Por Favor Me Chame de Professor!! 1

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Por Favor 1

Mesmo acreditando que existisse pouca ou quase nenhuma chance de alguém reconhecê-lo neste momento, Amane Yuuto estava nervoso. Se por acaso ele encontrasse algum conhecido, sua outra vida seria descoberta e sua vida como professor, acabada.

Ele estava ciente disso, e mesmo assim ousou sair mais uma vez em sua arte. Tudo por causa de um concurso onde apostava seu orgulho e defendendo o título. E eu ganhei, Yuuto pensou feliz, apertando o prêmio através da sacola em suas mãos. Mesmo as roupas que usava, ao mesmo tempo, o protegiam do frio em certas partes e deixavam outras expostas, o professor acreditava que o risco valia a pena.

Mesmo alegre e cantarolando, Yuuto ainda era cuidadoso para não atingir ninguém no metrô com a bagagem que tinha. Ele mudou a sacola de mãos e quase ao mesmo tempo ele viu seu reflexo na janela.

Quando o professor notou seu chapéu roxo um pouco fora de lugar, por reflexo sua mão voou para ajustá-lo e então, quase naturalmente, Yuuto acabou se checando. Wah… Eu devo parecer estranhos para os outros… estranho, mas fofo, o pensamento cruzou sua mente e ele mal conseguiu conter sua própria surpresa, um tímido sorriso em seus lábios.

Além do chapéu, Yuuto vestia uma longa saia branca e plissada com a barra cheia de babados, botas de tornozelo roxas, uma camisa roxa de mangas longas e colarinho e um cachecol roxo claro para combinar. Também tinha lente de contato vermelhas e suas bochechas maquiadas com a quantidade perfeita de blush, o suficiente para fazer um bom contraste com o batom de cor vermelha. E para completar tudo, usava peruca branca que chegava em suas costas.

Sua cabeça estava um pouco quente debaixo da peruca, mas mesmo com o casaco sobretudo roxo, as pernas do professor tremiam de vez em quando devido ao frio do inverno. Apesar de ter tirado durante o concurso, já que não era parte da roupa, agora ele usava uma meia-calça preta, mas não era o suficiente para esquentá-lo.

Preciso agradecer minha irmã de novo, ele pensou com a mão no cachecol. Se não fosse por Yuuka, Yuuto teria escolhido um cachecol branco, e então ele teria cometido um erro. Teria sido pequeno, mas como artista, isso seria impensável para Yuuto. Da próxima vez que encontrar um personagem para fazer cosplay, preciso olhar direito, ele lembrou a si pela centésima vez.

De novo observando seu reflexo, Yuuto não conseguia deixar de sentir um certo orgulho preenchendo-o. Sim, ele era um homem que fazia cosplay de personagens femininos, e apesar de preferir deixar separado de seu mundo normal, ele sentia orgulho por ser um dos melhores.

O professor balançou um pouco para frente e para trás quando o metrô parou na estação. Quando o balanço parou, Yuuto deu espaço para outros passarem… e seu coração quase congelou. Se não estivesse usando maquiagem, suas bochechas estariam pálidas.

Porque no outro lado do metrô, agora procurando por algum lugar para sentar, alguém que poderia mudar sua vida tinha acabado de entrar. E não era apenas um conhecido. Para fazer as coisas muito piores, a pessoa procurando um lugar no vagão era um de seus estudantes, Akaishi Seiji-kun.

Essa não… seus olhos arregalaram e Yuuto imediatamente desviou o olhar. Por que, por que Akaishi-kun está aqui? Pensei que estivesse no hospital por causa de uma briga. Ele lembrava de um de seus colegas mencionando isso. Arriscando uma espiada no estudante, Yuuto confirmou que ele tinha um tipo de atadura ao redor da mão esquerda.

Droga! Aquela breve espiada quase se tornou um grande erro. Akaishi-kun tinha olhado na direção dele ao mesmo tempo. Será que ele me viu? O professor pensou desesperado. Desviando o olhar, Yuuto tentou trocar de lugar, indo o mais longe que podia. Mas no metrô lotado, era impossível se mexer sem esbarrar nas pessoas, criando problemas para outros e fazendo uma cena. Yuuto estava preso em seu lugar, apenas alguns metros de alguém que poderia mudar sua vida para sempre.

Com suor frio descendo pelo pescoço o tempo todo, viagem acabou virando a mais longa e tenebrosa de sua vida inteira.

O professor sabia que deveria fazer tudo para não olhar seu estudante. Mas contra sua vontade e senso comum, Yuuto continuou espiando. E por um longo segundo, seus olhos se encontraram.

