça. Se fossem eles, já teriam atacado, Tadayoshi pensou.

– Pare! – uma das sombras gritou e dois homens saltaram do esconderijo patético que não escondia ninguém, bloqueando o caminho de Tadayoshi.

O mais baixo faltava dois dentes da frente. O outro tinha uma cicatriz na bochecha e a ponta levantada do seu nariz fazia-o parecer um porco muito feio. Cada um segurava uma espada, se é que podiam chamar disso. Eram acabadas demais para ser uma ameaça; pequenos arranhões na superfície, lascas ao longo do fio e ferrugem já começava a devorar o metal.

A aparência e armas patéticas fariam Tadayoshi rir, mas o sorriso distorcido e desesperado deles deixavam-no apreensivo. ‘Um inimigo encurralado é um inimigo perigoso’, seu mestre tinha ensinado.

– Passe tudo o que tiver!

O homem perdeu toda apreensão e quase riu ao ouvir isso. Era a última coisa que esperava. Eu pareço possuir alguma coisa de valor? Eu? Suas roupas eram prova disso; um quimono folgado de uma peça, feito para um homem três vezes seu tamanho. Se não estivesse tão desgastado, ele não conseguiria usar. Estava tão rasgado e remendado com pedaços cujas cores não combinavam, com partes verdes, rosas e até estampas floridas, que não dava mais para dizer a cor original.

Mesmo assim, eles estão tentando me roubar. Agora Tadayoshi mal conseguia conter a risada. Ele levantou um braço e olhou para suas roupas atentamente, como se fizesse uma auto avaliação profunda e séria de si mesmo.

– Muito obrigado. Vocês fizeram meu dia — ele disse fazendo uma reverência exagerada, escondendo seu sorriso. — Por onde passo sou tratado como cidadão de última classe. Mas vocês parecem me considerar alguém importante o suficiente para possuir algo de valor. Obrigado.

Os bandidos trocaram olhares, sem saber o que fazer. Pela sujeira e poeira, parecia que estiveram escondido entre as árvores há muito tempo, esperando alguém passar para roubar seu dinheiro ou bens. A trilha através da floresta não era muito usada e depois que a guerra começou a se aproximar da região, viajantes raramente escolhiam esse caminho.

– O que é isso? – O menor apontou sua espada para a mão esquerda do homem.

A mão de Tadayoshi estava em cima de seu ombro, como se massageasse o pescoço. Mas olhando de perto, dava para ver uma faixa. Amarrado na ponta, tinha um embrulho discreto nas costas. Assim como as roupas, o pano estava em péssimo estado, e passaria despercebido por muitos. Mas não para estes bandidos desesperados.

– Isso aqui? – O homem tirou o objeto longo e fino das costas e segurou na sua frente. Com uma das mãos, retirou um pouco do pano prestes a se rasgar, revelando cabo de uma katana. – Apenas uma lembrança da minha antiga vida – ele disse, seu sorriso desaparecendo na mesma hora.

– Um samurai! Irmão, vamos embora! – O temor na voz e o leve tremor do bandido faltando dentes fez o homem dar uma pequena risada.

Não posso culpá-los, Tadayoshi sabia a razão. Provavelmente os únicos samurais dessa redondezas trabalhavam para os senhores locais ou eram ronin, samurai sem um senhor. Em qualquer caso, os bandidos não eram idiotas o suficiente para mexer com quem realmente sabe manejar uma espada.

– Não, não, não – retrucou o homem balançando a cabeça, o sorriso de volta ao seus lábios. – Posso ser muitas coisas, mas samurai não é uma delas.

Tadayoshi queria acalmar os bandidos e poder conversar um pouco mais. Mas ao ver os bandidos suando e trocando mais olhares, ele sabia que tinha falhado. Será que eu pareço relaxado demais para alguém sendo assaltado? Ele se perguntou.

De repente um sorriso tão feio quanto o dono surgiu nos lábios do mais velho. As palavras de Tadayoshi continham mentiras, e seus ouvidos bem acostumados pareceram perceber. O homem quase pode ver a mente do bandido trabalhando. Ele não sabia nada sobre espadas; a que ele e seu irmão usavam eram lixo. No entanto todos sabiam que uma katana de verdade valia mais dinheiro que muitos jamais teriam.

A cobiça de tamanha riqueza falou mais alto que o bom senso deles. Alguém viajando sozinho nesses tempos era idiota. A não ser que soubesse se proteger. Carregar uma arma era a primeira regra. Mas este homem, não só parecia fraco, com sua cara de idiota, disse que não era um samurai, o que o bandido julgava ser verdade. O medo que tinha de um ronin desapareceu na hora. Ele olhou para seu irmão e acenou com a cabeça. Sem dentes engoliu seco e concordou.

Acho que não vai ter mais conversa, Tadayoshi pensou, suspirando.

– Então pode passar essa espada.

Os bandidos circularam o homem, cada um indo para uma direção diferente, balançando os pedaços de metal que alguns chamariam de espada. Quando estavam em lados opostos, apontaram as armas para Tadayoshi e correram ao mesmo tempo.