Na mesma hora Yuuto virou a cabeça, tão rápido que quase perdeu o equilíbrio. A única razão para o professor ainda estar de pé foi porque o passageiro ao seu lado o segurou sem querer. No início, o senhor ficou com raiva por alguém quase cair em cima dele de repente. Mas quando ele viu que era uma menina bonita, ao seus olhos, ele apenas sorriu quando Yuuto pediu desculpas de forma nervosa. Me desculpe por enganá-lo senhor, o professor pediu desculpas de novo em sua cabeça.

Yuuto fez o seu melhor para se tornar invisível, mas suas roupas não ajudaram nenhum pouco. Com os olhos fechados, o professor não podia fazer nada a não ser esperar.

A viagem pareceu durar mais do que devia, e durante esse tempo, o coração do professor batia tão alto Yuuto podia jurar que os passageiros ao seu redor podiam escutar. Os olhares que ele recebeu dos homens e de algumas mulheres também não ajudaram.

Finalmente, depois do que pareceu uma eternidade, o sistema de som do metrô anunciou a estação dele. Com um suspiro de alivio, Yuuto esperou enquanto os passageiros desciam. Quando foi sua vez de sair, ele arriscou mais uma espiada no estudante. Seus olhos arregalaram; Akaishi-kun não estava mais lá.

Onde ele está? Ele estava ali um minuto atrás! Segurando a respiração, o professor pensou em algo. Será… que essa é a estação dele também…? Não… não pode ser… Sim, tenho certeza que ele achou um lugar para sentar, é só isso… Dispensando o mal pressentimento, Yuuto saiu do metrô… e dessa vez seu coração congelou.

Porque no momento em que ele passou pelas portas, tinha uma sombra bloqueando seu caminho. Ele olhou para cima e percebeu, quase como um soco na barriga, que a sombra na sua frente era exatamente a pessoa que o professor passou a última meia hora pensando.

Minha vida como professor… acabou… Yuuto pensou, se sentindo miserável, enquanto encarava nos olhos sem expressão de Akaishi-kun.

Os últimos passageiros saíram e outros entraram no metrô, passando pelo professor e aluno, apressados demais para notar as duas pessoas se encarando, sem perceber que uma vida estava prestes a mudar.

Pelo que parecia uma eternidade, aluno e professor se entreolharam em completo silêncio, o resto do mundo esquecido. Quase parecia que estavam sozinhos num lugar apenas para os dois. A única coisa que Yuuto conseguia pensar era, apesar do rosto vazio, tinha uma tristeza. Atrás daqueles olhos, tinha um homem, uma pessoa sofrendo.

Será que ele… me reconhece…? Depois de um bom tempo, ou talvez menos de um minuto, Yuuto acordou da situação hipnotizante. Apenas agora ele percebeu que tinha parado de respirar. Com suor gelado descendo pelo pescoço, e o coração batendo alucinadamente, o professor quebrou o olhar e andou ao redor de Akaishi-kun sem nenhuma palavra.

Por favor, não me reconheça… Yuuto gritou em sua mente, a ideia de correr passando pela sua cabeça por um segundo. Mas suas pernas tremendo não o permitiam. Por um breve segundo, o professor realmente acreditou que estava a salvo.

Mas esse misero segundo desapareceu, e Yuuto soube que seu desejo não foi atendido. Ele tinha acabado de passar pelo estudante quando sentiu uma pegava de alguma forma forte e ainda assim gentil em seu ombro.

— Porque você está vestido desse jeito? — a voz sussurrou no ouvido do professor. Era tão perto que Yuuto sentia a respiração de Akaishi-kun em seu ouvido, e isso mandava um tremor estranho através de seu corpo.

— Do… do que está…? — ele tentou falar, mas todas as palavras que o professor de literatura sabia pareciam perdidas. Antes a maquiagem tinha impedido que parecesse pálido, mas agora não ajudou a esconder as bochechas avermelhando. — Eu não… sei do que—

— Não minta para mim — Akaishi-kun disse numa voz subitamente mais energética, mas ainda assim um sussurro. — Eu sei quem você é.

Yuuto virou e viu que o estudante ainda tinha o rosto vazio, mas não conseguia esconder um brilho misterioso em seus olhos.

E como você sabe? Você mal veio para escola o ano inteiro! Yuuto queria dizer, queria gritar, mas segurou sua língua.

Mas um minuto debaixo do olhar minucioso do estudante, algo dentro do professor estalou. Mesmo acostumado com os holofotes graças aos concursos e eventos, nunca foi de tão perto. E por alguma razão, o brilho naqueles olhos tinha crescido. Agora era intenso, intenso demais, e isso fez Yuuto corar ainda mais. O que deixa as coisas pioras era o fato do professor ficar pensando que o estudante tinha olhos lindos.

Yuuto abriu a boca, mas de repente o dedo do estudante estava nos lábios do professor. Foi tão rápido que ele simplesmente ficou em silêncio.

— Venha comigo — Akaishi-kun disse e passou pelo professor.

Por um momento Yuuto ficou em seu lugar, tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Com uma sacudida da cabeça, o professor virou e viu o estudante deixando a estação sem olhar para trás.

Devo segui-lo…? Ele não tinha ideia do que fazer, mas se Yuuto tinha alguma esperança de manter o estudante quieto e salvar sua vida como professor, ele teria que fazer o que Akaishi-kun mandou. Pelo menos por enquanto.

Depois de o alcançar, aluno e professor andaram lado a lado. Yuuto esperou ele dizer alguma coisa, mas Akaishi-kun simplesmente olhava para frente, calado. Mais de uma vez o professor ergueu os olhos para ver que tipo de expressão ele tinha, mas o estudante era nada além de um rosto vazio, apesar de alguma forma ser diferente de mais cedo. Antes parecia que escondia algum tipo de dor; agora tudo que Yuuto conseguia sentir era algum tipo de determinação emanando daqueles olhos.

Ele é bonito… Magro, mas com um pouco de músculos, mais alto que Yuuto e olhos marcantes, o professor se pegou pensando, e corando no outro segundo. O que estou pesando? Ele é meu aluno! Só porque ele ficaria perfeito em cosplay… Não! Pare de pensar nisso! Perceba o problema que está! Mas quanto mais ele tentava evitar, mais sua mente imaginava os cosplays que ficariam perfeito em Akaishi-kun. Então, por alguma razão, as imagens mudaram para eles dois fazendo cosplays juntos.

Completamente envolvido em seus pensamentos, Akaishi-kun tinha o guiado até um prédio impressionante antes que Yuuto notasse.

— Você… vive… aqui? — ele conseguiu falar. Porque estou tão surpreso? A família dele é rica… mesmo que não se importasse muito, o professor pelo menos sabia que o estudante pertencia aquela Família Akaishi, a dona da corporação Pedra Vermelha, uma das maiores do país.

Akaishi-kun virou para Yuuto e não respondeu, seus olhos sugerindo que era uma pergunta completamente estúpida. Mas antes que o professor se irritasse, depois de acenar a cabeça para o porteiro, o estudante simplesmente fez um gesto para Yuuto entrar. Dentro do elevador, ele apertou o botão do último andar e ficou em silêncio o tempo todo.

A falta de conversa só fez a mente de Yuuto explodir com ansiedade. Essa é a pior ida de elevador da história! Qual é desse silêncio extremamente esquisito? Porque ele não diz nada? O que ele está pensando? Esse é um daqueles cenários de chantagem que tem nas histórias? Não, espera… não pode ser… olha onde ele mora… Então o que ele quer de mim? Talvez algo sobre a escola…? Não… ele nem se importa com isso… Ah! O que ele quer?

Não importava o quanto forçasse a cabeça, ao ponto onde Yuuto ficou um pouco tonto, a mente do professor continuava indo a finais ruins para ele. Ele não conseguia pensar em nada de bom que pudesse sair dessa situação. A única coisa boa que conseguia esperar era se conseguisse fazer Akaishi-kun manter o segredo. Tenho que fazer pelo menos isso.

Com um ding, quase como um sino anunciando que o destino de Yuuto chegara, as portas do elevador abriram. Akaishi-kun saiu ainda sem dizer uma palavra. O professor ficou para trás por um instante, imaginando o que aconteceria se simplesmente apertasse o botão e fosse para casa. Mas, mesmo fugindo agora, isso certamente iria voltar para assombrá-lo. Yuuto não podia fazer nada além de relutantemente seguir o estudante.

Quando chegaram no ultimo apartamento no corredor, Akaishi-kun puxou uma única chave de seu bolso e abriu a porta. O queixo de Yuuto quase caiu quando ele viu o interior. Num estilo estrangeiro, a cozinha e a sala faziam um único cômodo grande com uma janela imensa no outro lado.

A vista fez Yuuto esquecer da situação em que estava e jogar as botas de lado, correndo através da sala para a janela. Ele conseguia enxergar outros prédios, casas, o parque, o rio ao fundo.

— Incrível — ele sussurrou para si mesmo depois de um tempo.

— Você acha? — uma voz suave veio ao lado. Yuuto não notara, mas Akaishi-kun estava ao seu lado, observando a vista como se tentasse ver o que seu professor via.