Durante todo esse tempo, desde que fora abordado até o momento em que os bandidos ficaram ao seu lado, o homem não tinha se mexido. Mesmo quando eles correram, Tadayoshi era uma rocha. Quando as espadas estavam prestes a alcançá-lo, ele deu um passo rápido para trás.

Os bandidos quase se cortaram ao tentar evitar um ao outro, mas não conseguiram parar a colisão. Embolados e sem equilíbrio, os irmãos não puderam fazer nada quando o homem, rindo, empurrou-os com o pé. Ainda unidos, caíram sem resistência.

O homem esperou até saírem do emaranhado de braços e pernas, a raiva transparecendo em seus rostos. Quando finalmente se soltaram e ficaram em pé, o menor correu até Tadayoshi com a arma acima de sua cabeça, pretendendo usar toda sua força para cortar o homem.

A espada fazia um arco tão grande e lento que o homem só precisou usar sua katana ainda embrulhada e embainhada e bater no pedaço de metal do bandido, desviando com a trajetória do golpe. A arma cravou no chão e Tadayoshi a chutou, quebrando-a em vários pedaços pequenos.

– A espada parecia mesmo de terceira categoria, mas não pensei que fosse quebrar com um chutinho desses… – Tadayoshi estava genuinamente surpreso.

O homem agachou e pegou o maior pedaço, analisando enquanto o bandido recuava sem conseguir se levantar. Seu irmão agarrou-o pelo colarinho, forçou ele a se levantar e entregou sua espada. Mas Cicatriz não ficou desarmado por muito tempo. Ele tirou uma faca de dentro do quimono.

Tadayoshi largou o pedaço de metal no chão e levantou, o sorriso desaparecendo completamente de seus lábios. Com a pequena lâmina, o bandido parecia muito mais ameaçador. É a arma que está acostumado, o homem percebeu, sua vontade de sacar a espada crescendo.

De novo os bandidos foram para lados opostos dele, preparando outro ataque. Mas tinha algo diferente dessa vez. Os dois não avançaram ao mesmo tempo. O bandido com a faca não se mexeu, enquanto seu irmão estava fazendo de tudo para atrair a atenção de Tadayoshi. Cicatriz está esperando eu me focar no outro.

O mais novo avançou e esticou os braços, atacando com a mesma estocada de antes. O momentum era grande demais e tudo o que o homem precisou fazer foi atingir a espada com sua katana embainhada. O bandido perdeu o equilíbrio e caiu de novo. Mas agora Tadayoshi não tinha tempo para rir. No momento em que sua atenção foi atraída pelo seu irmão, Cicatriz avançou, bem mais confiante com a pequena lâmina do que com a espada. Cada uma de suas facada era potente e mirada em pontos vitais.

Quantas pessoas ele roubou ou matou com essa habilidade para conseguir algum dinheiro? Pensou o homem, desviando de cada ataque. Sabendo que poderia ficar perigoso quando o outro levantasse, Tadayoshi tinha que pensar em alguma coisa. Ele analisou os golpes, procurando a melhor chance para acabar com isso o mais rápido possível.

O bandido atacou de novo, dessa vez visando o lado esquerdo perto do abdômen, onde ficava a cicatriz de Tadayoshi. O seu instinto agiu antes que percebesse. Ele avançou, desviou da facada e agarrou o pulso do bandido, torcendo com força, quase virando a mão de Cicatriz ao contrário. Com outro movimento rápido, o homem torceu o braço e colocou nas costas do bandido. O rosto dele se contorceu em dor e seus gritos ecoaram pela floresta. O bandido largou a faca, mas Tadayoshi não o soltou.

O mais novo finalmente levantou e atacou numa fúria cega. O homem girou, colocando seu irmão entre eles, transformando-o em escudo. O mais novo não conseguiu parar o golpe, mas conseguiu mudar o arco um pouco. A lâmina quase tirou a orelha de Cicatriz, acertando o chão com força. Dessa vez, sem precisar de um chute, espatifou.

Finalmente o homem largou a mão do bandido e ele caiu em cima do irmão, esfregando o pulso. Acabou, pensou Tadayoshi. Mas quando ele soltou Cicatriz, seu quimono folgado caiu, exibindo por um instante sua cicatriz. Rapidamente ele puxou a roupa, tentando escondê-la.

Merda! Será que viram? Finalmente consegui despistar os idiotas atrás da minha cabeça, fingindo que ia para o norte. Se esses idiotas viram, não terei um minuto de paz. Tadayoshi teve dificuldades para segurar seu instinto, sua mão direita tremendo um pouco, procurando o cabo da sua espada. Ele precisou de todo seu autocontrole para não matá-los na hora.

Os bandidos trocaram olhares, se levantaram e correram. Preciso matá-los. Tadayoshi estava pronto para sacar a espada.