Apenas agora, depois do estudante falar, Yuuto percebeu o erro que cometera. Apesar de Akaishi-kun não parecer se importar nem um pouco, o professor foi até a entrada, apanhou suas botas e colocou-as cuidadosamente no canto, viradas para a porta, se sentindo envergonhado por sua grosseria.

Yuuto deu uma olhada melhor no apartamento. Era mesmo grande, e a falta de decoração e de mobília deixava ainda mais evidente. Apesar da cozinha parecer ter o básico, pelo que o professor podia ver, a sala tinha uma estante cheia encostada no meio da parede oposta às portas, um sofá para três pessoas, uma poltrona, uma TV e alguns videogames no canto, deixando um espaço vazio no meio. As paredes eram nuas a não ser pelas as pinturas penduras aqui e ali.

Wow… é tão maravilhoso… Yuuto pensou, checando uma das pinturas. Todas eram lindas, mas uma em particular agarrou sua atenção. Uma mulher nua sentada no chão com as pernas dobradas para cobrir suas áreas privadas e segurando um seio em cada mão. O rosto não tinha nada a não ser o sorriso e nariz. Não tinha nada erótico nela. Na verdade, Yuuto sentia uma tristeza vindo da pintura.

— Porque essa está inaca—

— Está completa — Akaishi-kun respondeu antes que Yuuto sequer perguntasse. Pela segunda vez em menos de cinco minutos, o professor não notou o estudante em pé ao seu lado.

Ele virou e encarou Akaishi-kun, tentando ver qualquer emoção atrás daqueles olhos. Tinha algo lá, mas Yuuto não conseguia ler o que era. Depois de um momento ele abriu a boca, pensando no melhor jeito de perguntar sobre a pintura. Mas Akaishi-kun percebeu, e respondeu antes que qualquer som saísse dos lábios do professor.

— Mesmo que seja mentira, o sorriso era a única coisa dela que prestava … — ele disse, seus dedos pairando sobre a tela, quase tocando-a. E pela primeira vez Yuuto viu algum resquício de emoção de verdade em seu estudante; tristeza. — Não tinha nenhuma razão para pintar o resto — ele completou, a emoção sumindo quando Akaishi-kun tirou os olhos da pintura, e encarou o professor. — Mas não estamos aqui para falar disso.

É mesmo! Por um momento o professor tinha esquecido sobre o problema em que estava. E apenas agora ele percebeu que tinha entrado no apartamento de seu estudante sem pensar duas vezes e estava muito consciente de quão embaraçosa era sua situação.

Mas tudo o que Akaishi-kun fez foi sentar na poltrona e gesticular para o professor fazer o mesmo no sofá.

Sem outra opção, o professor tirou o casaco e obedeceu. E devido a sobrancelha levantada do estudante, Yuuto percebeu que tinha seus joelhos juntos como uma garota, sentando da mesma forma que o personagem sentaria.

Droga! Eu sempre atuo demais! Ele se xingou e abriu as pernas no hora, mas dado o jeito que estava vestido e o modo que os lábios de Akaishi-kun viravam um pequeno sorriso, o professor soube que isso apenas o fez parecer estranho.

Avermelhando-se, Yuuto desistiu e simplesmente juntou seus joelhos. Akaishi-kun disse nada, apenas encarando intensamente. Depois de um longo tempo nessa situação, Yuuto teve o suficiente.

— Akaishi-kun… o que você—

— Desde quando você se travesti? — Akaishi-kun o interrompeu e perguntou sem cerimonias.

Mesmo diante a situação que estava, Yuuto não conseguiu deixar de ficar irritado. Respirando lentamente através do nariz, ele conseguiu deixar quase toda raiva fora de sua voz.

— Por favor não me faça parecer um pervertido. Não estou travestido, estou fazendo cosplay e é minha forma de arte.

— Cosplay? — Akaishi-kun levantou as sobrancelhas de novo e inclinou a cabeça.

Ele… não sabe nem sobre isso? Com um suspiro, a raiva quase desapareceu de Yuuto.

— É uma combinação das palavras costume play. Somos artistas que trazem personagens de livros, mangás, animes, videogames, filmes e outros tipos de mídia à vida por um pequeno período e trazemos felicidade a nós mesmos e aos fãs — Yuuto explicou com um sorriso nos lábios. Fazia tempo desde que falou sobre isso com alguém que não sabia nada. E o que era mais impressionante era o fato de que Akaishi-kun não parecia julgar.

— Hm… então essa roupa é a representação de um personagem? — o estudante perguntou. O professor acenou com a cabeça e silêncio seguiu. — É comum para homens fazerem… cosplay de mulheres? — ele finalmente perguntou depois de um tempo.

Eu sabia que ia acabar nisso, o professor pensou, suspirando em sua mente.