– Mentiroso! Você é um samurai! – Eles gritaram, suas vozes diminuindo pouco a pouco. Seus rostos estavam apavorados quando viraram para ver se Tadayoshi estava seguindo eles.

Não me descobriram…? Quando Tadayoshi percebeu, ele quase riu e toda tensão deixou seu corpo.

– Já falei que não sou… – Ele gritou para as costas dos bandidos, mas suas silhuetas já eram duas massas indistintas. Tadayoshi apanhou a faca e esperou, dando um tempo para eles, e então seguiu no mesmo caminho.

Não demorou muito para sentir fome. Não devia ter brincado tanto com eles, Tadayoshi pensou, seus olhos percorrendo as árvores. Não viu uma fruta sequer. E ele não podia mais adiar. Desde manhã não comera nada.

Saindo da trilha e andando entre as árvores, Tadayoshi olhou atentamente para os galhos até encontrar o que procurava; uma árvore com pêssegos de aparência deliciosa. A faca em sua mão voou, atingindo uma fruta. Suco saia de onde a faca acertou. Está bem madura. Um sorriso apareceu enquanto ele atirava a faca de novo e de novo, até não conseguir segurar tantos pêssegos em um braço só.

Olhando ao redor, achou um pequeno pedaço de terra fofa coberta por folhas que parecia bem confortável. O homem sentou, escolheu o maior pêssego e deu uma mordida generosa. Estava mesmo delicioso. Suco ainda escorria pelo canto de sua boca quando comeu o segundo. Um por um ele devorou todas as frutas, se sentindo satisfeito pela primeira vez em semanas.

Tadayoshi estava prestes a se levantar, mas seus olhos ficaram pesados e sua consciência foi indo embora lentamente. Não… não posso dormir ainda, ele pensou, sacudindo a cabeça. O homem respirou fundo e forçou sua mente a lembrar. Pelo último mapa que viu dessa província, tinha dois castelos e algumas fortalezas na região. Eles as evitaria com todas as forças. Também tinha algumas vilas por perto, mas não sabia se elas estavam próximas o suficiente. Melhor dormir agora… pode ter mais bandidos.

Ele juntou mais folhas do chão, o suficiente para preencher um pequeno espaço entre as raízes de uma árvore. Encostando a cabeça na pilha fofa, Tadayoshi conseguia observar um pequeno pedaço de céu entre as árvores. Com sua consciência indo embora, ele colocou uma mão na barriga e a espada ao seu lado. Isso é confortável demais… Não esperava encontrar tal coisa no meio da floresta, especialmente com sua sorte recente.

Dois dias atrás, Tadayoshi foi pego por uma chuva torrencial. O céu estava claro mas em apenas um instante, parecia que a fúria dos Deuses desceu sobre o mundo, sobre ele. Mesmo buscando a proteção debaixo de uma árvore, não fez muita diferença. Tadayoshi acabou andando seminu por metade do dia. Quando suas roupas finalmente secaram, ele foi procurar comida e ficou preso num arbusto, que fez o favor de rasgar seu quimono um pouco mais. Por sorte suas roupas não se rasgaram completamente, assim ele não precisaria viajar do mesmo modo que nasceu até encontrar uma vila.

E a patética tentativa de assalto hoje. Pelo menos ele ainda conseguia rir com o último, diferente dos primeiros. Mas tinha outra coisa, algo nostálgico. O que parecia outra vida atrás, seu destino mudou porque uns idiotas tentaram roubar a espada dele.

Ainda bem que aqueles bandidos não descobriram quem sou. Deu muito trabalho enganar a todos. Não quero precisar ter cuidado até mesmo quando a natureza me chama.

Algumas semanas atrás, Tadayoshi foi atacado por um shinobi enquanto defecava. Não teve tempo nem de terminar o que começara. E lutar com sua masculinidade exposta não foi uma experiência que gostaria de repetir, principalmente quando o inimigo visava seu ponto mais vulnerável e quase chegou perto com sua kunai.

Mesmo com sua mente quase indo embora, mesmo apreciando seu local inesperado de descanso, Tadayoshi estava atento. E ele escutou quando uma folha foi pisada perto de onde estava. Podia ser só um animal, mas mesmo assim ele ficou em alerta. Com os olhos fechados e o rosto relaxado, ele aguçou seus sentidos ao máximo.

Um homem? Não… a presença é muito pequena… Uma criança… tentando se aproximar. Mas não tem nenhuma intenção assassina ou algo parecido… Vamos ver o que quer.

– Não sabe que é perigoso se aproximar de estranhos? – Ainda sem abrir os olhos, ele falou, sua voz um pouco acima de um sussurro, quando a criança chegou perto o suficiente.

Tadayoshi queria assustar a criança. Ele parecia estar num sono profundo e falar de repente pegaria qualquer um de surpresa. Mas a criança não mudou em nada. Nenhum tipo de reação. Isso o surpreendeu. E o deixou suspeito. Tem alguma coisa errada.

– Você é um ladrão. – Não era uma pergunta. A voz não continha nenhuma emoção.

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