— Não é comum, mas tem muitos de nós… — Yuuto hesitou por um momento. Ele não riu de mim esse tempo todo… — Existe até um termo para nós. Crossplayers. — o professor finalmente acrescentou, olhando para baixo.

Parte ele temia ver a reação de Akaishi-kun. Ele conseguia lidar com risadas; ele tinha feito isso nas poucas vezes que fora descoberto. Mas o nojo nos olhos o machucavam muito mais. Era o mesmo que rejeitar grande parte de quem ele era.

Cross-dressing cosplay, cosplay travestido, huh? — Akaishi-kun deduziu o significado quase na mesma hora. Sua voz era tão suave Yuuto não conseguia dizer se tinha ou não algum indício de julgamento. — Julgando por senso comum, e da forma como você disse, acredito que tenha fatores negativos em crossplaying… Não está preocupado que alguém o descubra?

Como você? Yuuto queria dizer, mas segurou sua língua. Era verdade.

— Não posso negar. Quando estou na minha arte, sempre tem parte de mim que teme ser descoberto. Quando isso acontece, meu coração gela e minhas pernas tremem… — ele disse, revivendo a sensação neste momento, suas mãos suando apesar da sala fria. Respirando fundo, Yuuto cerrou os punhos para se acalmar.

Akaishi-kun levantou e foi até a geladeira, voltando um momento depois com um copo d’água.  Ele ofereceu para Yuuto, que aceitou em silencio, antes de sentar na poltrona de novo. O professor bebeu metade e colocou o copo no suporte na mesa.

— Obrigado — ele disse.

— Tenho certeza que já está ciente que isso é um risco enorme para um professor — ele ignorou o agradecimento de Yuuto e continuou. — Porque assumir esses riscos por um hobby?

— Estou ciente. Tanto do risco quanto minha posição, mas não é apenas um hobby. Para mim, é minha forma de arte, minha forma de me expressar. — Então ele também não entende, Yuuto pensou, um pouco de frustração se formando nele.

— Como você começou a fazer cosplay? Por quanto tempo tem feito isso?

Yuuto podia se recusar a responder, mas isso não ajudaria sua situação. Além do mais Akaishi-kun parecia ter um interesse genuíno, mesmo que se não entendesse a arte. E também tinha algo mais. Parte de Yuuto queria falar sobre isto que ele amava mais do que devia.

— Tenho feito isso desde meu primeiro ano de faculdade. Tudo começou por causa da minha irmã. Ela precisava de ajuda para vender o mangá dela numa convenção e me pediu ajuda na divulgação.

— Hm… — foi a única reação de Akaishi-kun. Ele observou o professor de cima para baixo tantas vezes Yuuto avermelhou. Ele deveria estar acostumado a isso, mas sempre o deixava com vergonha, especialmente se era por um conhecido. — Você se arrepende de ter ajudado sua irmã?

— Não — Yuuto disse na mesma hora. — Não tenho nenhum arrependimento.

— Diz isso mesmo ela tendo aberto essa porta para você?

— Eu sou responsável por minhas próprias decisões — Yuuto retrucou, sua voz um pouco mais alto do que ele queria. — Não sou uma criança que culpa outros por seus próprios atos. Minha irmã pode ter aberto a porta, mas fui eu que decidi cruza-la.

— Você deve estar ciente que essa porta não é bem vista na sociedade — a voz de Akaishi-kun também estava mais alta, apesar de ainda ser um tom de conversação. Yuuto percebeu que não era uma pergunta. — O que você faria se a escola descobrisse?

— Foi por isso que me trouxe aqui? Para implorar seu silêncio? — Yuuto teve problemas para ficar sentado. Ele respirou fundo várias vezes. Se não se acalmasse, sua raiva iria vencê-lo, e isso não o ajudaria. — Você quer que eu faça algum showzinho particular de cosplay em troca do meu segredo, é isso? – respirar não funcionou.

— Claro que não — Akaishi-kun disse numa voz tão suave que conseguiu acalmar Yuuto um pouco.

O professor encarou seu estudante. Era verdade que Akaishi-kun não parecia ser alguém que chantagearia por isso. Mas o que confortava Yuuto era o fogo vindo daqueles olhos. Era muito mais intenso do que antes.

— O que quero saber é a razão pela qual você continua fazendo isso apesar de ser professor — ele disse olhando Yuuto nos olhos. — Não está com medo de seus estudantes descobrirem?

Ele diz isso como se não fosse um de meus estudantes, Yuuto pensou cansado.

— É verdade que isso me aterroriza — ele admitiu, agarrando sua camisa. Era uma das coisas que o mais amedrontava. Perder o respeito de seus estudantes… — As vezes esse pensamento me paralisa. Só de imaginar os olhares que os estudantes podem me direcionar… — o professor tremeu, não era pelo frio. — Mas mesmo com isso, eu não consigo me ver parando.

— Por que?

— Porque…? — Nem mesmo ele estava ciente. Tudo que sabia neste momento era o fato de que estava cansado, com raiva e medo. — Nem mesmo eu sei de verdade…

— Me diga. — Tinha um indicio de desespero na voz de Akaishi-kun e Yuuto o encarou. — Me diga o que faz você superar esse medo paralisante — o brilho de seu olho se tornou mais intenso. — Me diga o que o faz lutar contra as vozes em sua cabeça dizendo para parar.

— Eu já disse. Nem mesmo eu sei.

— Tem que ter alguma coisa… — o desespero em sua voz ficou mais evidente.

Alguma coisa… Mesmo que as pessoas desdenhassem aqueles que dividiam o amor por cosplays, mesmo que ridiculizassem Yuuto por ser um crossplayer, mesmo que… a escola descobrisse e os estudantes rissem dele, ele pararia?

 Debaixo do olhar intenso de Akaishi-kun, a mente de Yuuto vasculhou tudo que ele tinha experimentado graças ao cosplays. O bom, o mal, o divertido e o doloroso… e a resposta veio até sua mente.

Não. Ele não pararia.

Ele levantou os olhos e algo no canto de sua visão fez as palavras virem até ele.

— Você diria a um pintor para não pintar? Para desistir do pincel?

Akaishi-kun arregalou os olhos.

— Não é a mesma coisa — ele disse num sussurro baixo. O jeito que ele disse deixou Yuuto com raiva. — Não esconda nada de mim.

— Esconder? — o professor tentou controlar a raiva em sua voz. Era difícil. — Você é imaturo demais se pensa desse jeito.

— O que é então? — Pela primeira vez, Akaishi-kun levantou a voz, quase gritando — Você queria ter nascido menina? Você odeia sua vida e precisa ser outra pessoa por algumas míseras horas? Ou você gosta de enganar homens? — Apesar de continuar sentado, sua presença era intimidadora. — Me diga!

Professor e estudante se encararam. Yuuto sentia a raiva borbulhando dentro dele e fez nada para parar, respirando com dificuldades através do nariz com cada segundo.

— Não fique se achando. Você é nada além de uma criança rica que não sabe nada sobre mim. Eu não faço cosplay porque quero ser menina, nem porque gosto de enganar homens. Eu também não gosto da tensão de ser descoberto. E nem é porque quero parecer bonitinho. — Apesar disso o deixar feliz, não tinha razão para Akaishi-kun saber. — É simplesmente porque amo trazer personagens a vida, mesmo que por apenas algumas miseras horas.

Yuuto esqueceu de tudo e ficou na defensiva, colocando tudo para fora antes que conseguisse manter sua boca calada. Ah droga! Se ele ficar com raiva, ele vai dizer para todos…

Akaishi-kun arregalou os olhos com a resposta, mas não deu outro indicio de reação.

— Já que se sente assim, porque você continua ensinado? Podia ter escolhido outro emprego, um que o permitisse fazer os dois sem muita preocupação.

Ele está brincando comigo…? Mesmo se estivesse, Yuuto sabia que precisava responder, ou então ele falharia em ensinar algo, e isso era impensável também.

— Ensinar não é apenas um emprego para mim. É minha profissão, uma que me sinto feliz por acordar todos os dias e ir trabalhar. — Yuuto levantou e encarou seu estudante, sentindo a mesma emoção que sentia em toda aula que dava. Ele gesticulou para todo seu cosplay. — Pode rir se quiser, mas isso é minha forma de expressão. Graças a isso, conheci pessoas maravilhosas, pessoas com uma paixão ardente que até mesmo me inspirou. E eu amo ensinar do mesmo jeito. Amo ver os olhos dos estudantes quando aprendem algo novo do mesmo jeito que amo ver o rostos das crianças iluminando quando me veem como seu personagem favorito. Ensinar é minha profissão, cosplay, minha arte. Eu não quero, não… eu não vou desistir de nenhum dos dois! — Ele colocou tudo para fora, ofegando um pouco no final. Ele nunca tinha dito tanto sobre isso para ninguém, nem mesmo aqueles próximos dele.

Professor e estudante encararam nos olhos um do outro, os segundo virando minuto, ou talvez horas, Yuuto não tinha certeza. Mas uma coisa ele sabia. Se desviasse o olhar, ele perderia algo importante para ele.

— Não irei… não, eu não posso rir — o estudante quebrou o silêncio. — Como poderia? — A surpresa não estava mais em seu rosto, e agora não tinha apenas um indicio de emoção. — Não importa como se veste, você tem o espirito de um homem. Como eu poderia rir de um artista, não, de uma pessoa que sente uma paixão dessas? — Akaishi-kun sorriu. Um verdadeiro sorriso, cheio de admiração e sinceridade. — Eu honestamente sinto inveja de você.

Aquele único sorriso pegou Yuuto desprevenido e fez toda raiva desaparecer. Era tão bonito que o fez corar, e ele simplesmente sentou de volta no sofá sem palavras. Mais uma vez estudante e professor ficaram em silêncio, mas dessa vez era um pouco diferente.

Não por estarem numa batalhas de determinação. O silêncio apenas se tornou estranho porque Yuuto não sabia o que dizer. Parte dele sempre temeu ser descoberto, e sempre se preparou para isso, mas nunca tinha se preparado para alguém o aceitar desse jeito. E graças a reação de seu estudante, o professor não conseguia deixar de sorrir.

— Tire sua camisa — Akaishi-kun disse de repente.

Demorou um tempo para a mente de Yuuto processar as palavras.

— O que você disse? — Certamente o professor tinha escutado errado.

— Eu disse, tire sua camisa — Akaishi-kun disse de novo, como se o pedido fosse comum.

— O que…? — o professor tinha escutado algo completamente inesperado de um estudante.

Um segundo depois Akaishi-kun levantou, olhou o professor de cima para baixo e sorriu. Yuuto imediatamente entendeu a razão. Por reflexo ele tinha agarrado a camisa virado metade de seu corpo. Era uma reação natural que tinha desenvolvido para se proteger dos visitantes mais animados nas convenções ou concursos. E mesmo sabendo que era uma reação feminina, ele fazia. Mas fazer na frente de alguém que sabia sua verdadeira identidade era vergonhoso.

— Você disse que era sua forma de arte, sua forma de expressão. — Akaishi-kun se aproximou, encarando o professor nos olhos. — Então me mostre. Me mostre até onde suas ações correspondem suas palavras — ele se inclinou perto do ouvido de Yuuto. — Eu quero ver até onde você chega — ele sussurrou.

Yuuto não corou nem ficou com vergonha. Ele podia simplesmente recusar e ir embora do apartamento. Tudo poderia explodir na cara dele na segunda feira, ou talvez Akaishi-kun manteria o segredo mesmo se o professor fosse embora furioso. Mas ele descartou a ideia de ir embora quase imediatamente. Não tinha chances dele sair quando uma das coisas que ele amava, não, quando uma parte dele era desafiada; seu orgulho como cosplayer estava em jogo.

Ele levantou e virou para não encarar Akaishi-kun. Com dedos lentos, mas estáveis e com os olhos fechados, ele começou a desabotoar os botões um por um. Mas antes de chegar no sexto, suas mãos pararam. Tirando seu orgulho, era esquisito demais tirar a camisa nessas situação. Yuuto ficou parado, sem mexer os dedos enquanto juntava coragem.

Um segundo depois Yuuto sentiu as mãos de Akaishi-kun em seus ombros. Ele quase engasgou, mas invés de se livrar do estudante, ele ficou imóvel devido a surpresa. Tudo parecia parado… e então, diferente do que as mãos supreendentemente grandes e geladas sugeriam, o estudante tirou a camisa do professor com delicadeza.

Contrariando sua declaração, Yuuto estremeceu. Isso é vergonhoso demais! E exatamente como uma menina, ele de novo cobriu seu peito. Tudo por causa do que havia debaixo da camisa.

— Você vai tão longe ao usar um sutiã… — não era uma pergunta, e tinha um indicio de admiração na voz dele. Akaishi-kun circulou Yuuto lentamente, observando cada centímetro da pele macia do professor. Ele parou atrás do cosplayer… e de repente suas mãos estavam tocando os peitos do Yuuto.

— O que está—

— Isto é… enchimento? — Akaishi-kun o apalpou, mas de alguma forma era um toque gentil. — Eles não são firmes como um de verdade.

— Claro que não! Eu não sou uma mulher! — ele gritou.

Akaishi-kun ignorou e colocou a mão debaixo do enchimento Ah não… Culpando inteiramente nas mãos geladas, independentemente se ele estava gostando ou não, contra sua vontade, os mamilos de Yuuto ficaram um pouco duros. E com cada segundo que Akaishi-kun sentia cada centímetro de seus peitos, eles ficavam mais duros. Ele vai notar!

— Você tem um pouco volume — Akaishi-kun disse, e as mãos desapareceram.

Yuuto não disse nada. Ele apanhou a camisa e cobriu o torso. Esse volume é de quando eu era gordo! Mas ele manteve a boca fechada. Nada de bom aconteceria caso Akaishi-kun descobrisse isso.

— Já acabou? — ele perguntou com mais raiva que queria, seu rosto vermelho.

— Levante os braços — Akaishi-kun ignorou Yuuto por completo.

A contragosto, o professor abriu os braços. Com agora mão quente, Akaishi-kun tocou debaixo do pulso de Yuuto, deslizando um dedo lentamente no antebraço liso. Faz cocegas, ele pensou quando o estudante chegou na dobra do cotovelo, um calor estranho espalhando pelo resto do corpo de onde era tocado.

— Você se depila em todos os lugares?

— Sim… — Yuuto respondeu, mas Akaishi-kun checou mesmo assim.

Sujas mãos tocaram debaixo do braço, descendo pelas costas. Por um momento o professor pensou que ele sentiria a bunda também, e Yuuto a apertou, mas as mãos de Akaishi-kun foram para os quadris e então para a barriga. Então sentiu o outro braço, dessa sem a mesma delicadeza, mas nunca machucou Yuuto.

Foi uma das experiências mais estranhas que o professor teve, incluindo a primeira vez que usou cosplay. Pelo menos acabou… Yuuto pensou, um misto de alivio e vergonha o preenchendo. Mas um segundo depois, a mão estava de volta nas costas, e com apenas um deslizar do dedo, desabotoou o sutiã branco e cheio de babados.

— O que está fazendo? — Yuuto rapidamente levantou as mãos para segurar a roupa intima. Akaishi-kun não tentou tirar o resto.

— Realmente… com esse nível incrível de comprometimento, ninguém pode negar que seja uma forma de arte — ele disse, completamente sério. Ele deu um passo para trás e admirou o cosplayer com um brilho estranho nos olhos. — Suas ações ultrapassam demais suas palavras.

— Obrigado — disse Yuuto, ainda com cautela. Mas o elogio o deixou feliz. Mesmo com tudo, era a primeira vez que ele escutava alguém normal admitindo que não era apenas um hobby. O professor não sabia mais o que fazer, então simplesmente ficou desse jeito, segurando a camisa numa mão, e o sutiã na outra.

Akaishi-kun virou e sem nenhuma palavra andou até a estante. Yuuto sentiu um calafrio e estava prestes a colocar a camisa.

— Não — o estudante virou de volta e disse de repente. Eles ficaram em silencio por segundos, completamente parados. Então os olhos do Akaishi-kun mudaram. — Eu gostaria de retratar sua arte. — Quase invisível ao lado da estante, tinha uma tela em branco e um suporte. — Eu quero retratar você e sua arte — ele disse de novo com um sorriso debaixo dos olhos perplexos de Yuuto.

— Você é um pintor? — Demorou para o professor ligar os pontos. Akaishi-kun o olhou com uma expressão intrigada, e então indicou as paredes com um pincel. Yuuto virou para onde ele apontava. — Você pintou tudo isso…? — ele conseguiu dizer. Ele nunca pensou que o estudante que mal aparecia nas aulas e estava, de acordo com os rumores, envolvido em brigas poderia criar tanta beleza. Foi por isso que ele reagiu de forma estranha com aquela pintura antes… — Não precisa me pintar…

— Você mesmo disse. Você diria para um pintor não pintar? — Akaishi-kun disse com a sobrancelha erguida. Yuuto engoliu em seco. Contra suas próprias palavras, ele não podia fazer nada.

Akaishi-kun trouxe um banco da cozinha. Cansado demais para retrucar, Yuuto simplesmente sentou, esperando que acabasse logo. Um segundo depois, as mãos do estudante estavam sobre o corpo do professor de novo.

— Coloque a perna aqui… desse jeito… e as mãos aqui. E vire o corpo pela metade. — Apesar das instruções, Akaishi-kun colocou tudo do jeito que queria ele mesmo. Yuuto simplesmente suspirou, sem nem protestar.

Pelo menos é uma pose elegante… acho, ele pensou quando Akaishi-kun finalmente parou de toca-lo Yuuto sentava com uma perna no banco e descansava a cabeça nas mãos sobre os joelhos. Exceto pelo sutiã desabotoado, seu torso estava nu e virado pela metade na direção da janela, o lindo pôr-do-sol atrás dele, enquanto seu rosto olhava para Akaishi-kun.

Sem mais nenhuma palavra, o estudante sentou na pequena cadeira que tinha e começou a pintar, tão concentrado que o professor não ousava quebrar o silencio e estragar o momento. Mesmo tendo sido uma das tardes mais loucas de sua vida, Yuuto não conseguia deixar de sorrir ao ver Akaishi-kun trabalhar.

E assim a história entre o professor e o estudante começou.

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